Raízen pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 65 bilhões na maior RJ do País
11 Mar, 2026
247 – A Raízen protocolou na noite de terça-feira (10) um pedido de homologação de plano de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas com os principais bancos do País e com detentores de títulos internacionais. O caso foi noticiado pelo Valor Econômico , por meio do Pipeline, e já é apontado como a maior recuperação extrajudicial em curso no Brasil. A operação envolve uma das maiores companhias do setor de energia e combustíveis do País, controlada por Cosan e Shell, e marca uma nova fase da crise que se agravou desde 2024. Segundo o Valor , a empresa já conta com o apoio de mais de 40% dos credores, o que permitiu solicitar a suspensão dos vencimentos por 90 dias, abrindo espaço para a elaboração de um plano mais amplo de reestruturação financeira. O montante em discussão coloca a Raízen entre os maiores processos de renegociação corporativa da história recente do Brasil. O volume só fica abaixo da dívida da ex-Odebrecht, atual Novonor, de quase R$ 100 bilhões, e se aproxima do caso da Oi, embora essas companhias tenham recorrido à recuperação judicial, e não à modalidade extrajudicial. Apoio parcial dos credores dá fôlego à empresa Com a adesão inicial de parte relevante dos credores, a Raízen tenta ganhar tempo para reorganizar sua estrutura de capital e evitar um aprofundamento ainda maior da crise. O formato adotado é semelhante ao utilizado recentemente pelo GPA, que também ingressou com pedido de recuperação extrajudicial com apoio importante, mas ainda buscando alcançar o percentual necessário para consolidar o acordo. A estratégia indica que a companhia tenta preservar suas operações enquanto negocia uma saída com o sistema financeiro e com investidores internacionais. No caso da Raízen, o desafio é ainda maior porque envolve uma estrutura complexa, com negócios em distribuição de combustíveis, açúcar, etanol e energia. Na frente jurídica e financeira, a companhia é assessorada pelos escritórios E. Munhoz, Pinheiro Neto e TWK, além do banco Rothschild, sinalizando a dimensão da operação e o grau de sofisticação da negociação em curso. Capitalização de R$ 4 bilhões pode não bastar Nos últimos dias, os principais acionistas da empresa anunciaram uma capitalização de R$ 4 bilhões. A Shell se comprometeu com R$ 3,5 bilhões, enquanto Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta, prometeu aportar outros R$ 500 milhões. A Cosan, por sua vez, não participaria diretamente dessa injeção de recursos. Com a recuperação extrajudicial agora formalizada, no entanto, a suficiência desse aporte passou a ser colocada em dúvida. Segundo fontes ouvidas pelo Valor , os credores podem pressionar por uma capitalização maior, diante da magnitude da deterioração financeira da empresa e das necessidades de reestruturação que se desenham. A própria direção da Cosan já havia indicado que o reforço de capital originalmente proposto não resolveria, por si só, a situação da Raízen. Em teleconferência com analistas, Marcelo Martins, presidente da Cosan, reconheceu a limitação da medida e expôs divergências estratégicas dentro do bloco de controle. Divergência entre Cosan e Shell expõe impasse estratégico Durante a teleconferência, Marcelo Martins afirmou que a possibilidade de separação entre os negócios de açúcar e etanol e a área de distribuição de combustíveis chegou a ser discutida, mas encontrou resistência da Shell. A fala escancara um impasse central na discussão sobre o futuro da Raízen. Para a Cosan, os dois segmentos têm perfis distintos de geração de caixa e de alocação de capital, e uma eventual cisão poderia favorecer a sustentabilidade do negócio. A Shell, porém, prefere manter os ativos sob a mesma estrutura corporativa. Esse desacordo ajuda a explicar por que a solução para a empresa se tornou mais difícil. Não se trata apenas de renegociar dívidas, mas de definir qual modelo de companhia os acionistas pretendem sustentar daqui para frente. Crise se arrasta desde 2024 A deterioração financeira da Raízen não surgiu de forma repentina. Desde 2024, a empresa passou a ser vista pelo mercado como um foco crescente de preocupação para seus principais acionistas. O aumento da alavancagem, a piora das condições financeiras e o risco de uma recuperação judicial passaram a rondar a companhia já naquele período. Entre os fatores apontados para a crise está a estratégia de expansão acelerada, com projetos bilionários, especialmente em plantas de segunda geração. A avaliação de agentes do mercado, segundo o Valor , é que esse movimento elevou a exposição da companhia num momento em que o ambiente macroeconômico se tornava mais hostil. A alta taxa de juros também agravou o quadro, pressionando o custo da dívida e tornando mais pesada a estrutura financeira do grupo. Em empresas altamente alavancadas, esse tipo de cenário pode rapidamente transformar um ciclo de expansão em crise de solvência. Tentativas de solução não avançaram A Cosan também teria buscado, nos últimos meses, alternativas para reforçar o caixa da companhia com aporte de terceiros. De acordo com o Valor , houve conversas com potenciais investidores, inclusive com o BTG, que passou a ser acionista do grupo no fim do ano passado. As negociações, porém, não prosperaram. Sem uma solução mais robusta vinda do mercado, a reestruturação passou a depender cada vez mais de negociações diretas com credores e de movimentos dos próprios acionistas. Ainda assim, o desenho atual parece distante de um consenso definitivo. Se a capitalização de R$ 4 bilhões fosse implementada nos termos originalmente discutidos, a Cosan passaria a deter uma participação minoritária na Raízen. Hoje, Cosan e Shell possuem 44% cada uma da companhia. Mas esse quadro tende a mudar profundamente caso a reestruturação avance com conversão de dívida em ações, hipótese que pode alterar completamente o controle e a composição acionária do grupo. Venda de ativos deve continuar Enquanto discute a renegociação da dívida, a Raízen deve manter o processo de venda de ativos. A companhia já se desfez de usinas de açúcar e etanol e também de empresas de energia distribuída, áreas que não eram consideradas estratégicas dentro do grupo. A continuidade dessas alienações é vista como parte do esforço para reduzir alavancagem, simplificar a operação e concentrar recursos em áreas consideradas mais relevantes para a sobrevivência da empresa. Ainda assim, o mercado acompanha com cautela, uma vez que a venda de ativos em momentos de fragilidade costuma ocorrer sob pressão e com menor poder de barganha. A profundidade da crise, somada às divergências entre os acionistas e ao peso da dívida, indica que a recuperação extrajudicial da Raízen tende a ser uma negociação longa, complexa e decisiva para o futuro da companhia. Procurada pela reportagem original, a empresa não respondeu aos pedidos de entrevista até o fechamento da edição do Valor Econômico .