Curso propõe análise crítica da chamada “ameaça chinesa” no cenário internacional

admin
1 Apr, 2026
247 - Em meio ao aumento das tensões geopolíticas e ao debate global sobre o papel da China no século XXI, um novo curso busca aprofundar a compreensão sobre como se construiu a ideia de que o país representa uma ameaça à ordem internacional. Intitulada “Quem tem medo da China?”, a formação é conduzida pelos pesquisadores Diego Pautasso e Isis Paris Maia. A proposta parte do referencial teórico desenvolvido na obra homônima, que será lançada em abril, e pretende examinar criticamente as narrativas que, ao longo do tempo, ajudaram a consolidar essa percepção. Segundo os organizadores, a ideia é ir além de interpretações simplificadoras e oferecer uma leitura mais ampla sobre o fenômeno. De acordo com a abordagem do curso, a noção de “ameaça chinesa” não é recente. Ela está associada a construções históricas que remontam ao século XIX, com o chamado “perigo amarelo”, marcado por processos de racialização, e ao século XX, com o “perigo vermelho”, vinculado às disputas ideológicas da Guerra Fria. Essas narrativas, ao longo do tempo, foram sendo atualizadas conforme as transformações no sistema internacional. Nas últimas décadas, com o crescimento econômico, tecnológico e político da China, esse conjunto de interpretações ganhou novos contornos. Argumentos relacionados ao autoritarismo, à superexploração do trabalho, à chamada “armadilha da dívida”, ao neoimperialismo e à degradação ambiental passaram a integrar o discurso de setores que veem o país como um risco à democracia e à ordem econômica global. O curso propõe analisar criticamente esses elementos, destacando que tais narrativas não apenas descrevem a realidade, mas também influenciam a forma como o papel da China é percebido internacionalmente. A iniciativa busca, assim, compreender como essas construções discursivas se relacionam com disputas de poder e com a reconfiguração da ordem global. A formação será dividida em quatro aulas, abordando desde os fundamentos históricos e teóricos da construção de ameaças internacionais até as estratégias contemporâneas de contenção da China. Entre os temas discutidos estão imperialismo, poder discursivo, etnocentrismo, disputas ideológicas, além das relações entre China e Estados Unidos e o debate sobre uma possível nova Guerra Fria. Também serão analisadas as singularidades do modelo de desenvolvimento chinês e suas implicações para o cenário internacional, com o objetivo de oferecer uma visão crítica que evite tanto idealizações quanto leituras reducionistas. Voltado a estudantes, pesquisadores, jornalistas, profissionais de relações internacionais e interessados em geopolítica, o curso será realizado de forma online, com aulas transmitidas ao vivo e posteriormente disponibilizadas para acesso. A programação está marcada para os dias 13, 15, 20 e 22 de abril, sempre no período noturno. Além das aulas, os participantes terão acesso a materiais de apoio, como apresentações, livros, artigos e conteúdos complementares, além de um espaço de debate entre os inscritos e certificação ao final da formação. O investimento é de R$ 295, com possibilidade de parcelamento. ESTRUTURA DO CURSO (4 AULAS) Aula 1 — Imperialismo, racialização e poder discursivo Imperialismo como sistema de dominação multidimensional Poder discursivo e construção de legitimidade Etnocentrismo nas relações internacionais Do “perigo amarelo” ao “perigo vermelho” Análise das bases históricas e teóricas que sustentam a construção de ameaças no sistema internacional, articulando imperialismo, racialização e poder discursivo.4 Aula 2 — As narrativas da ameaça chinesa Partido Comunista Chinês como ameaça existencial Narrativas sobre trabalho, produção e desenvolvimento Direitos humanos e disputas interpretativas Questão ambiental e responsabilização global “Armadilha da dívida” e debate sobre neoimperialismo Exame crítico das principais narrativas que sustentam a ideia de “ameaça chinesa”, abordando temas como política, trabalho, direitos humanos, meio ambiente e a chamada “armadilha da dívida”. Aula 3 —Estados Unidos e a contenção da China Reorientação estratégica dos EUA (do “Pivot to Asia” à atualidade) Guerra comercial e tecnológica Alianças militares e mecanismos de contenção Debate sobre uma possível “Nova Guerra Fria” Limites e contradições da ordem internacional vigente Análise das estratégias dos Estados Unidos para conter a ascensão chinesa, situando a construção da ameaça no contexto da reconfiguração de poder no sistema internacional. Aula 4 — Medo de quê? A ascensão chinesa sob análise crítica Entre idealizações e leituras críticas Singularidades do desenvolvimento chinês China e os debates sobre socialismo no século XXI Implicações da ascensão chinesa para a ordem internacional Síntese das principais interpretações sobre a ascensão chinesa, examinando suas singularidades e implicações na reconfiguração de poder global para além de visões simplificadoras