Taurus (TASA4): fim das tarifas de Trump e conflito no Oriente Médio podem destravar ação e dividendos?

admin
10 Mar, 2026
Nos últimos anos, a Taurus (TASA4) enfrentou uma tempestade perfeita. Após sair com sucesso de uma reestruturação que durou três anos (2018-2021), a companhia dava seus primeiros passos para integrar o grupo de boas pagadoras de dividendos da Bolsa brasileira. Mas alguns imprevistos, fora do controle da empresa, desviaram esse caminho.A fabricante de armas, que almejava pagar dividendos trimestrais, foi afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que pressionaram sua operação. Em 2025, sob a sombra das tarifas de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a Taurus entrou no olho do furacão ao ser diretamente impactada pelas exportações para o país norte-americano, um de seus principais mercados.As ações sentiram rapidamente o peso desses eventos. Um estudo exclusivo do TradeMap para o E-Investidor mostra que, desde o anúncio das primeiras tarifas de Donald Trump em abril de 2025, de 10%, as ações TASA3 e TASA4 recuaram 20,55% e 20,19%, respectivamente. Publicidade A queda se aprofundou quando as taxas foram elevadas para 50%, com as ações ordinárias acumulando baixa de 20,88% e as preferenciais TASA4 de 13,51%.O fim das tarifas e o estabelecimento de uma taxa provisória de 10%, porém, reverteram a tendência. A partir de 20 de fevereiro, quando a Suprema Corte dos EUA derrubou o tarifaço, as ações da Taurus chegaram a saltar 12,84%. Veja abaixo:Embora a fabricante ainda esteja sujeita a uma taxa provisória de 10%, a derrubada das tarifas traz efeito positivo para a companhia em margens, ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e lucro líquido. Publicidade Segundo a Taurus, os resultados não devem ser imediatos, mas podem ser percebidos ainda neste ano. A grande dúvida do mercado é se a companhia voltará ao caminho de boa pagadora de dividendos ou se outros fatores devem ganhar prioridade.Gestão avalia o fim das tarifasSalesio Nuhs, CEO da Taurus, explicou ao E-Investidor que a eliminação das tarifas de 50% tende a ter impacto positivo nas margens, Ebitda e lucro líquido da empresa. “Durante o período em que as tarifas estavam em vigor, pagamos aproximadamente US$ 18 milhões, o que afetou diretamente nosso caixa e resultados”, afirma.Nuhs destaca que, além do custo extra de US$ 18 milhões, a taxação reduziu o ritmo de vendas da Taurus nos Estados Unidos desde abril de 2025. “Portanto, o principal efeito da mudança tarifária ocorre na rentabilidade e não no volume de receitas”, diz o CEO.Segundo a Taurus, mesmo com a taxa provisória de 10%, os investidores já devem começar a sentir de forma mais clara o efeito da redução das tarifas a partir dos resultados do 2o trimestre de 2026.Analistas avaliam sinais de reversãoPara Carlos Herrera, analista da Condor Insider, a redução e possível fim das tarifas de Trump têm efeito duplo sobre a empresa: melhora estrutural de competitividade e recuperação de caixa por meio de crédito.Na visão de Herrera, o tarifaço inviabilizou a exportação de armas longas para os Estados Unidos, levando a empresa a suspender envios e vender apenas estoques que já estavam internalizados no mercado americano. Publicidade Com a remoção da sobretaxa, o analista vê espaço para a companhia voltar a abastecer esse produto e recuperar volume e receita em armas longas. A operação nos EUA, diz ele, estava limitada por logística e custo, e não apenas pela demanda.Herrera também aponta ganho de competitividade, já que a Taurus adotou medidas defensivas para manter as vendas, como ajuste de preços de transferência, reconfiguração logística e migração de montagem. “Essas medidas continuam valendo, mas agora você remove o choque negativo das tarifas, preservando os ganhos de adaptação. A tendência é a Taurus ficar mais competitiva do que antes”, defende.Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, avalia que os efeitos de uma tarifa menor devem aparecer em um ou dois trimestres, com reprecificação de pedidos, mix e estoques. Para dividendos, porém, sinais positivos devem surgir apenas no médio prazo.De acordo com ele, o cenário ideal seria o fim das tarifas. Com uma taxa de 10%, a empresa ainda teria de repassar preços, com risco de perder volume, ou absorver parte do custo, pressionando as margens. Publicidade Sobre eventual reembolso dos US$ 18 milhões pagos em tarifas, Simão avalia que o processo tende a ser demorado. “Se reembolsado ou restituído, será um evento pontual de caixa e não se tornará um dividendo estrutural”, afirma.Endividamento preocupaApesar de não estar tão complexo como na reestruturação, o endividamento da Taurus segue elevado. Em 2024, era de 1,8 vezes e subiu para 2,95 vezes com a pressão das tarifas.Marco Saravalle, estrategista-chefe da MSX Invest, destaca que o aumento foi natural, mas pode se agravar com os empréstimos de R$ 150 milhões na linha do Brasil Soberano.Herrera, da Condor, considera o diagnóstico de alerta, embora a empresa busque linhas de financiamento semelhantes para dar mais liquidez. Ele projeta alavancagem de 5 vezes dívida líquida sobre ebitda ao fim de 2025. O balanço anual da Taurus será divulgado em 24 de março.Para os analistas consultados pelo E-Investidor, “não há como afirmar que o endividamento está totalmente equacionado” ou que deixou de ser preocupação para o investidor.DividendosUm dos principais questionamentos do investidor pessoa física é quando a Taurus retomará pagamentos atrativos de proventos ou se seguirá apenas o mínimo da sua política de 35% do lucro líquido (payout). Publicidade Marco Saravalle, da MSX Invest, destaca que a capacidade de pagar dividendos extraordinários depende da geração de caixa e da estabilidade financeira da companhia. “A empresa comentou a analistas que está temporariamente restrita de pagar dividendos extras por conta do empréstimo da linha Brasil Soberano. Não teremos dividendos extras enquanto durar o período e as obrigações do empréstimo, que vão até dezembro de 2026”, explica.Saravalle é otimista para ganho de capital, mas projeta apenas 3% de retorno em dividendos para TASA4 em 2026.Herrera, da Condor, é mais pessimista e espera 0%, considerando que a alavancagem pode atingir 5 vezes o ebitda, com a empresa preservando caixa em um ambiente ainda imprevisível. “O efeito nos dividendos só será relevante a partir de 2027 ou 2028. A Taurus ainda opera sob alta incerteza nos Estados Unidos e no Brasil, e as eleições podem gerar volatilidade”, afirma. Ele classifica a companhia como uma “pimentinha”, com potencial de valorização, mas sem ser uma vaca leiteira até 2027.Simão, do Hub do Investidor, concorda e projeta 0% em dividendos para 2026. Mesmo com a redução das tarifas, ele alerta que o mercado precisará ver normalização do lucro recorrente, disciplina nos estoques e gestão de capital de giro antes de esperar distribuição de dividendos consistente. Publicidade A Taurus, questionada, diz que ainda é prematuro fazer novas projeções de dividendos. “Mantemos a política de distribuição de cerca de 35% do lucro líquido da empresa”, afirma Nuhs. No passado, o CEO chegou a mencionar que proventos poderiam ser anunciados em 2026, mas pagos apenas em 2027, diante do efeito de tarifas, mas sem nova confirmação oficial da empresa sobre o assunto.Guerra no Oriente Médio faz preço?O aumento das tensões geopolíticas e a guerra entre EUA e Irã levantam questionamentos sobre possível aumento de vendas para a Taurus.Para os analistas consultados, o impacto é limitado, pois a linha bélica da empresa é pouco relevante para a receita. Herrera reforça que o principal mercado continua sendo os EUA, com vendas focadas no segmento civil.Saravalle destaca que eventos como a guerra no Oriente Médio podem reforçar a importância de investir em defesa, oferecendo oportunidade para a Taurus ampliar sua presença no segmento militar e institucional no longo prazo.Segundo o CEO da Taurus, os impactos da guerra no Oriente Médio são indiretos, podendo elevar a percepção de risco entre consumidores e influenciar a demanda de armas no mercado civil americano.Já em relação às eleições presidenciais, o impacto em receita também não deve ser significativo, mas quem sente os efeitos são as ações, que diante da volatilidade e incertezas podem destravar valor ou despencar. “Pode afetar as ações, mas não o operacional da companhia. O Brasil é pouco representativo para Taurus e mesmo com forte crescimento, não teria impacto em mais de 20% das receitas”, diz Saravalle.