Yane Marques: ‘Não adianta ser a 1a mulher vice do COB se isso não gerar oportunidades’
23 Mar, 2026
Parte do programa olímpico desde 1912, o pentatlo moderno demorou 88 anos para ter provas femininas na Olimpíada . As mulheres foram incluídas apenas em Sydney-2000, e o Brasil foi ao pódio rapidamente, em Londres-2012, edição na qual Yane Marques ganhou o bronze. Desbravadora como atleta, a pernambucana de Afogados da Ingazeira agora trilha um caminho que nenhuma mulher percorreu antes, como vice-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), cargo que ocupa desde janeiro de 2025. “Obviamente, não adianta Yane ser a primeira mulher na história vice-presidente do COB, se nada diferente acontecer em prol de oportunidades para as mulheres”, diz ao Estadão . “Eu não estou vice-presidente do COB hoje porque eu sou mulher. Que bom que eu sou mulher e estou vice-presidente do COB. Mas me formei em educação física, estudei, tenho um histórico de viver a gestão pública, a gestão esportiva, que foram me cacifando”. Yane Marques, medalhista olímpica de pentatlo moderno e atual vice-presidente do COB. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo. “Esse desbravar foi uma coisa que parece que me foi concebida sem saber e eu tenho vivido muito isso e desfrutado muito disso, mas sempre com uma perspectiva de tudo bem que eu seja a primeira, mas que eu não seja única, e encorajar muito as mulheres. Não é fácil. Eu tenho uma filha de 6 anos, sou casada. Tenho casa, família. Tenho vida pessoal que abro mão muitas vezes em função do meu compromisso com o esporte hoje. Era assim quando eu era atleta e é assim agora.” A medalhista olímpica não planejava entrar para a vida pública quando encerrou a carreira de pentatleta, em 2016, após três ciclos olímpicos. Cursou a faculdade de Educação Física enquanto ainda competia, já pensando no futuro, embora sem saber direito em que setor atuaria. Fundar um instituto, fazer projetos sociais, ser treinadora e trabalhar com iniciação esportiva foram algumas opções que passaram por sua cabeça. No final de 2016, aceitou assumir a Secretaria de Esportes de Recife, por entender ser uma oportunidade de continuar trabalho com esporte. Preparou-se fazendo um curso avançado de gestão esportiva do COB e uma pós-graduação em gestão pública. “Comecei a experimentar esse mundo. Tinha uma preocupação muito grande com a imagem que eu demorei muito para construir, que eu tenho muito orgulho de contar. Conto história com muito orgulho, uma história muito honesta. E aí eu me envolvo no mundo da política... venho de uma família que a gente não tinha uma cultura de falar de política, de se envolver. E o mundo da gestão esportiva eu também não tinha experiência, então foi um desafio muito grande.” Yane Marques durante treinamento em 2010, em ensaio para o Estadão. Continuou na Prefeitura até 2024, quando saiu para encabeçar com Marco La Porta a chapa que venceria as eleições do Comitê Olímpico após o ciclo dos Jogos de Paris. Assim, se tornou a primeira mulher a ocupar o segundo cargo mais importante na hierarquia de entidade que completa 112 anos em junho de 2026. No futuro, espera ter a oportunidade de ser a primeira presidente. “Óbvio que a gente quer mais um mandato e vai estar junto no próximo mandato. O La Porta e nosso time. Depois, o caminho natural seria eu ascender a uma presidência. Mas hoje eu não trabalho para ser presidente. Eu trabalho para ser a melhor vice. Quero viver esse momento com muita intensidade. Se daqui a pouco, como consequência, se eu merecer e as pessoas confiarem em mim na condição de presidente, e eu estiver num momento que me permita, eu vou encarar com com muita responsabilidade”, afirma. Mulheres em altos cargos no esporte são exceções As oportunidades para mulheres na gestão esportiva ainda são escassas, como mostra o próprio ecossistema olímpico do País. De 38 federações que gerem as modalidades olímpicas, apenas três têm presidentes mulheres, Cristiane Kajiwara, da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), Maria Luciene Cacho Resende, da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) e Roberta Moretti Avery, da Confederação Brasileira de Criquete (CBCR). Durante o Fórum da Mulher no Esporte, realizado em Brasília, Yane anunciou a implementação de um programa de capacitação dedicado exclusivamente à formação de gestoras esportivas. A ação é parte do MIRA (Mentoria Individualizada, Reflexão e Ação), braço do setor Mulher no Esporte do COB que já oferecia formação para treinadoras - no ano passado, 21 tiveram a oportunidade de frequentar a turma. Yane Marque nos Jogos Pan-Americanos de Toronto-2015. “A partir do momento que a gente abre essa frente de capacitação, a gente oportuniza, a gente encoraja, a gente prepara, a gente oferta ao mercado mulheres prontas para serem eleitas para cargos de diretoria, de funções de muita responsabilidade, liderança, como presidente, vice-presidente de confederações, de clube”, comenta. “É muito isso o que eu penso para todas as outras mulheres: se preparem, estejam prontas. Sabe quando o cavalo passa encilhado? Esteja de bota, de coturno, de capa e de chicote na mão para você montar. É isso, deixar esse esse mundo de mulheres valentes, preparadas e com condições querentes de assumir essas funções”. O COB também foi escolhido para ser o anfitrião do Secretariado do International Working Group (IWG) on Women & Sport para o quadriênio de 2026 a 2030, que termina com a realização 10a Cúpula Global do IWG sobre Mulheres e Esporte, no Rio. Nesse período, o Brasil vai liderar ações mundiais ligadas à pauta da ocupação do espaço feminino, cuidado de gênero, igualdade de oportunidades e condições. A pentatleta Yane Marques conquista a medalha de ouro no pentatlo moderno em Toronto. A próxima edição do evento, que ocorre de quatro em quatro anos, será em julho deste ano, na Inglaterra, onde o Brasil receberá o “bastão” para organizar o evento de 2030. Na avaliação de Yane, sediar a cúpula da IWG mostra para o mundo o interesse do País nessa pauta e a disposição em canalizar energia para se unir a esse movimento. “São quatro anos de encontros, de discussões, de aprendizado, de partilha de histórias, de experiências, de coisas que dão certo, que podem dar certo. É para a gente sinalizar para o mundo inteiro que o Brasil está disposto a trabalhar pela equidade de gênero no esporte”, pontua. Trabalho feito até aqui satisfaz Yane Durante o período de pouco mais de um ano no alto comando do COB, a pernambucana defende que a gestão feita até agora tem muito o que celebrar. Um dos principais méritos, na opinião de vice-presidente, foi a sanção do texto que tornou permanente a Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), que corria o risco de ser encerrada porque estava atrelada a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e necessitava de renovação a cada cinco anos. A aprovação envolveu o engajamento de boa parte da comunidade esportiva, inclusive atletas e ex-atletas de peso como Rebeca Andrade e Daiane dos Santos. A LIE funciona como uma forma de captar apoio a projetos esportivos, por meio do abatimento de impostos. “A liderança do esporte brasileiro hoje somos nóos. Então, a gente assume esse protagonismo, a gente cria uma base em Brasília, porque a gente entende que a política tem uma importância, um impacto muito grande na no esporte no Brasil. A gente juntou uma comitiva, quantas vezes a gente foi em Brasília batendo a porta dos deputados, dos senadores e dizer: ‘Olha só, a gente defende isso aqui, porque isso aqui é importante para o esporte brasileiro’. Atletas juntos, querendo estar com a gente”, afirma. FR12 SAO PAULO - SP - 11/03/2026 - ESPORTES - YANE MARQUES- Fotos da Yane Marques, medalhista olímpica de pentatlo moderno e atual vice-presidente do COB. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo. . FOTO: Felipe Rau/Estadão Esportivamente, o ponto alto vivido por Yane como vice do COB foi nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão e Cortina, onde viu o esquiador Lucas Pinheiros Braathen conquistar a primeira medalha do Brasil no evento. Vinda de um esporte de pouca tradição no Brasil, ela entende a dificuldade de falar em legado quando um feito como esse ocorre, mas espera que a competitividade e o carisma do norueguês-brasileiro abram caminhos para mais conquistas do gênero no futuro. “Eu queria pontuar a força que tem um ídolo no esporte. O Lucas virou um ídolo para todos nós. Por toda história, pelo que ele fez, pelo cara simpático, acessível, gentil e comprometido que ele é. Ele quer fazer alguma coisa para para que a gente tenha mais atletas no Brasil. A gente tem a Nicole Silveira, por exemplo, do Skeleton, que quer fazer alguma coisa pelo Skeleton no Brasil, pelo esporte de neve e de gelo no Brasil”, comenta.