Ninguém viu, mas você pagou: Datena estreia na TV do governo com traço de audiência
12 Mar, 2026
A aposta do governo Lula em trazer um dos rostos mais conhecidos do jornalismo policial brasileiro para a TV Brasil começou com números, no mínimo, discretos. A estreia do novo programa de José Luiz Datena na televisão estatal, na terça-feira (10), registrou audiência próxima de zero, ficando em alguns momentos no chamado “traço” — quando o índice é tão pequeno que não aparece nas medições tradicionais da TV aberta. Dados preliminares divulgados por fontes tradicionais do mercado de TV no país mostram que na Grande São Paulo a estreia do “Na Mesa com Datena” — com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin (PSB) — registrou média de 0,1 ponto de audiência. Isso representa menos de 20 mil telespectadores dentro de um universo de mais de 20 milhões de habitantes. O resultado inicial do programa deixa dúvidas sobre a capacidade da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pela emissora pública, de transformar a chegada de um apresentador consagrado em canais comerciais em audiência efetiva. Conhecido por décadas de programas policiais populares, Datena estreou cercado de expectativa — mas, ao menos no primeiro dia, o público parece ter passado longe da atração exibida pela emissora estatal e custeada pelo dinheiro do contribuinte. Datena assinou contrato milionário com a EBC Datena assinou um contrato milionário com a EBC para comandar dois programas. Um é o Alô Alô Brasil, diário, na Rádio Nacional de São Paulo, que teve como convidado de estreia o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos [https://www.gazetadopovo.com.br/republica/boulos-e-tratado-por-datena-como-amigo-mais-proximo-na-politica/]. O outro é o semanal Na Mesa com Datena, que estreou com Alckmin. Por ambos os trabalhos, o apresentador deve receber cerca de R$ 100 mil mensais, mais de um milhão de reais por ano. As cifras aparecem em uma representação aberta junto ao Ministério Público Federal (MPF) pelo deputado estadual Guto Zacarias (União-SP) e pelo coordenador nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), Renato Battista. Para os reclamantes, a EBC estaria furando o teto constitucional da remuneração no serviço público. Em 2026, esse teto é de R$ 46,3 mil, o equivalente ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Em nota, a estatal mistura os cenários público e privado ao justificar que o salário é “compatível com o praticado no mercado por outras emissoras para profissionais da mesma relevância e, inclusive, é inferior ao que Datena recebia nas empresas em que trabalhou anteriormente”. PT quer entrar no tema da segurança pública Oficialmente, a ida de Datena à EBC é apontada pela estatal como parte da estratégia de valorizar o jornalismo factual em seus veículos, além de fortalecer a comunicação pública como um espaço de informação confiável e acessível. “No contexto em que vivemos, de intenso ruído informacional, o jornalismo é um ativo central. Precisamos fortalecê-lo para oferecer à população informação segura, contextualizada e com capacidade de gerar reflexão. Portanto, estamos reconhecendo o papel e a importância do jornalismo ao trazê-lo ainda mais para a grade da TV Brasil e da Rádio Nacional”, afirmou o presidente da EBC, André Basbaum. Na prática, a contratação do apresentador — cuja carreira foi marcada por liderar programas policiais — é vista como uma tentativa de marcar presença na área da segurança pública. Datena seria, então, um contraponto da esquerda nessa área que é praticamente dominada pelo discurso da direita no Brasil. O tema esteve presente na entrevista com Alckmin, que defendeu o combate ao crime organizado com foco na cúpula das organizações criminosas e a necessidade de leis mais pesadas sobre o feminicídio. O vice-presidente também trouxe dados sobre a redução nos homicídios no período em que governou o estado de São Paulo. Brasileiro vai ter "vontade de pagar imposto" As investigações envolvendo o Banco Master também foram citadas por Datena e Alckmin. O vice-presidente afirmou que o governo federal dá plena liberdade para que Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário façam seu trabalho. O apresentador logo fez um aparte e citou as investigações sobre Lulinha na CPI do INSS para afirmar que nem mesmo o filho do presidente estaria sendo poupado. Outros elogios ao presidente foram mais diretos, como quando Datena admite o crescimento da direita no Brasil para, logo em seguida, dizer que “o presidente Lula é um craque em disputar eleições”. Ou quando o apresentador, ao falar sobre o recuo do Planalto no aumento de impostos sobre eletrônicos, afirma que, com a redução da carga tributária e a aplicação correta do dinheiro público, “o brasileiro vai ter vontade de pagar imposto [https://youtu.be/QsWLr3sxhVQ?si=GBaVWT3-p-kBaEXv&t=1548]”. Datena ainda tentou tirar de Alckmin alguma confirmação sobre uma possível candidatura ao Senado nas eleições de 2026, uma vez que o vice-presidente deixará o cargo de ministro dentro do período de desincompatibilização exigido pela lei eleitoral. O entrevistado, porém, não falou nada de si mesmo e aproveitou o tempo para tecer elogios a Fernando Haddad, possível candidato do PT [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/haddad-sinaliza-pode-se-candidatar-sp-pedido-lula/] na disputa pelo governo de São Paulo contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), que busca a reeleição. “Por que o Haddad é um grande nome? Ele foi prefeito de São Paulo, disputou a última eleição [ao governo] e foi para o 2o turno, é o ministro da Fazenda. Ele tem experiência e espírito público. Eu digo que o Haddad é o melhor candidato para tudo, não é só para governador”, disse Alckmin. Ao fim da entrevista, entre causos antigos do tempo em que foi prefeito de Pindamonhangaba, no interior paulista, Alckmin recebeu uma enxada de Datena e deu dicas de como capinar um pasto, da forma como ele diz fazer quando viaja ao interior do estado. O vice-presidente reclamou da falta de amolação da ferramenta e disse que a capina é seu exercício físico favorito. Ao fim do programa de estreia, Datena deu uma enxada para o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). “Se a enxada estiver bem amolada, é uma tacada só para tirar a praga. Vai limpando e caminhando. Eu faço quatro, cinco horas disso, fico pingando [de suor]. Não tem academia melhor”, completou.