Ex-marido de Maria da Penha e mais 3 viram réus por ataques à ativista

admin
10 Mar, 2026
A Justiça do Ceará aceitou hoje denúncia do MP-CE (Ministério Público do Ceará) contra quatro suspeitos de integrarem uma rede organizada para atacar a honra da farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes e descredibilizar a lei que leva seu nome. Entre os novos réus estão o ex-marido da ativista, Marco Antônio Heredia Viveiros, já condenado pela tentativa de homicídio; e o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva. Também foram denunciados Marcus Vinícius Mantovanelli e Henrique Barros Lesina Zingano, respectivamente produtor e editor do documentário "A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha". Segundo o Núcleo de Investigação Criminal do MP-CE, o grupo utilizou perseguições virtuais, notícias falsas e um laudo de exame de corpo de delito forjado para sustentar a tese de inocência de Heredia. A denúncia tramita na 9a Vara Criminal de Fortaleza. Do que cada um foi acusado Stalking e misoginia A investigação aponta que os denunciados praticaram crimes de intimidação sistemática virtual (cyberbullying) e perseguição (stalking). O influenciador Alexandre Paiva teria se deslocado até a antiga residência de Maria da Penha, em Fortaleza — local onde ocorreu o crime em 1983 — para gravar vídeos depreciativos e buscar informações sobre o paradeiro da ativista. Mensagens trocadas em grupos de WhatsApp revelaram que o grupo planejava estratégias para "incomodar" a farmacêutica. Em um dos áudios, Paiva relatou ter visto uma senhora em uma cadeira de rodas no Senado e lamentou não ser Maria da Penha: "Eu ia fazer algumas perguntinhas para ela!", ao que Henrique Zingano respondeu com risadas. Para o MP-CE, as condutas visavam causar perturbação à integridade psíquica da vítima, sugerindo que sua história de sobrevivência seria uma "fraude". Laudo adulterado Um dos pontos centrais da denúncia é o uso de um documento falso no documentário produzido pela Brasil Paralelo S/A. O documentário, diz o MP-CE, difundiu informações sobre uma suposta fraude processual no caso que condenou Heredia e apresentou um laudo adulterado de um exame de corpo de delito do ex-marido de Maria da Penha. Ele alegava que o casal tinha sido vítima de assaltantes, e que a luta corporal com os prováveis bandidos teria provocado o disparo de tiro em Maria da Penha e lesões no queixo, mão e pescoço dele próprio. A Pefoce (Perícia Forense do Estado do Ceará) comprovou que o auto de exame de corpo de delito original de Heredia passou por uma montagem. Lucro com desinformação A investigação também apontou que o grupo buscava lucrar com a campanha de ódio. As quebras de sigilo bancário mostraram que Alexandre Paiva recebia pagamentos de plataformas como Google e Meta, além de possuir investimentos em criptomoedas, apesar de pedir doações aos seguidores. A operação, batizada de "Echo Chamber", resultou na suspensão de perfis nas redes sociais e na proibição de contato dos investigados com a ativista. Devido à gravidade das ameaças, Maria da Penha foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Posicionamento das defesas Marcio Godinho, advogado de Alexandre Gonçalves de Paiva, afirmou ao UOL que ainda não teve acesso aos autos. "Mais alguns dias e eu estarei à disposição para falar sobre isso", diz. A reportagem busca contato com as defesas de Marco Antônio Heredia Viveiros, Marcus Vinícius Mantovanelli e Henrique Barros Lesina Zingano para que se manifestem sobre a aceitação da denúncia e as acusações do MP-CE. O espaço segue aberto para manifestações.