O lado oculto do "boom" das fintechs: por que tantas empresas não sobreviveram?

admin
10 Mar, 2026
O crescimento do ecossistema de fintechs transformou o sistema financeiro brasileiro na última década. Com propostas de inovação, digitalização e inclusão financeira, centenas de startups passaram a oferecer serviços como contas digitais, crédito, meios de pagamento e soluções de gestão financeira para empresas. No entanto, o mesmo ambiente que impulsionou esse crescimento também trouxe desafios. A combinação de expansão acelerada, pressão por captação de clientes e modelos de negócio pouco sustentáveis fez com que diversas fintechs enfrentassem dificuldades ou encerrassem suas operações nos últimos anos. Segundo o Fintech Report Brasil, produzido pelo Distrito, o país possui mais de 1.500 fintechs ativas, consolidando-se como o principal mercado do setor na América Latina. Ao mesmo tempo, a consolidação do mercado tem levado a um movimento natural de seleção, no qual empresas com governança frágil, estrutura regulatória insuficiente ou dependência excessiva de capital externo acabam ficando pelo caminho. Dados do Observatório Sebrae Startups apontam que, dentre 18.458 startups cadastradas na plataforma Sebrae Startups, 56,56% não possuem faturamento, um indicativo dos desafios de transformar inovação em modelos de negócio sustentáveis. Para Felipe Franchi, CEO e fundador da Franchi, fintech especializada em soluções financeiras e estratégias de eficiência de capital para empresas, o fenômeno é comum em setores que passam por ciclos intensos de inovação. "Nos primeiros ciclos de inovação, muitas empresas nascem com boas ideias, mas sem uma estrutura sólida de governança, compliance e gestão de risco. O mercado financeiro, por natureza, exige disciplina regulatória e sustentabilidade de longo prazo. Sem isso, o crescimento se torna frágil", afirma. Entre os fatores mais frequentemente associados às dificuldades enfrentadas por fintechs estão modelos de crédito mal calibrados, dependência de funding externo, falhas de compliance e promessas de rentabilidade ou facilidade operacional incompatíveis com a realidade do setor financeiro. Dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) indicam que a taxa de mortalidade de startups no Brasil ainda é elevada, especialmente nos primeiros anos de operação, refletindo desafios de gestão, acesso a capital e adaptação regulatória. Nesse cenário de maturação do mercado, especialistas apontam que o setor passa por uma mudança de mentalidade: investidores, empresas e clientes têm dado cada vez mais peso à governança, à segurança jurídica e à sustentabilidade financeira das operações. Segundo Franchi, esse movimento também reflete um amadurecimento do próprio mercado. "O empresário passou a exigir mais clareza sobre quem está por trás das operações financeiras, qual é a estrutura regulatória envolvida e quais são os riscos reais de cada solução. Isso elevou a régua do setor e tornou aspectos como compliance, transparência e governança praticamente obrigatórios", explica. A digitalização dos serviços financeiros também contribuiu para esse processo. De acordo com dados do Banco Central, o sistema financeiro brasileiro passou por uma das maiores transformações tecnológicas da história recente com iniciativas como Pix, open finance e ampliação dos meios de pagamento digitais. Essas mudanças aumentaram a concorrência, mas também elevaram o padrão de transparência, segurança e conformidade exigido das instituições que operam nesse ambiente. Para o CEO, a tendência é que o mercado continue passando por um processo de consolidação."O futuro das fintechs não está apenas em tecnologia, mas em confiança. A inovação continua sendo fundamental, mas ela precisa caminhar junto com responsabilidade regulatória, gestão de risco e visão de longo prazo", afirma. Com a maturação do ecossistema financeiro digital no Brasil, especialistas apontam que o setor deve entrar em uma nova fase, marcada por consolidação, maior rigor regulatório e modelos de negócio mais sustentáveis — um movimento que tende a separar iniciativas oportunistas de empresas estruturadas para operar no longo prazo.