Sindicatos tentam frear impacto da IA no jornalismo
10 May, 2026
Por Gretel Kahn* A IA vai tomar meu emprego? Essa é a pergunta no centro das ansiedades sobre inteligência artificial em muitos setores neste momento. Para os jornalistas, essa pergunta vem sendo constantemente retomada e reavaliada à medida que mais empresas incorporam IA aos seus fluxos de trabalho. A IA ajuda em pesquisas e contextualização. Faz transcrições e traduções, cria ilustrações e produz podcasts com apresentadores não humanos. Agora, também escreve e edita textos sozinha. [shortcode-newsletter] Mesmo assim, os cortes de vagas ligados à IA no jornalismo ainda parecem limitados. Cerca de 2/3 dos gestores de mídia ouvidos pelo Reuters Institute for the Study of Journalism para o relatório “Trends and Predictions” disseram que não demitiram funcionários por causa da IA. Mas esse cenário começa a mudar. No início deste mês, o sindicato que representa jornalistas da Associated Press declarou que mais de 120 funcionários receberam ofertas de desligamento voluntário, ao mesmo tempo em que a empresa manifestou intenção de direcionar suas operações para IA e vídeo. As mudanças, porém, vão além de possíveis demissões. A adoção da IA está disseminada e jornalistas tentam evitar virar dano colateral nesta nova fase de transformação. Como costuma acontecer, as mudanças avançam mais rapidamente nos Estados Unidos, onde trabalhadores sindicalizados reagem contra tentativas das empresas de inserir IA nos fluxos de trabalho. Sindicatos de 3 jornais —Miami Herald, Sacramento Bee e Kansas City Star— apresentaram reclamações formais contra a controladora McClatchy pela implementação de uma nova ferramenta de IA. A ferramenta é um sistema de ampliação de conteúdo criado para produzir resumos curtos e longos das reportagens dos repórteres, elaborar versões voltadas a públicos específicos e criar roteiros que permitam transformar reportagens em vídeos curtos. Para a direção da empresa, trata-se de um “parceiro de escrita”. Para os jornalistas, porém, a ferramenta está sendo usada para produzir textos assinados por eles sem aviso e sem consentimento. “Não queremos que o público pense que temos qualquer relação com isso”, disse Ariane Lange, repórter investigativa do Sacramento Bee, ao jornalista Corbin Bolies, do The Wrap. “Achamos que isso trai a confiança do público e prejudica nossa credibilidade [...] Nossos chefes descreveram isso como um experimento e respondemos: ‘Sim, é um experimento, e a cobaia em risco é a nossa credibilidade’”. Jornalistas da ProPublica cruzaram os braços por 24 horas depois de mais de 2 anos de negociações que não resultaram em um acordo sindical que incluísse regras sobre IA e proibisse demissões relacionadas à tecnologia. Enquanto isso, na Itália, o principal sindicato de jornalistas do país convocou 2 dias de greve porque editoras se recusaram a aceitar regras básicas sobre o uso de inteligência artificial. Já no The New York Times, segundo o Axios, líderes sindicais da redação disseram à direção do jornal que os padrões internos para IA são vagos e insuficientes, criando problemas editoriais e questões de confiança. Com a IA se tornando um tema central para sindicatos trabalhistas, conversei com 4 representantes sindicais do jornalismo nos Estados Unidos, nas Filipinas e na Grécia para entender como essas organizações tentam proteger seus integrantes de possíveis mudanças provocadas pela tecnologia. OS SINDICATOS CONTRA A IA Nenhum dos sindicatos ouvidos relatou casos de integrantes substituídos por IA. Mas uma das principais preocupações sempre foi garantir proteção aos funcionários humanos à medida que essas tecnologias se espalham. Acordos coletivos ajudam a criar essas salvaguardas. Alguns estabelecem implicitamente que a IA não pode ser usada para substituir funcionários, como ocorre no News Media Guild. Outros determinam indenizações maiores em casos de demissões relacionadas à IA, como no PEN Guild. O uso de IA no trabalho, porém, levanta muitos problemas complexos além das demissões, disse Tony Winton, diretor administrativo do News Media Guild, que representa redações como Associated Press e The Guardian nos Estados Unidos. Os sindicatos têm o direito de negociar não só sobre a manutenção dos empregos, mas também sobre as condições de trabalho e a forma como a IA altera a rotina profissional. “A questão mais difícil é quais usos serão permitidos, sem chegar ao ponto de alterar o tamanho da força de trabalho, e há muitos temas delicados nisso”, disse. “Temos um grupo ativo de integrantes que quer ampliar essa conversa com a AP. A linguagem contratual que temos é boa. Mas, à medida que surgem mais usos para a tecnologia, precisamos continuar debatendo”. Os usos específicos da IA nas redações e os impactos sobre o trabalho jornalístico além das demissões foram citados por todos os representantes sindicais ouvidos como motivo de reclamação às empresas. Embora temas centrais como empregos, salários e condições de trabalho sigam prioritários, Winton afirmou que a IA também levanta preocupações sérias sobre precisão jornalística. “A IA enfrenta muitos problemas de fabricação de informações”, disse. “Para alguém que assina reportagens e tem identidade pública, a IA é uma preocupação real. Ninguém quer incorporar conteúdo incorreto às próprias reportagens, afetando não só a qualidade do jornalismo, mas também a reputação da pessoa cujo nome aparece na reportagem”. Ariel Wittenberg é repórter de saúde pública e presidente do PEN Guild, sindicato que representa funcionários do Politico e do E&E News. Assim como no caso de Winton, o sindicato dela ainda não viu demissões relacionadas à IA, mas as preocupações incluem a forma como a tecnologia é usada e os impactos sobre o trabalho jornalístico e a ética profissional. Ela descreveu 2 episódios recentes no Politico em que, segundo o contrato, os gestores deveriam avisar previamente o sindicato e negociar antes de usar IA de maneira que alterasse significativamente as funções dos funcionários. O Politico ignorou essa cláusula e implantou 2 iniciativas sem informar os trabalhadores: uma usou IA para criar cobertura escrita da Convenção Nacional Democrata e outra envolveu um acordo com a Capital AI para produzir relatórios automaticamente. “Achamos que eles violaram o contrato, que determina que qualquer uso de IA deve seguir os padrões éticos de jornalismo do Politico e ter supervisão humana”, disse Wittenberg. “Se algo volta com erros, se não segue nosso manual de estilo e não existe política de correção aplicada, isso não atende aos nossos padrões éticos”. “UMA AMEAÇA EXISTENCIAL” Criar proteções relacionadas à IA não tem sido simples para jornalistas em outras regiões. Um gestor de redação que também é diretor do NUJP (National Union of Journalists of the Philippines) falou comigo sob condição de anonimato sobre as dificuldades de estabelecer garantias para trabalhadores nesses temas. Segundo ele, a maioria das redações tem apenas diretrizes genéricas sobre uso responsável e ético de IA. Mas em nenhum lugar está determinado que a tecnologia não será usada para substituir jornalistas. “Isso é uma ameaça existencial”, afirmou. “Minha esperança é que, em algum momento, os gestores percebam isso e então precisaremos adaptar nossas políticas”. O sindicato nacional das Filipinas atua mais na defesa pública da categoria, enquanto sindicatos específicos de empresas são os que têm poder de negociação. Embora não exista contagem oficial, esses sindicatos são poucos, distribuídos de forma desigual e muito menos institucionalizados do que em países europeus. A redação do gestor entrevistado, por exemplo, não tem sindicato. “O máximo que o NUJP consegue fazer é divulgar notas, criar barulho, tentar ampliar o debate e chamar atenção para certos temas”, disse. “O máximo que conseguimos fazer é recomendar. Precisamos transformar essas políticas em algo permanente e incentivar donos de veículos a criar regras que protejam trabalhadores da ameaça da IA”. Jornalistas de outros países enfrentam desafio parecido. O jornalista grego Sotiris Triantafyllou, presidente da Federação Pan-Helênica dos Sindicatos de Jornalistas, descreve a adoção de IA na Grécia como menos ampla do que no norte da Europa. Isso permitiu ao sindicato agir antes da expansão da tecnologia no país. Em 2025, por exemplo, a federação lançou um código de ética adotado pelos 5 sindicatos integrantes. “Agora estamos em negociações com gestores e donos de veículos. Não sei o que acontecerá no futuro. Mas, por enquanto, eles concordam conosco e acho que estão dispostos a proteger jornalistas”, afirmou Triantafyllou. “COMO PREGAR GELATINA NA PAREDE” O que todos os representantes sindicais ouvidos buscam é um compromisso básico com um jornalismo conduzido por humanos e sem substituição de mão de obra especializada pela IA. Existe amplo apoio ao uso da tecnologia em tarefas operacionais, como transcrição, tradução e resumo de grandes bases de dados. Mas surgem reações quando gestores implementam ferramentas que automatizam trabalho criativo e jornalístico. “Tentamos proteger o papel central dos jornalistas porque acreditamos que a IA não consegue substituí-los”, afirmou Triantafyllou. Os sindicatos muitas vezes precisam lidar com uma sucessão interminável de novos problemas relacionados à IA. A pergunta inicial talvez fosse “A IA vai tomar meu emprego?”. Agora surgem várias outras: se uma empresa vender conteúdo jornalístico para treinar modelos, os funcionários responsáveis por esse material devem ser remunerados? O uso de IA será opcional ou trabalhadores serão substituídos se não aderirem? Haverá treinamento universal para o uso dessas ferramentas? “É um alvo móvel. É como tentar pregar gelatina na parede, porque você acha que resolveu algo e então a tecnologia muda novamente”, disse Winton. “Quando alguém é contratado para um trabalho, é para escrever uma reportagem para uma publicação, não para virar parte dessa massa infinita de IA. Há muitas discussões interessantes acontecendo”. Algumas organizações de notícias tentam aumentar produção com ajuda de IA e repórteres assistidos por IA, como a editora britânica de jornais locais Mediahuis. Recentemente, o editor da Fortune Nick Lichtenberg virou alvo de críticas depois de um perfil detalhar como ele usou IA para publicar mais de 600 textos. Nos casos desse tipo, os jornalistas ouvidos defendem participação nas decisões: se a escrita assistida por IA se tornou realidade inevitável no jornalismo, profissionais da área deveriam opinar sobre como a tecnologia será usada nas redações, e não deixar essas escolhas apenas nas mãos de executivos interessados em adotar a ferramenta. O gestor de redação e dirigente sindical das Filipinas acredita que a escrita por IA no jornalismo é vista como algo profundamente perturbador porque ameaça criatividade humana, autenticidade e elaboração editorial. Ainda assim, ele considera a expansão inevitável, já que a pressão econômica levará redações a adotarem a tecnologia. “É triste e trágico em muitos aspectos, e muitos de nós estamos lamentando o tipo de jornalismo ao qual estamos acostumados, mas a realidade é que ChatGPT, Gemini e outros já conseguem reproduzir a forma como humanos falam e escrevem há bastante tempo”, afirmou. Apesar dos desafios, os sindicatos parecem mais importantes do que nunca. Os representantes ouvidos citaram diversas vitórias, desde negociações preventivas com empresas na Grécia até mecanismos obrigatórios de arbitragem nos Estados Unidos. “A IA já está impactando nossa indústria, e contratos sindicais são uma das formas de jornalistas terem voz sobre como ela será implementada, em vez de deixar essas decisões nas mãos de executivos ou corporações”, disse Wittenberg. UM EQUILÍBRIO DIFÍCIL Poucos setores mostram dificuldades financeiras de forma tão evidente quanto o jornalismo: ondas sucessivas de demissões, queda de audiência e modelos de negócios frágeis. Diante desses desafios existenciais, a IA passou a ser apresentada ao mesmo tempo como problema e oportunidade de crescimento. Nenhuma redação quer ficar para trás e algumas passaram a adotar linguagem semelhante à do Vale do Silício, defendendo experimentação acelerada, “escala de conteúdo” e conteúdo líquido. Wittenberg afirmou que considera a IA útil para lidar com grandes bases de dados ou executar tarefas repetitivas, como transcrições. Mas acredita que algumas redações perderam de vista o motivo pelo qual o público procura veículos jornalísticos: notícias precisas e factuais. “Na corrida por inovação, organizações jornalísticas acham que competem com empresas de tecnologia”, disse. “A realidade é que continuamos sendo organizações jornalísticas e isso significa que temos obrigação ética de entregar notícias precisas e factuais aos leitores e responder por erros quando eles acontecem”. Minha fonte nas Filipinas admitiu que proteger trabalhadores da mídia dos possíveis impactos negativos da IA será difícil porque o setor jornalístico, em grande parte, se regula sozinho e donos de veículos não têm incentivo natural para criar proteções rígidas. “Eles analisam como tornar a produção de notícias mais eficiente, como economizar mais dinheiro, quantos funcionários conseguem dispensar porque a IA consegue fazer o trabalho”, afirmou. Na avaliação dele, apesar do poder limitado, jornalistas e sindicatos ainda precisam pressionar pela defesa dos próprios direitos e do setor como um todo, já que muitas concessões surgirão por pressão pública e opinião popular. “Sempre existiu essa divisão entre os donos dos veículos e aqueles que fazem o jornalismo”, afirmou. “Como jornalistas, precisamos estar preparados porque essa será uma batalha difícil”. Gretel Kahn é jornalista do Reuters Institute for the Study of Journalism Texto traduzido por Thiago Correia. Leia o original em inglês. O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.