Segundona alemã supera Brasileirão com salsicha, cerveja e futebol raiz

admin
1 May, 2026
Resumo Estádios lotados, jogadores de seleções que vão à Copa do Mundo e tecnologia de ponta. Mas também torcedores fanáticos com bandeiras gigantes, cervejas em copos de meio litro e cheiro de salsicha. É essa combinação improvável faz da 2.Bundesliga, a segunda divisão alemã, um fenômeno no futebol europeu. Os números falam por si: a média de público de 30.830 torcedores por jogo na temporada 2024-25 foi a terceira maior do mundo. Apenas a Premier League (40.411 torcedores) e Bundesliga (38.656) estão à frente. Na temporada passada, a segundona alemã superou campeonatos tradicionais, como a Série A italiana (30.772), o Campeonato Espanhol (30.015, ainda afetada pelas reformas no Camp Nou) e a Ligue 1, da França (27.363). O Campeonato Brasileiro da Série A é o sexto no ranking, com 26.380 espectadores. Clima de decisão Para além da frieza dos números, a experiência de ver um jogo da segunda divisão alemã impressiona ainda mais. A coluna esteve presente no duelo entre Fortuna Dusseldorf e Bochum, pela 24a rodada, em Dusseldorf. O time da casa era o 11o colocado na tabela, e os visitantes ocupavam a décima colocação. Nenhum deles tinha grandes aspirações para a reta final da competição, pois já estavam longe da briga pelo acesso e tranquilos na disputa contra o rebaixamento (nas rodadas seguintes, o Fortuna mergulhou uma crise e agora briga para não cair). Só que, na prática, aquele jogo de fevereiro não parecia um duelo de meio de tabela: 41.066 torcedores encararam uma noite fria de sexta-feira para ver a vitória do time da casa por 2 a 1. Apesar do número impressionante, a ocupação de 75% do estádio ficou abaixo da média da liga, que costuma estar perto dos 90%. O lema da Liga de Futebol Alemã — tanto para a elite quanto para a segunda divisão — é "Futebol como deve ser". O slogan se reflete nos preços médios de entradas, que são os mais baixos dentre as grandes ligas europeias: Bundesliga tem uma média de 28? (cerca de R$ 168), e a segundona, de 24? (R$ 144). Na Premier League, o valor chega a 74 libras (cerca de R$ 500. Mas é em outros detalhes que o "futebol raíz" aparece: cerveja nos estádios, diferentes tipos de "bratwurst" (a famosa salsicha local) e uma animação incomum nos campos europeus. Tudo isso com a presença de equipes tradicionais, como o Schalke 04, Hertha Berlin, Kaiserslautern e o Nuremberg, segundo maior campeão do país — tem 9 títulos, atrás apenas do Bayern de Munique. O Schalke e o Hertha são os líderes de público. A equipe de Gelsenkirchen tem 98% de ocupação de seu estádio, com um média de 61.879 espectadores. O número é parecido com o do Flamengo, que tem média de 61.619 torcedores no Maracanã. Já a equipe berlinense ocupa "apenas" 65% do Estádio Olímpico da capital alemã, mas ainda assim coloca 48.521 espectadores, em média, nos jogos em casa. Mais que o PSG, campeão da Champions, que tem média de 47.542 espectadores (97% da capacidade do Parc des Princes). No sábado, com a Veltins Arena lotada, o Schalke tentará dar mais um passo para voltar à elite. O duelo, contra o Fortuna Dusseldorf, pode devolver o time de Gelsenkirchen à primeira divisão após três temporadas na segundona. Nível técnico impressiona lenda Para Jurgen Klinsmann, um dos maiores atacantes da história do futebol alemão, o nível técnico e o ambiente da competição são inigualáveis entre os torneios de segunda divisão. "A 2. Bundesliga atingiu um nível técnico incrivelmente alto, com clubes de grande dimensão e estádios cheios -- o Kaiserslautern com 50 mil, o Hertha Berlim com médias de 50 a 60 mil, e o Schalke sempre esgotado com 60 mil", afirmou o ex-jogador e treinador do UOL. "Eu comparo com a Serie B Italiana, onde o meu filho joga -- é uma liga forte, mas a tecnologia e a produção televisiva da 2. Bundesliga estão num nível completamente diferente", acrescenta o ídolo de Stuttgart, Internazionale e Bayern. O bom nível técnico deve ser visto na Copa do Mundo, com a presença de nomes como os bósnios Edin Dzeko e Nikola Katic (ambos do Schalke), dos tunisianos Sayffalah Ltaief (Greuther Furth), do ganês Patrick Pfeiffer (Darmstadt), dentre vários outros atletas da segundona alemã. Tecnologia de ponta Para Dominik Scholler, vice-presidente de Inovação da DFL — a Liga Alemã de futebol —, há um fator além do alto nível técnico, que também faz a diferença: a forma como o produto é levado ao público. Em conversa com o UOL, ele destacou que as equipes estão muito abertas a inovações na tecnologia de transmissões, o que permite à Liga testar novidades em jogos da segunda divisão antes até mesmo de levá-las à Bundesliga. "Os clubes da 2. Bundesliga foram ainda mais longe e quiseram estar na linha de frente, propondo conteúdos como vídeos POV (point-of-view) com smartphones, acompanhando os jogadores desde a chegada ao estádio até o pós-jogo, já em formato vertical para redes sociais", explica. "Também passamos a incluir entrevistas rápidas no intervalo com a comissão técnica, permitindo explicar ajustes táticos ou decisões como substituições", acrescenta Scholar. A união de nível técnico, ambiente de estádio "à moda antiga" e abertura para novas ideias de tecnologia levam a 2.Bundesliga a um nível que nem mesmo campeonatos de elite conseguem ter. Se olhar para La Liga, a Premier League ou mesmo para a Bundesliga parece um sonho distante, o futebol brasileiro poderia ao menos observar que está sendo feito na segundona alemã: um campeonato que consegue misturar nostalgia e modernidade. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.