Irmão de Alexandre de Moraes é militante de esquerda, escritor e dono de cartório
23 Mar, 2026
“Não tenho a menor dúvida de que meu irmão ajudou a salvar a democracia brasileira.” A frase é de Leonardo de Moraes, de 47 anos, um personagem “multiplataforma”. Advogado, tabelião, professor de Direitos Humanos, escritor, artista plástico e roteirista de televisão, ele também é — e, talvez, acima de tudo — membro da família do ministro Alexandre de Moraes. Nas últimas duas décadas, esse vínculo deixou de ser apenas um dado biográfico. Leonardo circulou pelos mesmos gabinetes, passou por instituições semelhantes e chegou a compartilhar a sociedade no mesmo escritório de advocacia que Alexandre. Até que em 2017 — o mesmo ano em que o irmão tomou posse no STF —, ele assumiu a titularidade do 1o Cartório de Notas de Santos. Hoje, além de tabelião, Leonardo se diz um “recruta tardio” da democracia, movido pela necessidade de combater o que chama de “ciclo de retorno do pensamento de ultradireita”. Em 2023, ele lançou o romance Tia Beth, que busca conectar o período do regime militar com o que enxerga como riscos autoritários do Brasil pós-Bolsonaro — a negação da ditadura, o endeusamento de torturadores e a fragilidade das instituições diante do discurso conservador. Desde então, Leonardo concede entrevistas para falar sobre o livro e, por tabela, revelar algumas histórias da família Moraes. Como a que envolve o apelido “Xandão”. Segundo ele, Alexandre sempre foi chamado em casa de “Alê” — enquanto “Xandão” era usado pela família para se referir ao filho do ministro, também chamado Alexandre. O apelido, como se sabe, escapou do controle doméstico. E acabou grudando justamente em quem concentra o maior poder. Rede de relações O currículo de Leonardo revela uma influência do irmão mais famoso. Em janeiro de 2003, ele ingressou como assessor jurídico na Fundação CASA — então ainda chamada de Febem/SP, a instituição responsável pela internação de menores infratores no estado. Na mesma época, Alexandre era secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania de São Paulo, nomeado pelo então governador Geraldo Alckmin. Leonardo ficou no cargo até junho de 2004. Em agosto daquele ano, Alexandre de Moraes assumiu também a presidência da Fundação Casa, com mandato para promover uma reforma administrativa que incluiu demissões em massa de funcionários acusados de tortura. Os irmãos não apareceram lado a lado no organograma — mas o terreno era o mesmo. De julho de 2004 a dezembro de 2006, Leonardo serviu como assessor jurídico nos gabinetes de Alckmin e do vice-governador Cláudio Lembo. Alexandre ainda ocupava o cargo de secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania — função que deu projeção nacional à sua carreira política. Entre 2007 e 2008, Leonardo se tornou Superintendente de Patrimônio na COHAB-SP, a companhia metropolitana de habitação do governo estadual. Alexandre já havia deixado o governo Alckmin e embarcado na gestão de Gilberto Kassab à frente da prefeitura de São Paulo (onde foi secretário de Transportes e de Serviços). Mas a rede de relações construída nos anos anteriores permanecia ativa. De 2009 a 2014, os dois irmãos viraram sócios no escritório Alexandre de Moraes Advogados Associados, especializado em Direito Público. A clientela era formada por políticos e agentes públicos — exatamente o universo em que os dois haviam circulado na década anterior. Leonardo permaneceu no escritório até se licenciar para ingressar na carreira notarial. Em 2017 — o mesmo ano em que Alexandre tomou posse no STF, indicado por Michel Temer —, Leonardo assumiu a titularidade do 1o Cartório de Notas de Santos, no litoral paulista, após ser aprovado em um concurso público. O estabelecimento é conhecido na cidade como “Cartório Moraes”. Sobre a escolha da carreira, Leonardo é direto: foi pela estabilidade. “O cartório é o que me permite pagar os boletos”, diz. É também o que financia o tempo para escrever, pintar e compartilhar suas opiniões políticas de esquerda. "Bolsonaro nunca foi religioso" Em entrevistas concedidas para canais de política e literatura no YouTube, Leonardo de Moraes não é nada reservado com relação a seus posicionamentos ideológicos. Para Leonardo, a direita brasileira (que ele só chama de “ultradireita”), não se sustenta ideologicamente. “Ela tem um amontoado de preconceitos que ganharam algum tipo de lustro e que, na voz de algumas pessoas, acabam ganhando até uma percepção de intelectualidade.” Líderes conservadores como Bolsonaro e Trump são classificados por ele como oportunistas religiosos. "O Trump começou a vender Bíblias com o rosto dele. Qualquer pessoa que faça uma mínima pesquisa sobre a trajetória do Trump sabe que de religioso ele nunca teve nada. Idem o Bolsonaro: nunca foi religioso, mas é conveniente se aliar a esse discurso.” Ele também dá seu pitaco sobre a Argentina de Milei: “Nosso amigos ou rivais argentinos conseguiram colocar lá um presidente de ultradireita que eatá fazendo verdadeiros absurdos humanitários sob a ótica de reduzir as contas públicas. Um país que não leva em conta o seu material humano não leva em conta o fato de que, se você tiver fome, não adianta acertar as contas públicas”. E aos que acusam as escolas brasileiras de doutrinar estudantes, Leonardo responde com ironia: "Dizem que formam comunistas. Eles nem sabem o que é comunismo. Quando falam em marxistas, são pessoas que nunca leram Karl Marx ou O Capital. Estão apenas repercutindo aquilo que foi falado para elas em tom de preconceito”. "Tabelião influencer" Desde 2005, Leonardo publica artigos em blogs, lança livros e participa de grupos de roteiristas de cinema e televisão. Seu currículo no audiovisual inclui uma tentativa de sitcom, 100 Maneiras, exibido no canal pago TV Ideal (do grupo Abril) e hoje disponível no YouTube. Ele também é artista residente na Academia de Artes de Nova York e já realizou exposições em São Paulo e Miami. Tia Beth, seu livro de maior fôlego, nasceu durante a pandemia como um folhetim no Instagram. Com tintas autobiográficas, o romance apresenta um protagonista chamado Leonardo, que tem 18 anos em 1996, estuda Direito no Largo de São Francisco e vasculha os segredos de uma tia cuja vida foi destruída pela ditadura. Em paralelo, Leonardo mantém uma conta no TikTok, em que posta seus trabalhos de artes visuais e lê trechos do romance em voz alta. Há ainda outra frente digital, mais na linha de “utilidade pública”: o 1o Tabelionato de Notas de Santos tem um perfil ativo no Instagram. Nessa conta, Moraes dá uma de “tabelião influencer” e responde dúvidas do público em linguagem acessível. Os temas são cartoriais — "como evitar briga por herança?", "é preciso registrar a união estável?", "o que é um testamento público?". "Terrorismo emocional" A exposição pública do cartório recentemente extrapolou o ambiente das redes sociais. Em fevereiro, um pedido formal de suspeição foi protocolado no STF contra o ministro Alexandre de Moraes, alegando que ele usou seu cargo para proteger o tabelionato do irmão em Santos. A questão é técnica, mas tem efeitos práticos: Leonardo de Moraes é tabelião concursado. No entanto, uma denúncia feita por Edmundo Berçot Júnior, ex-presidente do MDB de Praia Grande, sustenta que Leonardo estaria em uma lista de “delegatários irregulares” que deveriam ter sido removidos do cargo por força de regras do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criadas em 2009. A polêmica surgiu durante o julgamento da ADPF 209, um processo que discutia justamente as regras para quem comanda cartórios em São Paulo. Na ocasião, Alexandre de Moraes foi o único a divergir do relator e de todos os outros colegas: ele votou pela “perda de objeto”, uma manobra que, na prática, faria o tribunal parar de discutir o assunto e manteria tudo como estava. Para os críticos, esse voto solitário serviu como um escudo para “blindar” o irmão daquelas regras de remoção do CNJ e garantir que ele continuasse à frente do estabelecimento, conhecido na cidade como “Cartório Moraes”. Leonardo nega qualquer irregularidade e defende seu direito ao posto com base no esforço pessoal. “Estudei para caramba para passar nesse concurso”, afirma em entrevistas. Ele classifica o pedido de suspeição como um tipo de “terrorismo emocional da ultradireita” e uma tentativa de usar sua trajetória para atingir o ministro. O processo, porém, segue no STF, ainda sem decisão final. Trabalho para a cunhada Quem também ganhou fama repentina foi a mulher de Leonardo, Ana Claudia Consani de Moraes. Ela trabalhava como consultora no escritório Barci de Moraes — comandado por Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes e, portanto, sua cunhada. A firma firmou um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master e, em menos de dois anos, recebeu R$ 80,2 milhões, com pagamentos mensais de cerca de R$ 3,6 milhões. O acordo foi encerrado quando o dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso pela primeira vez na Operação Compliance Zero. Foi nesse contexto que Ana Claudia elaborou o Código de Ética do Banco Master — um documento que prometia garantir integridade e transparência, mas que acabou chamando atenção por erros básicos: trechos incompletos, partes de modelos prontos que não foram apagadas e até uma orientação que, segundo análises, poderia abrir brecha para negociações irregulares. O deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) chegou a pedir sua convocação na CPMI do INSS e também a do próprio Alexandre de Moraes para esclarecer as relações da família com o banco. Até agora, não houve uma resposta definitiva. Enquanto isso, Leonardo de Moraes segue divulgando seu livro, sempre se aproveitando da curiosidade dos entrevistadores com relação ao ministro do STF. Em um podcast no canal de esquerda TV Fórum, Leonardo comentou os atos de 8 de janeiro de 2023 com uma frase que diz muito sobre a visão que tem do irmão e dele próprio: “Calhou de os bagunceiros de plantão caírem na mão [da pessoa] errada, na hora errada. Porque encontraram alguém que sabe do que está falando”. Ao contrário dos “bagunceiros” que descreve, Leonardo de Moraes sempre esteve no lugar certo, na hora certa — e, sobretudo, com o sobrenome certo. A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com Leonardo de Moraes para solicitar uma entrevista, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.