Biografia dos irmãos Grimm mergulha na vida complexa dos ‘pais’ dos contos de fadas

admin
22 Mar, 2026
Publicada pela primeira vez em 1812, a história João e Maria narra a saga de dois irmãos abandonados na floresta pelo pai e encontrados por uma bruxa má canibal, que os alimenta com o intuito de, bem, deixá-los mais carnudinhos. A lenda de tradição oral europeia foi eternizada no papel em uma coletânea de contos infantis pelos irmãos alemães Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859). Naquela primeira versão, um detalhe chocante: quem instiga o pai a abandonar as crianças é a mãe biológica. A vilania da maternidade não caiu bem e, tempos depois, eles reeditaram a obra com a madrasta sendo a culpada pelo abandono. Mais tarde, adicionaram à trama um contexto da vida real: para inocentar o pai conivente, uma grande escassez, então bem conhecida pela Europa, é listada como a razão para a medida desesperada. Em 1932, um curta-metragem da Disney fez uma mudança mais radical: as crianças se perderam sozinhas na floresta. IRMÃOS GRIMM: UMA BIOGRAFIA, de Ann Schmiesing (tradução de Rodrigo Botelho; Amarilys; 400 págs.; R$ 148,00) //Divulgação O filtro do estúdio do Mickey suavizou muitos dos textos editados pelos irmãos — o que, para o bem e para o mal, ajudou a manter esses contos vivos. O banho de ingenuidade, porém, ofuscou os dois autores e os motivos que os levaram a escrever tais histórias fantásticas que, apesar de elementos de crueldade, traziam consigo toques de esperança e, às vezes, finais felizes. Para resgatar o espírito original, a pesquisadora alemã Ann Schmiesing escreveu Irmãos Grimm: Uma Biografia , que acaba de chegar ao Brasil, reunindo um amplo material sobre a vida e a obra da dupla. Nascidos em Hesse, no Sacro Império Romano-Germânico, que hoje corresponde à Alemanha, eram filhos de Dorothea e Philipp Wilhelm Grimm, um advogado com bastante influência na administração municipal, o que lhes proporcionou uma vida de relativo conforto. Na Universidade de Marburg, onde estudaram, interessaram-se pela história antiga da região, especialmente suas lendas, canções folclóricas e, por fim, pelos contos de fadas. Muito ligados um ao outro, eram vistos quase como uma única pessoa. Suas contribuições, no entanto, se direcionaram a áreas diferentes — ainda que correlatas. Jacob era interessado na linguagem germânica e publicava ensaios sobre poesia épica e poesia lírica alemã. Já Wilhelm se destacou principalmente como estudioso de literatura medieval e editor de contos — é ele, aliás, uma das principais fontes do que se sabe hoje sobre a Idade Média. UNIDOS - A dupla de autores: de tão próximos, eram vistos como um só DeAgostini/Getty Images Continua após a publicidade Viram nas letras a chance de unificar o povo germânico, fragilizado pela invasão de seu país pela França nas Guerras Napoleônicas, e de fortalecer a própria língua diante do domínio estrangeiro. Assim, resgataram a literatura alemã antiga, que urgia para ser vista como uma forma de arte independente, sem influência da poesia francesa. “Eles acreditavam que essa era uma forma de ajudar a Alemanha a ter maior consciência de sua herança cultural”, disse a autora a VEJA. Fruto de tempos difíceis, a obra dos Grimm para adultos e crianças reflete os desafios de uma época pouco afeita aos “felizes para sempre”, dadas as tensões sociais. Em seus contos, o sapo vira príncipe não com um beijo, mas com um ato de violência: ao ser jogado na parede. Cinderela é vista na riqueza antes da morte de sua mãe e de se tornar criada, um paralelo da vida dos próprios irmãos, que foram da abundância à pobreza e de volta ao conforto. O mundo pode ser cruel — e as fábulas, idem. Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição no 2987 Publicidade