Caso Master amplia pressão sobre o STF, avaliam ministros da Corte

admin
7 Mar, 2026
Integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) consultados em reserva pelo Valor afirmam que os novos desdobramentos sobre o Master colocaram a Corte de vez no centro de uma crise e ampliaram questionamentos em relação à atuação dos ministros. Desta vez, quem virou alvo de críticas e suspeitas foi Alexandre de Moraes, que pode sair enfraquecido, enquanto André Mendonça, relator das investigações sobre o banco, pode se fortalecer, na avaliação de algumas fontes. O caso seguirá tendo novas repercussões: na sexta-feira (13), a Segunda Turma analisa a decisão de Mendonça que prendeu Vorcaro. Na quinta-feira (5), a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, publicou reportagem afirmando que uma das últimas mensagens de Vorcaro antes de o banqueiro ser preso pela primeira vez em novembro foi endereçada a Moraes. O episódio é considerado por ministros mais grave do que as revelações de que Toffoli e familiares tiveram negócios com Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. A jornalista já havia revelado anteriormente um contrato de R$ 129 milhões para que a advogada Viviane Barci, esposa de Moraes, atuasse em defesa do Master. Também, que o ministro teria ligado para Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, para interceder pelo banco. Em nota emitida pelo Supremo na sexta-feira (6), o ministro negou que tenha recebido mensagens de Vorcaro no dia da prisão do banqueiro. “Análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele [ao banqueiro] no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes”, diz o texto. “No conteúdo extraído do celular do executivo pelos investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro”, prossegue. Após a manifestação da Corte, reportagem do jornal O Globo informou que as mensagens a que a publicação teve acesso foram retiradas do celular do dono do Master por meio de análise técnica da Polícia Federal (PF) que permite visualizar, ao mesmo tempo, a tela de WhatsApp com as mensagens e as imagens de visualização única nela contida. Integrantes do STF afirmam que a reportagem que cita Moraes amplia um novo tipo de crise, que não é motivada por decisões, mas pela conduta individual de ministros. Um dos integrantes do STF consultados fez um paralelo entre o que ocorre na Corte e suspeitas até então mais comuns contra parlamentares. Segundo ele, o Supremo nos últimos anos foi o mais estável dos Poderes e conseguiu se manter assim mesmo em período de crises. A avaliação é de que as críticas ao Tribunal geralmente tinham relação com decisões consideradas polêmicas ou com ordens que desagradavam um determinado grupo político. Agora, diz, condutas de colegas estariam levantando dúvida sobre a higidez de magistrados e, por consequência, fragilizando toda a Corte. Um segundo ministro tem uma visão semelhante. Ele diz que é preciso cautela quanto ao episódio envolvendo Moraes e Toffoli. No entanto, considera, episódios que envolvem supostas relações indevidas “soam muito mal”. Outro magistrado disse que o país está “totalmente caótico” e que nunca viu “coisa igual”. Segundo ele, entre os Poderes, havia sobrado apenas o Supremo com estabilidade. Agora, no entanto, a Corte também se encontra em “mau estado”. Parte das críticas, diz, se deu por conta de “virtudes” do Tribunal, enquanto outras são por conta de “defeitos”. O “clima péssimo”, conclui, pode afetar até a eleição deste ano, que tem tudo para ser “violenta e radicalizada”. Um importante interlocutor de um dos ministros também considera o episódio de Moraes mais grave do que o de Toffoli. Ele colocou as situações em perspectiva da seguinte forma: as revelações sobre a relação da família de Toffoli com o Master teriam se dado em um momento em que a atuação do banco ainda era legal. Já as supostas mensagens de Moraes indicam a possibilidade de que um dos mais fortes ministros do STF conversava com regularidade com Vorcaro, possivelmente sobre procedimentos em curso contra o banqueiro. Para o professor Rubens Glezer, da FGV Direito SP, essa é a pior crise de reputação já enfrentada pelo STF. Segundo ele, nos últimos anos, houve outros momentos delicados, mas que giravam em torno do debate sobre as decisões proferidas pelos ministros. Agora, as suspeitas que pairam sob os magistrados são de outra natureza e, segundo ele, precisam ser apuradas. “O problema é que, como há um desgaste de reputação do Supremo, um desgaste acentuado ao longo da última década, você tem uma parcela muito relevante da população que já vai presumir que os ministros citados se comportaram de maneira equivocada. Esse é o dano reputacional”, disse. Para ele, “quando há esse prejuízo na reputação, não há também o benefício da dúvida”. “É por isso que a crise é tão grande e ela se coloca como uma oportunidade para que os ministros tentem tomar alguma das medidas que visem, se não resolver ou reverter a situação, mitigar danos futuros”, apontou. Diante desse cenário, o professor sugere a edição de um código de ética, medida que tem sido defendida pelo presidente do STF, Edson Fachin, mas enfrenta resistência de uma ala da Corte. Para ele, o Supremo sistematicamente abriu mão dessas regras e, por isso, está cada vez mais difícil de ter algum ponto de recuperação. “À primeira vista essas regras são uma restrição do que os ministros podem ou não fazer, mas na verdade tratam-se de uma proteção. São procedimentos que vão justamente tornar mais difícil a suspeita da população, da comunidade jurídica, em que as fronteiras do que pode ou não pode ser feito ficam mais claras.” André Mendonça pode sair fortalecido Enquanto ministros fortes do STF, como Moraes e Toffoli podem sair enfraquecidos dessa crise, Mendonça pode ganhar força desde que assumiu as apurações sobre o Master. Ele já relatava outro importante inquérito que está na Corte: o que trata de desvios associativos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Fachin colocou-se à disposição para ajudar Mendonça. O gabinete do relator do Master conta agora com mais um juiz auxiliar, que se soma aos dois que já atuavam e também a um juiz instrutor. Parte da força que Mendonça ganhou, diz um ministro, se deve ao fato de ele ter assumido o caso Master antagonizando com Toffoli. Enquanto o antigo relator foi duramente criticado por limitar o acesso da Polícia Federal (PF) a provas, Mendonça assumiu a condução dos inquéritos restabelecendo o que chamou de “fluxo ordinário” dos trabalhos, devolvendo aos investigadores os dados colhidos durante a Operação Compliance Zero. Por fim, lembra um outro magistrado, Mendonça será vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições deste ano, o que também garante influência ao relator do Master. Uma ala no STF contesta o suposto “poder” de Mendonça. De acordo com esses ministros, o magistrado não teria “estofo” como outros integrantes do Tribunal, entre eles os que são agora alvo de críticas. Também afirmaram que Mendonça não tem habilidade política nem influência da Corte para dentro. A posição é compartilhada por alguns interlocutores de Paulo Gonet na Procuradoria-Geral da República. Na sexta-feira (6) Gonet respondeu Mendonça, que criticou o PGR por pedir mais prazo para se manifestar favoravelmente ou contra a prisão de Vorcaro e demais alvos da Compliance Zero. Gonet afirmou que não se pode desprezar direitos fundamentais, que a manifestação do Ministério Público não é “formalidade vazia” e citou a tentativa de suicídio de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, que está internado em estado grave. “O impacto de certas providências cautelares de ordem penal sobre valores fundamentais pode ser exemplificado no evento fúnebre ocorrido durante a operação realizada”, disse Gonet em referência à tentativa de suicídio de Sicário.