Agregadores de IA vendem praticidade, mas recursos limitados frustram clientes
6 May, 2026
Que cada modelo de inteligência artificial tem habilidades próprias ninguém discute. Mas faz sentido assinar um pacote com várias IAs para usar a especialidade de cada uma delas? Empresas têm lançado agregadores que reúnem diferentes modelos de IA em uma única assinatura e prometem simplificar o uso dessas ferramentas. Na prática, funcionam como uma biblioteca de IAs acionadas a partir do comando do usuário. Adapta, Inner AI e MyHUB.IA estão entre as empresas do setor. Esses serviços oferecem planos de assinatura que custam de R$ 49,90 a R$ 249,90 e costumam destacar como atrativos a variedade de modelos disponíveis, bibliotecas de prompts e cursos para melhorar o uso das ferramentas. As plataformas, que ganharam popularidade com anúncios em redes sociais, também oferecem recursos próprios. O Adapta oferece ferramentas de análise de planilhas e edição de imagens, além de um painel de gestão de equipes. O Inner AI afirma ter treinado sua base com perguntas ligadas ao Brasil, o que permitiria respostas mais adaptadas ao contexto local. Já o MyHub.IA inclui a criação de agentes e funções voltadas a investimento, finanças e marketing. Especialistas afirmam, no entanto, que a variedade de opções nem sempre se traduz em vantagem para o usuário comum. Isso porque o acesso ao modelo é apenas parte do que empresas como Google, OpenAI e Anthropic oferecem em suas plataformas próprias. Para acessar esses serviços diretamente, o usuário paga entre R$ 24,99 e R$ 1.209,90 por mês no Gemini, enquanto o ChatGPT custa de R$ 39,99 a R$ 525. O Claude sai por US$ 20 (cerca de R$ 100). Recursos mais avançados dessas plataformas nem sempre estão disponíveis nos agregadores ou demoram a ser incorporados. Dentro do ChatGPT, por exemplo, é possível acessar ferramentas voltadas à programação que criam, revisam e ajustam códigos em plataformas como o GitHub. Já o Claude, da Anthropic, gera respostas interativas, o que facilita na hora de aprender algum conceito matemático, por exemplo. "Ficar meses atrás já é estar muito defasado", diz Pedro Burgos, consultor em inteligência artificial. "Quem usa IA para programar tem um problemão em ficar quatro meses atrasado, porque nesse intervalo as ferramentas podem melhorar bastante". Na maioria das vezes, combinar a assinatura de uma ferramenta principal com o uso gratuito de outras pode ser suficiente para a maioria dos usuários. Do lado das empresas, executivos afirmam que os serviços valem a pena por agregar diversos modelos que, assinados separadamente, poderiam custar mais caro. João Sandrini, CEO do MyHub.IA, diz que a assinatura inclui cursos e transmissões ao vivo para orientar usuários. Segundo ele, o sistema permite identificar qual modelo gerou cada resposta. "A chance do modelo ser inferior ao anunciado e o cliente não perceber é zero", disse. Gabriel Gomes, 25, assinou um serviço do tipo em 2024. Ele afirma que a experiência foi positiva no trabalho com programação de dados, embora tenha usado apenas uma parte dos modelos disponíveis. "Apareceram outras ferramentas no mercado que faziam coisas parecidas ou até mais focadas no que eu precisava. Não vi mais sentido em assinar", afirma. "Foi fácil migrar para essas ferramentas que muitas vezes não precisam de assinatura paga". Um dos pontos negativos apontados por usuários é o limite de arquivos que podem ser anexados simultaneamente. Esse tipo de restrição está ligado ao modelo de negócios dos agregadores, que compram tokens —unidades de processamento de texto— de provedores como OpenAI, Anthropic e Meta e revendem o acesso. Para equilibrar custos, as empresas controlam o consumo de cada usuário, o que pode levar à limitação de funcionalidades ou ao uso de modelos mais simples, afirma Rodrigo Florencio, especialista em IA pela USP. Como esse agregador é um intermediário entre o usuário e o provedor original da IA, ele apresenta alguma lentidão na resposta que o provedor original não apresentaria. "Para geração de vídeo, de música e de imagem, isso pode aumentar", diz Florencio. Sobre o limite de uso, Sandrini, do MyHub.IA, diz que o usuário pode comprar mais créditos para fazer vídeos ou imagens. Os resultados abaixo do esperado decepcionaram o arquiteto Samuel Marcolin, 32, que precisava da inteligência artificial para gerar imagens 3D no trabalho. Outro problema era a memória curta da ferramenta —que só tinha referências de cerca de dez mensagens anteriores e depois esquecia o restante da conversa. "Eles mandavam abrir outra conversa com a justificativa de que conversas muito longas podiam gerar alucinações ou deixar a plataforma lenta", diz. Marcolin também relata problemas com arquivos enviados à ferramenta, que ficavam corrompidos ou desorganizados. De abril de 2025 até março de 2026, segundo levantamento do site Reclame Aqui, as principais queixas dos clientes de plataformas do tipo eram dificuldade no cancelamento do plano contratado, problemas com estorno do valor pago e propaganda enganosa –no caso de a resposta não ser processada no modelo de IA que o cliente comprou. Bernard Braun, diretor de marketing do Inner AI, diz que o período de teste é suficiente para as pessoas validarem a assinatura. Tanto que a maioria dos cancelamentos é feita em até três dias. "Isso acontece quando as pessoas já vêm precisando de uma funcionalidade específica", diz. O agregador que escolhe o modelo usado em cada resposta foi alimentado com base de dados feita a partir de análise de concorrentes e adaptadas ao contexto brasileiro, afirma Braun.