Como pressão da China levou a Zâmbia a cancelar conferência de direitos digitais
6 May, 2026
Esta é a edição da newsletter China, terra do meio desta terça-feira (17). Quer recebê-la toda semana no seu email? Inscreva-se abaixo: A maior conferência global de direitos digitais, a RightsCon, não foi realizada em 2026. Os organizadores divulgaram uma longa carta na sexta apontando um culpado: o governo chinês. O evento reuniria mais de 2.600 participantes presenciais e 1.100 online, de 150 países e 750 instituições, em Lusaca, capital da Zâmbia. A programação previa painéis sobre exportação de autoritarismo digital chinês, desinformação na África e ciberataques atribuídos a Pequim. Responsável pela conferência, a Access Now divulgou um longo comunicado na sexta (1o) alegando que Pequim pressionou a Zâmbia a cancelar o evento em razão da presença de participantes taiwaneses. Segundo a organização, havia um memorando de entendimento assinado com o Ministério de Tecnologia e Ciência do país. No dia 27 de abril, o ministério teria ligado para os organizadores e informado que diplomatas chineses pressionavam Lusaca por causa dos taiwaneses. A Access Now disse no comunicado que oficiais de imigração começaram a dizer aos participantes que chegavam ao país que a conferência havia sido cancelada. Na noite de 28 de abril, a mídia estatal anunciou o "adiamento" sem consulta prévia aos organizadores. A primeira comunicação oficial do ministério veio por WhatsApp no dia seguinte. Relatou que os organizadores do evento foram alertados por múltiplas fontes de que a condição para prosseguir era moderar temas específicos e barrar taiwaneses da participação presencial e virtual. A China não respondeu a pedidos de comentário feitos pela revista Wired, que reportou o caso, e a embaixada zambiana tampouco se pronunciou. Zâmbia tem laços econômicos profundos com Pequim, seu maior credor. Dias antes do cancelamento, por exemplo, a Agência de Desenvolvimento do país tinha assinado acordo de US$ 1,5 bilhão (R$ 8,5 bilhões) com uma estatal chinesa para ampliar a capacidade energética nacional. O centro de conferências onde o evento ocorreria foi reformado em 2022 com doação de US$ 30 milhões (R$ 170 milhões) do governo chinês. A edição de 2025 da RightsCon foi realizada em Taipé, e a Access Now disse que nunca havia enfrentado pressão direta de Pequim sobre o evento. O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, da Unesco, que coincidiria com a conferência em Lusaca, também foi afetado e teve a programação transferida para Paris. Por que importa: se as alegações da Access Now se confirmarem, o episódio indica que a dependência de crédito e investimento chinês pode dar a Pequim capacidade de interferir em eventos internacionais em países onde mantém forte presença financeira. O risco é que conferências de sociedade civil passem a evitar países do Sul Global com vínculos econômicos com a China, estreitando o debate sobre direitos digitais nas regiões mais expostas a tecnologias de vigilância exportadas por Pequim. pare para ver "A China ama a África", trabalho do artista queniano Michael Soi que analisa de forma crítica o investimento chinês no continente. A peça, parte de uma série com 74 artes, despertou controvérsia no país e levou a uma campanha de reprimenda pública contra Soi em 2015. Saiba mais sobre a história aqui o que também importa ★ Após mais de quatro anos, autoridades revelaram o que pode ter causado a queda do Boeing 737 da China Eastern. A aeronave caiu em uma montanha em março de 2022 e 132 pessoas morreram. Segundo o Conselho Nacional de Segurança no Transporte dos EUA com base em dados extraídos da caixa-preta, o fornecimento de combustível teria sido cortado durante o voo. O órgão afirmou que as chaves de combustível dos dois motores foram movidas para a posição de corte enquanto a aeronave voava a 8.839 metros de altitude, o que reforça a tese de ação deliberada. A China nunca divulgou sua própria versão sobre o mais grave acidente aéreo no país em décadas, alegando que o tema tocava em questões de segurança nacional. ★ O governo chinês suspendeu a concessão de novas licenças para veículos autônomos no país após um incidente em Wuhan. Robotáxis do serviço Apollo Go, da Baidu, pararam de funcionar de forma repentina na cidade em março. A decisão impede que empresas do setor aumentem suas frotas ou iniciem operações em outras regiões, segundo a Bloomberg News. A Baidu teve suas atividades na cidade interrompidas durante a apuração das causas da falha. Pequim havia ordenado uma rodada de inspeções de segurança no mês passado em testes com veículos inteligentes conectados em vias públicas. fique de olho As exportações brasileiras de carne bovina podem recuar cerca de 10% em 2026 em razão de restrições tarifárias impostas pela China, previu o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, Roberto Perosa, à Reuters. Após uma investigação de salvaguarda que durou anos, Pequim fixou em 2025 uma cota de 1,1 milhão de toneladas com tarifa reduzida para o produto brasileiro neste ano. Acima desse limite, a taxa sobe para 55%. A medida fez os frigoríficos brasileiros anteciparem embarques para aproveitar a janela e a cota já está perto de se esgotar. A expectativa é que os envios ao país asiático parem por volta de junho. No início do ano, a Abiec, entidade que representa grandes frigoríficos como JBS, Marfrig e Minerva, esperava estabilidade nas vendas externas com a abertura de novos destinos. Segundo Perosa, a esperada abertura de mercado na Coreia do Sul não deve se concretizar em 2026, enquanto negociações com a Turquia estão atrasadas por divergências sobre protocolos de testagem sanitária. Por que importa: o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo e a China é, de longe, seu principal comprador. A cota tarifária chinesa força o setor a absorver no mercado interno um volume que não tem para onde ir no curto prazo. Se novos destinos como Japão e Coreia do Sul não se abrirem rapidamente, frigoríficos podem enfrentar pressão sobre margens e preços ao produtor, num momento em que o rebanho brasileiro está em fase de expansão. para ir a fundo O CEBC realiza na próxima quinta (7) a pesquisa anual que rastreia investimentos chineses no Brasil. O evento será online e os interessados podem se inscrever aqui. Organizado pela Universidade Estadual Paulista, o Fórum Unesp receberá na semana que vem os famosos escritores chineses Mo Yan e Suonan Kairang para debater a literatura do país asiático. Interessados podem fazer a pré-inscrição para os painéis neste link.