Êxodo das bets: por que casas de apostas decidiram diversificar investimentos para além do futebol
10 Apr, 2026
O mercado de patrocínios esportivos no Brasil atravessa um período de reajuste. A “corrida do ouro” das casas de apostas, para ocupar cada espaço disponível nos uniformes dos clubes de futebol, deu lugar a uma saída estratégica de várias marcas para outros segmentos. Durante o evento Bis Sigma, principal encontro do setor de iGaming na América do Sul, executivos de diversas empresas do segmento apontaram para um fenômeno crescente: o êxodo de operadoras de médio e pequeno porte do ambiente do futebol. A realidade financeira do mercado de apostas mudou. Enquanto a Betano mantém investimentos pesados, no Flamengo e na CBF , marcas com menor poder aquisitivo começam a diversificar o portfólio. Flamengo tem o maior patrocínio do Brasil vindo de uma casa de aposta. O Sport Insider conversou com interlocutores de quatro casas de apostas. Todos sinalizaram um deslocamento do segmento, com a busca por audiência em nichos menos inflacionados e mais estáveis do que as quatro linhas futebolísticas. A justificativa dos players menores é o ajuste tributário na regulamentação. Embora necessária para a segurança jurídica, as mudanças colocaram um fardo financeiro que inviabiliza grandes investimentos. “As empresas do setor estão reagindo com bastante preocupação ao aumento da carga tributária. Na prática, isso nos obriga a rever investimentos, especialmente no esporte, e também impacta a capacidade de ofertar, por exemplo, odds competitivas ao consumidor”, afirma Marco Tulio Oliveira, CEO da Ana Gaming, holding que opera as marcas 7K Bet, Cassino Bet e Vera Bet. A lei faz com que as casas paguem mais impostos de dois jeitos básicos. Primeiro, o imposto sobre o lucro bruto delas vai subir um pouco todo ano até 2028. Segundo, o governo cortou 10% dos descontos que essas empresas usavam para pagar menos tributos federais. Na prática, a operação ficou mais cara, e o dinheiro extra da tributação vai para a saúde pública e para o pagamento de aposentadorias. Com a margem de lucro espremida e os contratos em patamares inflacionados, o setor encerra uma fase de expansão desenfreada, deixando o território cada vez mais exclusivo para as gigantes. ‘Se depender de mim, a gente fecha as bets’, diz Lula O cenário de incerteza ganhou novos contornos com as recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na tarde da última quarta-feira (8), Lula expressou preocupação com o impacto social e econômico da “jogatina desenfreada” nas famílias brasileiras. O presidente chegou a afirmar que, se dependesse exclusivamente dele, “fecharia as bets”, tratando o tema como questão de saúde pública e segurança financeira. Apesar do incômodo, fontes do setor ouvidas pela reportagem entendem que o tom crítico de Lula tem fundo político. Em ano eleitoral, o endurecer do discurso serve como um aceno popular. Com a expectativa de injetar bilhões no orçamento por meio das apostas, valores que vão ajudar o governo a cumprir metas fiscais, uma proibição se torna inviável. Nem Executivo nem Congresso estão dispostos a abrir mão dessas receitas. LULA BRASÍLIA DF 03.10.2024 LULA / RENIÃO MINISTERIAL BETS POLÍTICA OE - O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanhado do s ministros Fernando Haddad (Fazenda) Rui Costa (Casa Civil) Nísia Trindade ( Saúde) Ricardo Lewandowski (Justiça) Wellington Dias (Desenvolvimento Social) , e tambem do diretor geral da Policia Federal Andrei Rodrigues e demais autoridades durante reunião realizada na tarde desta quinta-feira 03 de outubro no Palácio do Planalto para tratar dos sites e aplicativos de apostas on line, conhecido como BETS. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO Temor com o mercado clandestino O setor teme que o cerco regulatório produza um efeito reverso indesejado, com a combinação de impostos elevados e a possibilidade de restrições à publicidade, após o texto que visa alterar a Lei das Apostas Esportivas ter avançado no Senado. A ideia é barrar anúncios de apostas de quota fixa em plataformas digitais e uniformes esportivos, além de impedir palpites sobre eleições. Com esse novo contexto, a visão das casas de apostas é de que as licenciadas perdem competitividade para plataformas clandestinas que ignoram a legislação. O cenário pessimista para as casas de apostas prevê a migração massiva do público para o mercado paralelo, onde não há proteção ao consumidor nem arrecadação de tributos, tornando o ambiente mais perigoso e menos lucrativo para o Estado. “Apesar da falta de divulgação pública, o setor das apostas esportivas já paga vultuosos impostos acima de 30% do faturamento das empresas. Além disso, o segmento contribui para a sociedade com a geração de empregos e o investimento de altas quantias no esporte nacional”, afirma Leonardo Henrique Roscoe Bessa, sócio do Betlaw, escritório de advocacia especializado em bets, e consultor do Conselho Federal da OAB. “Neste momento, o principal ponto de atenção do governo brasileiro e também dos operadores deve ser o combate do mercado ilegal, que apresenta incontáveis malefícios para todo ecossistema de betting e, especialmente, aos usuários”, conclui o advogado.