Como manter a hidratação durante o uso das canetas emagrecedoras

admin
10 Mar, 2026
O uso das "canetas emagrecedoras", que são os medicamentos análogos de GLP-1, se tornou cada vez mais comum no tratamento da obesidade e do sobrepeso. No consultório, tenho atendido muitos pacientes que usam esses medicamentos e, na prática clínica, eles ajudam bastante a reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade. Isso faz com que meus pacientes consigam emagrecer de forma constante, o que tem sido muito positivo. Mas existe um ponto que quase sempre passa despercebido: a hidratação. Percebo que muitos pacientes estão atentos à dose do medicamento, ao que podem ou não comer e até aos possíveis efeitos colaterais. Porém, raramente alguém menciona espontaneamente quanto está bebendo de água. Eu sempre preciso perguntar e, normalmente, o paciente demora para responder, precisa pensar e fazer contas. Isso importa muito. Afinal, a água participa de praticamente todos os processos do organismo: metabolismo energético, digestão, funcionamento dos rins, regulação da temperatura corporal e transporte de nutrientes. Durante o processo de emagrecimento, especialmente quando o déficit calórico está mais elevado, manter uma hidratação adequada se torna ainda mais relevante. Além disso, beber água em quantidade suficiente pode ajudar a reduzir sintomas relativamente comuns no início do tratamento, como fadiga, tontura e constipação. O problema é que, com o uso dessas medicações, beber água nem sempre acontece de forma natural. Afinal, a pessoa sente menos fome e, muitas vezes, menos sede também. Isso acontece porque as canetas atuam em regiões do cérebro que regulam fome e saciedade. É justamente esse mecanismo que ajuda a reduzir o consumo alimentar. O que nem sempre fica claro para quem usa a medicação é que esse efeito pode influenciar também o comportamento em relação à ingestão de líquidos. Na prática, alguns pacientes simplesmente passam a beber menos água ao longo do dia. E muitas vezes isso acontece sem que a pessoa perceba, já que a sensação de sede diminui. Outro fator que observo no consultório é que, como o apetite diminui bastante, a pessoa não consegue mais ingerir o mesmo volume de frutas, vegetais, sopas e outras preparações mais úmidas. Com isso, também diminui a quantidade de líquido proveniente desses alimentos. Sinais de desidratação Outro ponto importante é que náuseas, vômitos, digestão mais lenta e, em alguns casos, episódios de diarreia são relativamente comuns nas fases iniciais do tratamento ou após ajustes de dose. Quando esses sintomas aparecem, pode haver uma perda maior de líquidos e eletrólitos. Ao mesmo tempo, algumas pessoas relatam dificuldade em beber grandes volumes de água de uma vez, justamente porque o estômago permanece cheio por mais tempo. Por isso, muitas vezes precisamos mudar a estratégia: em vez de tentar beber grandes quantidades de água de uma vez, costuma funcionar melhor distribuir pequenos volumes ao longo do dia. A dica que sempre dou é andar com uma garrafinha e beber aos poucos ao longo do dia. Costumo orientar até que horas a garrafa precisa ser reabastecida para que a pessoa consiga atingir a quantidade total de água prevista para o dia. E sempre que surgirem sinais como boca seca, sensação de cansaço excessivo, tontura, câimbras ou pele mais ressecada, vale observar se o consumo de água não está abaixo do recomendado. Outro indicador prático é a cor da urina. Tons mais claros geralmente indicam uma hidratação adequada, enquanto uma urina mais escura pode ser um sinal de que o corpo precisa de mais água. Não é um método perfeito, mas ajuda bastante no dia a dia. Eu até brinco com meus pacientes: fez xixi, já aproveita para checar a cor. Depois veja se está atingindo a meta de água do dia. Se não estiver, beba um copo de água. Quantidade ideal Outro ponto ao qual precisamos ficar atentos é que dias muito quentes, prática de exercícios físicos e atividades realizadas ao ar livre aumentam naturalmente a perda de líquidos pelo suor. Se a ingestão de água não acompanha essa perda, o desequilíbrio pode aparecer com mais facilidade. A recomendação clássica de beber dois litros de água por dia é apenas uma referência geral. Na prática, a necessidade de líquidos varia bastante de acordo com peso corporal, nível de atividade física, clima e condições de saúde. Como regra geral, costumamos calcular cerca de 35 ml de água por quilo de peso corporal. Assim, uma pessoa com 80 kg precisaria consumir em torno de 2.800 ml por dia. Se ela pratica exercícios, geralmente acrescentamos cerca de 250 ml a cada 30 minutos de treino, principalmente quando a atividade é feita ao ar livre. Uma dica que gosto de dar é aromatizar a água com frutas ou ervas quando houver dificuldade em beber água pura. Além disso, também dá para usar chás. Você pode colocar um sachê de chá dentro da garrafinha e consumir essa água ao longo do dia. Para quem trabalha em trabalho remoto, costumo indicar fazer a infusão do chá como de costume e depois transferir o chá já pronto para um copo cheio de gelo. Assim, você ainda consegue aproveitar os benefícios das ervas. Para quem já consegue consumir um volume maior de comida, dar preferência a frutas como melancia, melão, morango e laranja também ajuda a complementar a ingestão de líquidos. Vegetais como pepino, tomate e abobrinha contribuem nesse sentido. Sopas leves, caldos caseiros e água de coco também podem ser aliados interessantes, especialmente para quem está comendo menos. Hoje vemos uma propaganda enorme para o consumo de eletrólitos, mas será que eles são realmente necessários? Em algumas situações específicas, como episódios de vômito, diarreia, treinos intensos ou exposição prolongada ao calor, a perda de eletrólitos pode, de fato, aumentar. Esses minerais, como sódio e potássio, ajudam a regular o equilíbrio de líquidos no organismo e participam de funções importantes, como contração muscular e transmissão nervosa. Na maioria das vezes, uma alimentação equilibrada já fornece esses nutrientes em quantidade suficiente. Mas, em períodos de ingestão alimentar muito reduzida, pode ser necessário prestar um pouco mais de atenção a essa reposição e, nesses casos, os repositores de eletrólitos podem ajudar. Eu sei que beber água não é exatamente uma estratégia revolucionária. Mas, em muitos casos, é justamente esse tipo de hábito básico que faz diferença no resultado final.