O segredo é o alicerce do poder absoluto. Mas hoje, para saber de tudo, basta aprisionar um celular
24 Mar, 2026
Desconfiança com o STF chega a 60% após caso Master, mostra AtlasIntel Porcentual de pessoas que não confiam na Corte é o mais alto da série histórica da pesquisa, iniciada em janeiro de 2023. Crédito: Weslley Galzo (reportagem) e Anderson Russo (edição) Testemunho assombrado um mundo conturbado e a confusão do aparelho administrativo nacional, compelido a exigir a pulso uma mudança no comportamento de suas elites. Trata-se de uma burocracia aristocratizada por prerrogativas e penduricalhos, pressionada a modernizar-se pelo inusitado poder das tecnologias digitais – sistemas ignorantes dos nobres protocolos fundados no silêncio como privilégio. É a força dessas selvagens tecnologias de comunicação que denuncia congressistas e magistrados – a elite –, revelando uma rede de desfalques que envergonha os cidadãos comuns e desvenda a obsolescência de nosso sistema de governança. Escândalos que implicam bancos e tribunais mostram uma estrutura de dominação burocrática atrelada a uma estrutura de dominação relacional. A impossibilidade de punir revela os entraves de uma democracia hierarquizada em supremos, e a crença pueril segundo a qual todos os problemas se resolvem quando são legislados. Democracia exige sinceridade e coerência. A disfuncionalidade do sistema político nacional ilustra com clareza um poderoso insight do filósofo Karl Jaspers, quando ele aponta “o conflito existente entre o poder (que tende ao segredo) e a verdade (que deseja tornar-se coisa pública)”. A capacidade de informar sem nenhuma censura é o apanágio dos sistemas igualitários. Neles, os poderes têm limites, e a ultrapassagem dos limites – comuns no Brasil – vem sendo demolida por uma intensa e extensa rede de informação. As redes pariram aquilo que sempre foi o ponto crítico de todo sistema de poder baseado na capacidade de enganar o igualitarismo e a imparcialidade legal. Com isso, o segredo que guardava os elos e interesses pessoais em conflito com os deveres públicos foi desmascarado. Se antes eram expostos por descuido, hoje são divulgados em redes sociais. Nelas surgem essas rotineiras, mas abomináveis contradições entre a ética da casa e as demandas morais dos cargos públicos, atingindo os que deveriam ser os mantenedores da igualdade e da universalidade das leis. A notícia veiculada digitalmente surge em todo o planeta, desmascarando mentiras e ignorância e demandando limites aos fracos e fortes. Nas aristocracias, as decisões eram tomadas sob o direito ao segredo. O segredo, reitero com o filósofo, é o alicerce do poder absoluto. Para saber de tudo, basta aprisionar um celular – ou os celulares. Como afirmam os americanos, as notícias chegam rompendo rotinas. A tecnologia revela qualidades e defeitos do sistema. Como dizia Max Weber, ela “desencanta o mundo”. Hoje, é muito mais difícil mentir, porque os gravadores e as redes de comunicação expõem sem afeto o que sabem. No fundo das consequências inesperadas do progressismo, essas tecnologias obrigam a uma ética de honestidade. Coerentes nas suas impessoalidades, elas acabam nos forçando a enxergar o que sempre escondíamos de nós mesmos.