Secretaria da Agricultura valida solução biológica inédita contra carrapato com aplicação por drone nas pastagens

admin
4 May, 2026
Pesquisadores testam tecnologia em Hulha Negra que pode transformar o controle do parasita no campo gaúcho A busca por alternativas mais sustentáveis no controle do carrapato bovino avança no Rio Grande do Sul. Pesquisadores da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) estão validando, em condições reais de campo, um produto biológico inédito aplicado diretamente nas pastagens com o uso de drones. A fase mais recente dos testes foi realizada na última semana de abril, no centro de pesquisa da pasta em Hulha Negra, na região da Campanha. Desenvolvido pelo Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), o projeto propõe uma mudança de paradigma no combate ao carrapato bovino. Em vez de concentrar o tratamento diretamente nos animais, como ocorre tradicionalmente com produtos químicos, a estratégia atua no ambiente — local onde o parasita passa a maior parte de seu ciclo de vida. Segundo o pesquisador e diretor do IPVDF, José Reck, há uma lacuna tecnológica nesse tipo de abordagem. “A maior parte dos carrapatos está na pastagem, aguardando o hospedeiro. Mesmo assim, o controle segue concentrado no animal”, explica. A nova tecnologia utiliza micro-organismos presentes no solo, como fungos e bactérias, selecionados por sua capacidade de eliminar o parasita sem causar danos aos bovinos, ao ser humano ou ao meio ambiente. Esses agentes biológicos são formulados e aplicados diretamente sobre o campo com o auxílio de drones, ampliando a eficiência e a escala da operação. Para o secretário da Agricultura, Márcio Madalena, iniciativas como essa representam um avanço estratégico. “Projetos assim são fundamentais para avançarmos em soluções práticas diante de um problema recorrente no dia a dia dos produtores”, destaca. Inovação aliada ao conhecimento científico Iniciado em 2025, o estudo está atualmente em fase de validação em escala real, com monitoramento contínuo das áreas experimentais. Dois tratamentos distintos estão sendo avaliados, incluindo análise de custo-benefício. A previsão é que os testes sigam até julho, quando a chegada do inverno tende a reduzir naturalmente a população do parasita, permitindo uma avaliação mais precisa dos resultados. A pesquisa reúne conhecimentos já consolidados na agricultura com o manejo sanitário animal. A professora Patrícia Golo, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), destaca que a proposta considera todo o sistema produtivo. “Avaliamos a infestação nos bovinos, as fases no ambiente e a persistência do fungo no solo, em um experimento próximo da realidade do produtor”, afirma. Essa nova etapa representa um avanço em uma linha de pesquisa iniciada ainda em 2012 pelo IPVDF, que anteriormente focava em soluções aplicadas diretamente nos animais. Desafio histórico no Rio Grande do Sul O Rio Grande do Sul é um dos principais focos de infestação de carrapato bovino nas Américas. A predominância de raças europeias — mais suscetíveis — somada às condições climáticas favoráveis ao longo do ano agrava o cenário. Como consequência, o Estado lidera o uso de carrapaticidas químicos, o que acelera o desenvolvimento de resistência do parasita. Esse ciclo torna o controle cada vez mais difícil e menos eficaz ao longo do tempo. De acordo com o médico veterinário da Seapi, Gabriel Fiori, a adoção de insumos biológicos surge como resposta a esse problema. “É uma estratégia fundamental diante da crescente resistência aos acaricidas químicos, além de atender às exigências por sustentabilidade e redução de resíduos nos produtos de origem animal”, ressalta. Caminho para uma pecuária mais sustentável Nos últimos anos, a Seapi tem ampliado investimentos em alternativas ao controle convencional, incluindo o uso racional de medicamentos e práticas como a rotação de pastagens. A nova tecnologia reforça esse movimento ao propor uma solução de base biológica com potencial de reduzir impactos ambientais, riscos à saúde e custos no longo prazo. A expectativa é de que, caso os resultados sejam confirmados, a inovação represente uma mudança significativa no controle do carrapato no campo. “A tecnologia pode alinhar produtividade e sustentabilidade, dois pilares essenciais da pecuária moderna”, conclui José Reck.