Guerra de preços na China empurra montadoras para fábricas no Brasil

admin
6 May, 2026
Resumo A expansão das montadoras chinesas entrou em uma nova fase e ela passa, cada vez menos, por navios gigantescos e, cada vez mais, por fábricas fora da China. De acordo com relatório recente da consultoria AlixPartners, os fabricantes do país asiático planejam quase triplicar a produção no exterior até o fim da década, saltando de cerca de 1,2 milhão para 3,4 milhões de veículos por ano até 2030. A estratégia envolve a instalação de operações industriais em ao menos 16 países, com Europa e América Latina despontando como os principais destinos. O movimento indica uma mudança de modelo. Depois de anos baseando sua expansão em exportações, as montadoras chinesas agora passam a investir em produção local e até cadeias de fornecedores nos mercados onde querem ganhar escala. "O modelo está mudando de exportação pura para uma internacionalização com múltiplos ativos", resume o estudo. Pressão em casa acelera mudança A guinada não acontece por acaso. Ela é, em grande parte, uma resposta ao cenário doméstico cada vez mais desafiador. O próprio relatório aponta que o mercado chinês vive uma competição intensa, com queda de preços de cerca de 20% nos últimos dois anos. Esse ambiente tem pressionado margens e forçado as empresas a buscar rentabilidade fora do país. Os números globais recentes da BYD ajudam a ilustrar esse cenário. A empresa registrou no primeiro trimestre a maior queda de lucro em seis anos: o resultado líquido recuou 55,4%, para 4,1 bilhões de yuans, enquanto a receita caiu 11,8%, marcando o terceiro trimestre consecutivo de retração. A combinação de desaceleração interna e concorrência crescente, principalmente entre marcas chinesas, tem empurrado as montadoras para fora. E não apenas como exportadoras, como vem acontecendo desde o início da década, mas como produtoras locais. América Latina em foco Nesse redesenho global, a América Latina ganhou protagonismo. Segundo a AlixPartners, as marcas chinesas já respondem por cerca de 20% do mercado automotivo da região e por mais de metade das vendas de veículos elétricos. O avanço, porém, não deve parar na importação. A consultoria aponta que países com menor proteção industrial e alta sensibilidade a preço, como os sul-americanos, tendem a se tornar plataformas importantes para produção e expansão regional. Nesse contexto, o Brasil, com imposto de importação de 35% e maior mercado da região, se torna o candidato perfeito. Brasil como base industrial Se antes o Brasil era visto sobretudo como mercado consumidor, agora passa a ocupar um papel mais estratégico, o de base produtiva. E essa virada já começou a ganhar forma. Depois de BYD e Great Wall Motors avançarem com seus projetos em Camaçari (BA) e Iracemápolis (SP), respectivamente, a própria GWM já confirmou um segundo movimento relevante: a construção de uma nova fábrica em Aracruz (ES). Na esteira dessas iniciativas, uma nova leva de fabricantes chineses passou a estruturar operações industriais no país, ainda que, em muitos casos, em fase inicial. A GAC Motor vai produzir em Catalão (GO), enquanto a Changan Automobile usa a planta da Caoa, em Anápolis (GO). Já a Geely vai usufruir da estrutura da Renault, em São José dos Pinhais (PR), e a Leapmotor vai se apoiar na fábrica da Stellantis, em Goiana (PE). Outras marcas seguem pelo mesmo caminho. As operações da Omoda e Jaecoo têm como opção a planta de Itatiaia (RJ), da Jaguar Land Rover. A Dongfeng firmou parceria com a Nissan para produção em Resende (RJ), enquanto a MG Motor avalia instalar sua operação no Ceará, na unidade da Pace, onde a General Motors monta modelos como Spark e Captiva EV. A produção local funciona como resposta direta ao retorno do imposto de importação para veículos eletrificados, que vinha sendo reduzido, voltou a subir gradualmente e retornará ao patamar de 35% em julho deste ano. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.