Após fuga do Talibã, afegãos refugiados lutam para retomar carreira e identidade no Brasil

admin
5 Apr, 2026
O cientista político Ghulam Mustafa Shirzad, 37, ocupou cargos de alto escalão no governo do Afeganistão. Foram mais de 15 anos como diretor do Departamento de Pesquisa do Ministério da Justiça e da área de parcerias em infraestrutura no Ministério da Economia. Cinco anos atrás, ele presidia reuniões, preparava relatórios técnicos e aprovava projetos de desenvolvimento nacional. Hoje, opera o caixa em uma das barracas de comida que abriu em São Paulo. Shirzad é um dos mais de 10 mil refugiados que desembarcam no Brasil desde o colapso do governo afegão. Com o visto, o ex-funcionário do governo vive em Vila Curuçá Velha, bairro da zona leste paulistana. Ele fez o pedido de visto humanitário na embaixada do Brasil no Irã em 2021, quando o Talibã tomou o poder em seu país natal. A reviravolta política naquele ano foi o gatilho para a primeira leva de refugiados afegãos que fugiram do regime fundamentalista para o Brasil. Uma parte dos imigrantes viveu cerca de um mês nos saguões do aeroporto de Guarulhos até ser alojada em abrigos emergenciais. Shirzad desembarcou em São Paulo em janeiro de 2024. É bacharel em ciência política (Universidade Kateb, no Afeganistão), com MBA (Universidade Dunya) e mestrado em análise comparativa de sistemas administrativos (Universidade da Ásia Central). "Estou tentando encontrar um bom emprego para mim, relacionado à minha experiência e formação. Infelizmente, não consigo. O desafio é o português", disse Shirzad, em inglês, em entrevista à Folha. Ele atualizou seu perfil no LinkedIn, utilizou palavras-chave e tópicos na biografia da rede social, e entrou em processos seletivos de grandes bancos brasileiros. Ainda não teve sucesso. O grupo migratório dos afegãos é o segundo com mais pedidos de refúgio aceitos pelo governo brasileiro, atrás apenas dos venezuelanos, de acordo com o Ministério da Justiça. Assim como outros imigrantes que escaparam do Talibã, o ex-diretor não quis detalhar as ameaças sofridas. Ele diz temer pela segurança de parentes que ainda estão no Afeganistão. Entrave linguístico A língua também virou uma barreira imediata para Nina Kawusi, 37, e outros refugiados afegãos com quem a Folha conversou. Tarefas simples como comprar comida, ir ao médico ou matricular os filhos na escola se transformam em exercícios diários para os afegãos que vivem no Brasil. Erros de traduções feitas com ferramentas online acabam gerando mal-entendidos com funcionários públicos e donos de imóveis, relata Nina, mãe de três filhos que vivem com ela e o marido em Jundiaí, no interior paulista. Naweed Kawusi, marido de Nina, estava na lista de pessoas a serem presas pelo Talibã, segundo ela. O ex-coronel da Guarda Nacional do Afeganistão deixou o país antes da esposa. Uma semana depois, ela se juntou a ele em Islamabad, capital do Paquistão, com os filhos. "Quando chegamos, não havia uma diáspora afegã estruturada para nos orientar. Algumas famílias foram enviadas para estados a centenas de quilômetros de qualquer outro afegão, como Minas Gerais e Acre, onde não conheciam ninguém e mal compreendiam o ambiente ao redor. Esse deslocamento geográfico aprofundou ainda mais o trauma que carregamos", relatou Nina. Jornalista de formação, ela atua hoje como artista de henna e colaboradora da ONG Estou Refugiado. "O emprego, quando existe, raramente corresponde às nossas formações e trajetórias. Engenheiros viraram entregadores, professores, trabalhadores domésticos, e médicos, assistentes." Segundo Nina, falta investimento no ensino do português, reconhecimento de diplomas, serviços voltados para o cuidado da saúde mental e apoio jurídico. Para a afegã, documentos de residência, autorizações de trabalho e CPF exigem navegar por sistemas lentos, e, apesar do apoio de organizações locais, a demanda dos refugiados no Brasil supera a quantidade de suporte disponível. "Você está falando com juízes, está falando com médicos", disse Fausto Godoy, ex-embaixador do Brasil no Afeganistão, durante um evento no Museu da Imigração que marcava o Ano-Novo persa, em 22 de março. O espaço reuniu famílias com ex-funcionários do governo afegão derrubado pelo Talibã, além de profissionais de outras áreas hoje exilados e refugiados. Aposentado da carreira diplomática, Godoy coordena o Núcleo de Estudos Asiáticos da ESPM e foi um dos fundadores do curso gratuito de português para refugiados afegãos que passou a ser oferecido pela instituição em 2023, em parceria com a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil. A turma se encontra duas vezes por semana, e as aulas são focadas na cultura brasileira e em conversações simples em português. Habib Aseel, 33, ex-gerente da emissora nacional do Afeganistão, a RTA, compareceu à última aula do mês de março, na segunda-feira (30). "Eu falo dari, pashto, inglês, urdu e uzbeque. Na verdade, meu nome completo é Habibullah Aseel", explicou o afegão. O apelido, mais enxuto, auxilia na adaptação à fonética do português brasileiro. Habib iniciou a formação acadêmica no Instituto de Administração de Empresas e Contabilidade do Afeganistão, onde obteve primeiro o bacharelado. As pós-graduações se estenderam em cursos pelo Instituto Internacional de Treinamento em Liderança, no Paquistão, no Centro Acadêmico Azerakhsh e no Centro de Desenvolvimento em Computação Avançada, em Mohali, na Índia. Trabalhou apenas uma semana com o Talibã no comando da emissora, em 2021. O regime assumiu a direção da estatal, enquanto alguns funcionários antigos decidiram permanecer nos cargos. Habib foi um deles. "Eu me sentia dividido. Eu tinha um compromisso com o meu trabalho e não queria deixar o meu país. Dizia a mim mesmo que ficaria, que daria um jeito de continuar ali", disse à Folha. "Eu perdi o meu irmão no Afeganistão enquanto servia ao meu país e à minha comunidade. E, ainda assim, aquelas gravações traziam mensagens que, na prática, justificavam ou exaltavam ações como a que tirou a vida dele." Depois de ser alvo de uma denúncia à diretoria da RTA e de uma investigação posterior —algo que ele diz ter acontecido com todos os funcionários da estatal— começou a fuga que durou três meses. "Eu ainda tentei ficar. Me escondi, fechei todas as minhas redes sociais, apaguei contatos e fui para regiões muito isoladas, onde nem havia sinal de telefone", conta o afegão. O ex-executivo de mídia hoje recebe um auxílio da ONG Panahgah ("refúgio", em persa). A organização atende 936 refugiados e é financiada por doações de empresas. Com o benefício, consegue pagar o aluguel de sua casa no Jardim Maia, zona norte de São Paulo. "Eu não sei como vou sobreviver aqui. O Brasil não é um país pobre, mas encontrar um emprego é muito desafiador, mesmo para brasileiros." Exigência burocrática No Brasil, o processo de revalidação do diploma estrangeiro é feito exclusivamente em universidades públicas. É preciso encontrar um curso que espelhe o do diploma a ser revalidado e checar se há uma universidade que oferece vagas para o programa em questão. Para refugiados, há uma flexibilização maior em relação aos documentos a serem apresentados ao Ministério da Educação, devido à possibilidade de essa documentação ter se perdido em meio a conflitos armados e emergências climáticas nos países de origem. O médico endocrinologista Mohamed Yama Shahab, 37, deu início ao processo de revalidação há três meses com ajuda da ONG Panahgah. Enquanto aguarda um retorno sobre a possibilidade de poder voltar a atuar em sua área de formação, vive de doações de vizinhos em Santo André, na Grande São Paulo, e do auxílio financeiro da instituição, que supre as despesas básicas. Yama, como prefere ser chamado, ocupava um dos assentos na diretoria do Conselho Federal de Medicina do Afeganistão. Nessa posição, concedia entrevistas à imprensa nacional e frequentemente criticava os avanços do Talibã. Teve de deixar o país em maio de 2022, com a mulher e os dois filhos, após virar alvo do regime. Solicitou visto humanitário na Índia, onde havia feito pós-graduação. O pedido foi negado. Em vídeos e mensagens, verificados pela Folha, Yama recebia ameaças. As imagens incluíam homens armados em frente a uma clínica e a uma farmácia que pertenciam ao médico em Cabul. Os soldados andavam com metralhadoras e portando roupas comuns, sem identificação. "Mesmo aqui, na maior parte do tempo, não me sinto bem. Ainda sofro de transtorno de estresse pós-traumático complexo", conta o afegão. Apesar da falta de incorporação no mercado e da dificuldade com o português, afegãos ouvidos pela reportagem elogiam a política migratória do Brasil. O acesso ao SUS, a um registro de CPF e a escolas públicas são direitos que podem ser absorvidos por qualquer imigrante que chega ao país. "O Brasil criou um mecanismo específico para afegãos, como a concessão de visto humanitário, que permite a entrada regular no país e também evita rotas ilegais e tráfico de pessoas", explica Vitelio Brustolin, professor na Universidade Columbia e pesquisador em Harvard. Segundo ele, as medidas existem para seguir os princípios do direito internacional humanitário, adotado pelo governo brasileiro. Apesar disso, Brustolin aponta o entrave da inexistência de uma estratégia nacional robusta de integração dos refugiados, com políticas públicas fragmentadas entre União, estados e municípios. "São pessoas qualificadas, com graduação, mestrado ou doutorado. Quando se chega ao Brasil, há uma dificuldade muito grande de incorporar esses saberes", diz Maria Beatriz Nogueira, chefe do escritório do Acnur, a agência da ONU para refugiados, em São Paulo. De acordo com Nogueira, o Acnur lançará neste mês um guia para refugiados. O documento é uma parceria entre o braço imigratório da ONU e o governo brasileiro. A expectativa é que o guia apoie imigrantes em processos de revalidação de diploma no país. Uma curadoria das universidades com processos mais fáceis, informações sobre a oferta de vagas, a necessidade de tradução juramentada e os custos devem estar presentes na cartilha. Questionado pela reportagem sobre a adaptação ao Brasil para além do mercado, o médico Yama afirma que, apesar dos desafios com a burocracia e o idioma, encontra acolhimento no cotidiano. "Pela graça de Deus, consegui me adaptar ao caloroso abraço do Brasil. Desde que cheguei aqui, posso dizer que todos os dias me inspiro em novas pessoas, repletas de amor, sorrisos, alegria e felicidade."