Public Image Ltd retorna ao Brasil entre rebeldia e contemplação

admin
9 Apr, 2026
Na última vinda do Public Image Ltd ao Brasil, em 1992, este mesmo jornal anunciou a apresentação no seu Guia: "As paredes vão tremer", dizia o texto, que não soa tão atual para o show que marcou o retorno da banda ao Brasil nesta quarta (8) no Cine Joia. As paredes já não tremem tanto, e o público da banda trocou o pogo pela contemplação. O próprio PiL também se adaptou: Lydon fez uma pausa depois de uma hora de show para fumar um cigarro nos bastidores --algo que ele faria sem cerimônia no auge da seu ímpeto punk. Mas a rebeldia ainda vive. O cigarro era, na verdade, pausa para um descanso antes do bis. É quase meio século de banda, e algumas músicas exigem mais. Foi o caso de "Rise", sucesso que tomou o público em uníssono, e do final com "Annalisa", "Attack" e "Chant". A tríade, ponto alto da apresentação, mostrou um Lyndon injuriado, entre gritos descompensados e modulações rasgadas --uma voz feita para o punk. A sequência veio logo depois de "Public Image", que conseguiu até botar a plateia para pular e as paredes, veja só, para tremerem um pouco. A faixa de mesmo nome da banda embala seu espírito desde sua fundação, logo após a saída conturbada de Lyndon dos Sex Pistols. Ao vivo, segue como RG do pós punk, uma criação representativa do cruzamento entre niilismo e decadentismo que o PiL incorpora desde seus princípios. Essas primeiras décadas, os 70 e os 80, foram o ápice criativo do grupo, e foram outras músicas dessa época que resultaram nos melhores momentos de Lydon e turma ao vivo --uma banda cuja formação também estreava no Brasil. E, ao contrário da história do navio de Teseu, que teve todas as suas partes trocadas a ponto de ser questionado como tal, é nesse jogo das cadeiras liderado por Lydon que o PiL sempre existiu como tal. Além do próprio Lydon, o veterano da banda no palco era o guitarrista Lu Edmonds. Os novatos no país eram os experientes Mark Roberts, baterista e ex-Massive Attack, e Scott Firth, baixista com passagens em grupos como Morcheeba. A entrada dos músicos trouxe força e uma bem-vinda harmonia, uma liga para o grupo. Em "Corporate", de 2015, é o duo de bateria e baixo, como uma marcha, que dá profundidade para a postura cênica de Lydon, um arauto do apocalipse que a letra proclama. Em "Flowers of Romance", enquanto Lydon seguia seu monólogo errático, mais uma vez a cozinha segurava o palco. Dessa vez, com ajuda de teclados, além da entrada original de uma espécie de alaúde elétrico tocado por Edmonds. O instrumento seguiu no punho do músico em "Warrior", e sua textura não encontrou um bom lugar no som da casa de show. Ainda assim, a faixa deu vazão ao estilo de composição e performance de Lydon --suas letras descompassadas entre crescendos densos e minimalistas. O show não passou por nenhuma canção do último álbum do grupo, "End of World", de 2023. Nem mesmo a faixa "Hawaii", homenagem de Lydon a sua falecida esposa --destaque do disco irregular. Acostumado a polêmicas, do tipo apoiar Trump e se dizer contra a anarquia que ele mesmo cantou, Lydon trouxe ao Brasil apenas a raiva de algumas canções, o pessimismo de outras e algum deboche do punk: ele fez questão de catarrar o palco no meio do show. "Não reclamem", gritou o também conhecido Johnny Rotten (Joãozinho Podre), ao que o público riu.