Por que Ratinho Jr. desistiu de ser candidato
25 Mar, 2026
Assim que soube que o governador do Paraná, Ratinho Jr., desistiu da candidatura à Presidência [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/ratinho-junior-desiste-de-candidatura-a-presidente-da-republica/], liguei para um amigo que também é próximo ao governador. Ao meu redor, todo mundo fazia análises profundas do movimento no xadrez político – imagem mais cafona impossível. E todos apontavam para um complexo jogo de interesses que tinha como ponto focal a figura de Gilberto Kassab. Mas será que era isso mesmo? ENTRE PARA A MINHA COMUNIDADE NO WHATSAPP! [https://sndflw.com/i/BGCLFclD6FuMggrDeeYS] É que, no Brasil contaminado pelo cinismo e consequencialismo, a explicação mais fácil para tudo parece ser a conspiração, com seus planos mirabolantes e seus conchavos subterrâneos liderados por uma figura maquiavelicamente inteligente. Não há espaço para a verdade prosaica e rancheira. Por isso me espantei quando o amigo me fez a pergunta que agora faço a você, leitor: por que é tão difícil aceitar que Ratinho Jr. tenha desistido depois de se reunir com a família, como ele diz na nota? Epidemia de cinismo Difícil? É impossível! Primeiro porque os brasileiros preferimos uma mentira sofisticada (aliás, quanto mais sofisticada, melhor) a uma verdade insuportavelmente simples. Afinal, a mentira confirma nosso cinismo, enquanto a verdade nos desarma. De tal modo que, para nós, é inconcebível que Ratinho Jr. seja uma pessoa. E preocupada com a família, ainda por cima. Para nós, tudo o que importa para essa gente é o poder. É o cargo. São os puxa-sacos e as vantagens financeiras. E em geral é assim mesmo. Mas e quando não é? Não adianta. Digo isso faz tempo e vou dizer de novo: o Brasil vive uma epidemia de cinismo. Se Ratinho Jr. disse que desistiu depois de se reunir com a família, só pode ser mentira. Aliás, não existe a menor possibilidade de ser verdade. Porque não acreditamos numa só palavra do que dizem os aspirantes a líderes da nação. Quem eles estão querendo enganar? No fundo, nos vemos sempre como mais espertos do que esses malandros aí. E no entanto os malandros vivem nos passando a perna. Que coisa. Jeito, talento, vocação, ambição e paciência “Por que é tão difícil aceitar que Ratinho Jr. tenha desistido depois de se reunir com a família, como ele diz na nota?” A pergunta ficou ecoando e, realmente, não é. Ou não deveria ser. Quando se leva em conta o desgaste de uma campanha à Presidência, a devassa que uma família sofre nessas circunstâncias e até mesmo a realidade cotidiana do poder, a explicação deixa de ser implausível para se tornar plausibilíssima até. Você aí. É, você mesmo. Você sujeitaria sua esposa, filhos e pais a uma rotina de ataques e suspeitas, sem falar na vigilância e perigo constantes? E isso tudo para talvez se tornar presidente do Brasil? Pensando bem, é preciso ter um temperamento bem específico para ambicionar esse tipo de coisa. E talvez Ratinho Jr. tenha percebido que não tem jeito, talento, vocação, ambição e paciência para governar um país na situação do nosso. Às vezes Shakespeare está errado No mais, uma decisão em família não exclui os cálculos políticos. Kassab pode ter dito isso e aquilo. Os marketeiros podem ter varado a noite analisando pesquisas e mais pesquisas. Flávio Bolsonaro pode ter ligado para Ratinho Jr. e lhe prometido um ministério. Sei lá! São muitas as possibilidades e concedo que seja divertido especular sobre elas. Faz a gente se sentir inteligente. Mais do que isso: astutos! Mas às vezes Shakespeare está errado e há muito menos conchavos, acordos e estratégias elaboradíssimas entre o céu e a terra. Às vezes desconfiamos demais e nossa vã filosofia é vã mesmo. Às vezes a vida é simples e basta que a mulher diga que não quer ser primeira-dama para o cara avaliar a vida, pesar o que importa e o que não importa neste vale de lágrimas. E desistir de tentar ser presidente.