Mensagens de Vorcaro colocam Moraes no centro do escândalo do Master

admin
6 Mar, 2026
Dados e mensagens extraídos pela Polícia Federal de telefones do banqueiro Daniel Vorcaro colocam o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes , no centro do escândalo do Master . Essas informações mostram que os dois trocavam mensagens não oficiais em que Vorcaro fazia relatos a Moraes sobre a venda do Master e tratava com o ministro de um inquérito sigiloso que acabou resultando em sua prisão, em 17 de novembro do ano passado, durante a primeira fase da operação Compliance Zero. Os contatos por aplicativos de trocas de mensagens teriam ocorrido em mais de uma ocasião. Uma das interlocuções teria durado quase todo o dia em que o ex-banqueiro foi preso em novembro do ano passado. Para analistas, isso coloca o ministro Alexandre de Moraes e o próprio STF no epicentro do escândalo que pode ser o maior do sistema bancário brasileiro, com prejuízos que já somam mais de R$ 51 bilhões. Juristas ouvidos pela reportagem dizem que os diálogos, embora sugestivos, ainda não são conclusivos. Mas eles expõem um flanco no STF. “A mensagem de Vorcaro a um ministro do Supremo Tribunal Federal, se ficar confirmado que foi a Alexandre de Moraes, levanta sérias questões. As investigações precisam avançar para determinar o significado exato dessa comunicação e suas implicações, mas isso já coloca mais um ministro no centro do escândalo do caso Master”, destaca o constitucionalista André Marsiglia. O ministro Alexandre de Moraes negou ter mantido as conversas mencionadas e afirmou que a informação seria uma “ilação mentirosa” destinada a atacar o Supremo Tribunal Federal. A defesa de Daniel Vorcaro não quis se manifestar sobre o conteúdo das mensagens. Uma das principais conversas aconteceu no 17 de novembro de 2025. Ela se iniciou pouco após às 7h e se encerrou quase 21h, minutos antes da primeira prisão do banqueiro no aeroporto. Apenas as mensagens de Vorcaro foram interceptadas pela PF, pois Moraes, que seria o interlocutor, escreveu usando um recurso que permitia que suas mensagens fossem permanentemente apagadas após a primeira visualização. As mensagens de Vorcaro abordam dois assuntos: a negociação para a venda do Master e um inquérito sigiloso que investigava supostas fraudes do banco em uma negociação bilionária com o Banco Regional de Brasília (BRB) e que acabaria resultando na prisão do banqueiro. Sobre a venda do banco, Vorcaro escreveu: "Estou tentando antecipar os investidores aqui, e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. E aí eu irei lá pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros" , segundo revelou reportagem do jornal O Globo . De acordo com os registros obtidos pelos investigadores, em outras mensagens Vorcaro poderia estar se referindo a medidas judiciais relacionadas ao inquérito que investiga o banqueiro: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar (...) Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” , escreveu o banqueiro segundo informação divulgada inicialmente por O Globo e confirmada pela Gazeta do Povo . A natureza exata do que Vorcaro tentava dizer sobre "salvar" ou "bloquear" não é clara, mas o contexto daquele dia era de intensa movimentação. Vorcaro estava empenhado em evitar a liquidação de seu banco e escapar de uma ordem de prisão. A Polícia Federal, em representação sigilosa, indicou que Vorcaro, por meio de um esquema envolvendo um subordinado identificado como " Sicário ", invadiu o sistema da PF e de outras instituições e descobriu a existência de um inquérito sigiloso. Este inquérito apurava a venda do Master para o Banco de Brasília (BRB) e poderia resultar em um pedido de prisão. A hipótese é que a mensagem de 17 de novembro tenha permanecido no celular devido à correria do dia de sua prisão, impedindo-o de apagá-la ou mesmo de um esquecimento de enviar como forma de visualização única. Ao acessar ilegalmente o sistema da PF e saber do inquérito, o banqueiro teria tentado descobrir se havia uma ordem de prisão contra ele. O inquérito estava na 10a Vara Federal de Brasília e era sigiloso, o que significa que Vorcaro, como alvo, não deveria ter conhecimento. A partir do conhecimento da investigação, o grupo de Vorcaro teria conseguido emplacar a notícia sobre a vara onde o inquérito tramitava. Ela foi publicada, no dia 17 de novembro em um site de notícias por suposta influência do banqueiro. Em um trecho da suposta conversa com Moraes, o Vorcaro teria dito que “se vazar antes será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo” . Foi justamente utilizando essa publicação no site que a defesa de Vorcaro protocolou uma petição na Vara Federal antes da deflagração da operação, declarando-se à disposição da Justiça e pedindo antecipadamente para não ser preso. Foi nesse contexto que Vorcaro escreveu ao ministro dizendo: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar (...) Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Houve então resposta do ministro, mas com visualização única. As últimas interlocuções entre ambos teriam sido registradas após às 20h, menos de duas horas antes de Vorcaro ser preso. O ex-banqueiro teria pedido ao ministro se havia novidades e recebeu duas mensagens que seriam atribuídas a Moraes. Ambas não foram reveladas. Nas últimas mensagens de Vorcaro, próximo das 21h, ele dizia que a negociação com o grupo estrangeiro “foi o que poderia ter sido feito” e que a medida poderia “inibir”, sem explicar o que exatamente se referia essa inibição. Para investigadores poderia ser uma última tentativa de barrar ações legais contra Vorcaro ou o Master. O ex-banqueiro fecha o diálogo dizendo que estava indo “assinar com os investidores de fora”, indicando que estava saindo do país, mas que “estava online”. Moraes teria, supostamente, reagido com sinal de positivo. Vorcaro não chegou a deixar o país, foi preso dentro de seu jatinho. Outra suspeita da ligação de Moraes e Vorcaro surgiu ainda em dezembro passado. Alexandre de Moraes teria mantido contatos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para supostamente tratar da situação do Banco Master em meio a discussões sobre a possibilidade de liquidação da instituição. À época, a assessoria do ministro negou qualquer tentativa de intervenção, afirmando que Moraes se reuniu com autoridades do sistema financeiro apenas para discutir os efeitos das sanções impostas contra ele e sua esposa pela chamada Lei Magnitsky, e que não houve conversas ou pressões relacionadas ao Master ou a eventuais operações, como a venda do banco de Vorcaro para o Banco de Brasília. Para o constitucionalista Alessandro Chiarottino, as novas revelações que mencionam os possíveis contatos entre Moraes e Vorcaro têm um enorme potencial de jogar o magistrado para o centro de uma crise institucional relevante, caso os fatos venham a ser confirmados. Na avaliação do jurista, o episódio teria potencial para gerar repercussões tanto internas quanto externas ao STF, ampliando o debate sobre a atuação da Corte e seus integrantes. O jornal O Globo também havia revelado a informação de que a mulher de Moraes, a advogada Viviane Barci, havia assinado um contrato de R$ 129 milhões para defender o banco Master. Para o doutor em Direito e comentarista político Luiz Augusto Módolo, as revelações acabam colocando o magistrado em destaque em um dos episódios mais delicados ligados às investigações do Banco Master. Na avaliação de Módolo, a própria natureza do cargo exige distanciamento absoluto de partes ou personagens envolvidos em controvérsias judiciais. Segundo ele, a função de um ministro do STF é atuar exclusivamente como servidor do Estado brasileiro, mantendo independência e imparcialidade. “Não se pode servir a dois senhores”, afirma. Para o jurista, caso um magistrado tenha interesses paralelos, seja em atividades privadas, como advocacia, palestras ou outros negócios, o caminho adequado seria deixar o cargo. “A principal função de um ministro do STF é ser justamente ministro do STF”, acrescenta. Para o constitucionalista André Marsiglia, pelo que se tem visto Vorcaro trocava mensagens com “todo mundo”, menos com sua advogada, “a mulher de Moraes”. Investigadores já haviam identificado indícios de que o empresário Daniel Vorcaro vinha se preparando para explicar publicamente sua relação com o ministro Alexandre de Moraes e também o contrato firmado com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes. De acordo com informações reunidas nas investigações, Vorcaro pretendia sustentar, em eventuais depoimentos, que o escritório havia prestado serviços ao banco, incluindo a elaboração de manuais de compliance, e se preparava para apresentar essa versão, inclusive, no depoimento previsto na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado na semana seguinte. Módolo argumenta que, mesmo em um cenário hipotético no qual o magistrado não tivesse conhecimento de eventuais vínculos profissionais de familiares com pessoas investigadas, a existência de contatos diretos entre um juiz e alguém envolvido em questões judiciais já seria, por si só, problemática. “Juiz fala nos autos e se comunica com as partes por meio de seus advogados”, diz. Para ele, magistrados não devem manter conversas informais ou atuar como espécie de conselheiro para pessoas que enfrentam problemas na Justiça. “Para isso existem advogados”, reforça. A investigação também revelou que Vorcaro tinha acesso a dois chefes de supervisão do Banco Central. Um deles, após a prisão de Vorcaro, teria assinado uma ata de uma reunião “improvisada” no BC. O objetivo era demonstrar que Vorcaro estava a caminho de Dubai para fechar um negócio, vender o Master para investidores árabes, na tentativa de obter capital e evitar a liquidação do banco. Quanto a Vorcaro e Moraes, os investigadores já detectaram pelo menos mais uma conversa por um aplicativo de troca de mensagens, datada de 1o de outubro de 2025, mas o conteúdo não pode ser recuperado até o momento pelo fato de os envios terem ocorrido em forma de visualização única. As investigações seguem em andamento para esclarecer o alcance das comunicações e sua eventual relação com as medidas judiciais adotadas no caso. Módolo afirma que a situação ganha contornos institucionais mais amplos porque envolve integrantes da mais alta Corte do país. Em sua avaliação, se ministros do STF tiverem que se declarar impedidos ou suspeitos em casos ligados a Vorcaro, o próprio funcionamento do tribunal poderia ser afetado. “Hoje o STF tem 11 cadeiras, 10 ocupadas, mas já há indicações de que dois ministros não teriam condições de atuar em processos relacionados ao caso. Dependendo da composição da turma julgadora, o número de magistrados aptos a decidir poderia ficar bastante reduzido”, observa. Chiarottino afirma que, no cenário atual, já se percebe um desgaste crescente na opinião pública em relação ao tribunal. Segundo ele, setores da sociedade, incluindo parte da grande imprensa que anteriormente demonstrava forte apoio ao ministro, passam a demonstrar sinais de fadiga diante de decisões consideradas controversas. O constitucionalista avalia ainda que o episódio pode aprofundar divisões dentro da própria sociedade civil e também no meio jurídico, onde, segundo ele, começam a surgir fissuras no apoio institucional que vinha sendo dado à atuação do Supremo em temas políticos e institucionais recentes. Para Módolo, o episódio revela uma crise institucional incomum. Ele afirma que é difícil encontrar precedentes na história do Supremo em que integrantes da Corte tenham sido associados, ainda que indiretamente, a um escândalo financeiro dessa dimensão. “É uma situação extremamente drástica. Não conseguimos imaginar outros momentos, em qualquer formação do tribunal, em que ministros tenham se visto em circunstância semelhante”, completa. Segundo fontes envolvidas na investigação, Vorcaro tinha o hábito de apagar mensagens e também enviava muitas delas em forma de visualização única. Por isso as conversas com sua então namorada foram consideradas fundamentais para entender supostas ligações dele com autoridades dos Três Poderes da República. No material apreendido em seu celular, há uma outra conversa anterior com Alexandre de Moraes, datada de 1o de outubro, também composta por mensagens de visualização única de ambos os lados e cujo conteúdo é desconhecido. Mas fontes ligadas às investigações relatam que o contato entre os dois não teria sido isolado. Outras conversas não foram descartadas, muitas delas também enviadas com o mesmo recurso de visualização única ou em ligações telefônicas, o que dificulta a recuperação e identificação do registro. Análises da PF já apontariam para supostas chamadas telefônicas entre os dois. Investigadores avaliam que esse padrão de comunicação pode ter sido utilizado justamente para reduzir rastros digitais.