Comissão concede anistia à banda Ave Sangria após censura pela Ditadura Militar
28 Mar, 2026
247 - A Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos aprovou, nesta quinta-feira (26), a anistia à banda pernambucana Ave Sangria, cujo primeiro disco foi censurado durante a Ditadura Militar, em 1974. A decisão reconhece oficialmente os danos causados pelo Estado brasileiro ao grupo, que teve sua trajetória interrompida no auge. As informações foram publicadas pelo Diário de Pernambuco. Na ocasião, a banda vivia um momento de ascensão, mas a repressão do regime militar interrompeu abruptamente o crescimento artístico e financeiro. A censura ao álbum de estreia não apenas inviabilizou a continuidade do projeto, como também levou seus integrantes a um cenário de dificuldades econômicas e abalo emocional, culminando no fim da formação original. Reconhecimento e reparação Com a decisão, o Estado brasileiro formalizou um pedido de desculpas aos músicos e determinou o pagamento de uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2 mil. O valor retroativo ainda será calculado e corresponde à reparação pela interrupção do vínculo profissional causada pela perseguição política. Os fundadores Marco Polo, vocalista, e Almir de Oliveira, baixista e violonista, acompanharam a sessão diretamente do Recife, por meio de transmissão realizada no Memorial da Democracia, no Sítio Trindade. O resultado foi celebrado no local, reunindo apoiadores e representantes da cultura. As famílias do baterista Israel Semente e do guitarrista Paulo Rafael, ambos já falecidos, também foram contempladas pela medida. Em entrevista ao Diário de Pernambuco, Marco Polo celebrou a decisão: "É uma sensação de alívio, porque durante todo esse tempo a gente sentia injustiça do Estado em relação a nós". A censura que interrompeu uma trajetória Hoje considerada uma obra cultuada, a música “Seu Waldir” tornou-se símbolo da censura enfrentada pela banda. A faixa, presente no disco “Ave Sangria” (1974), trazia versos aparentemente simples: “Seu Waldir, o senhor magoou meu coração. Seu Waldir, isso não se faz, não”. Inicialmente aprovado pelos censores da Polícia Federal, o álbum chegou às lojas do Recife e rapidamente conquistou espaço nas rádios. No entanto, a repercussão positiva foi interrompida após a imprensa iniciar uma campanha contra a música, acusando-a de conter um suposto teor “homossexual” e de representar “um insulto à moral da família tradicional pernambucana”. Segundo relatos de Marco Polo e Almir de Oliveira, a pressão surtiu efeito e resultou em uma intervenção direta das autoridades. Após a esposa de um general solicitar providências, a Polícia Federal determinou a retirada imediata dos discos das lojas e das rádios. O impacto foi devastador. “Foi um choque terrível”, relembra Almir. Diante da situação, ele abandonou a carreira musical e retornou à engenharia, enquanto Marco Polo voltou ao jornalismo. Além da censura, os integrantes também enfrentaram repressão direta. Em um episódio, foram detidos de forma violenta apenas por usarem cabelo comprido. “Éramos de um segmento que, embora politizado, estava mais preocupado com uma revolução comportamental. A questão moral atingiu justamente isso, que era a nossa proposta”, afirmou o vocalista. Redescoberta e novos caminhos Décadas após o fim da formação original, a Ave Sangria foi redescoberta por novas gerações a partir dos anos 2000, impulsionada pela circulação de suas músicas na internet. Esse movimento resultou em um retorno aos palcos e, em 2019, no lançamento do álbum “Vendavais”, marcando um segundo momento da banda. Agora, com o reconhecimento oficial do Estado, os integrantes enxergam uma nova fase. “Amplia ainda mais o leque de possibilidades para a gente trabalhar e incentivar a juventude e o povo brasileiro a ser aquilo que eles são, a lutar pelo direito de ter o seu próprio caminho. Viva a Ave Sangria!”, afirmou Almir. Memória e justiça histórica Para Pedro Alb Xavier, gestor do Memorial da Democracia de Pernambuco, a decisão tem um significado que ultrapassa a reparação individual. “O Memorial é um espaço seguro onde o Estado reconhece o passado e o promove para que essa memória não se perca”, declarou. Ele também destacou o impacto cultural do reconhecimento. “É para a gente ficar triste porque isso não foi adiante, mas também feliz porque é um reconhecimento da nossa cultura”, concluiu. A anistia à Ave Sangria simboliza, assim, não apenas a reparação a um grupo artístico, mas também o resgate de uma parte da história cultural brasileira marcada pela censura e pela repressão.