Sebrae e governo usam ciência para fortalecer pequenos negócios
12 May, 2026
247 - O Sebrae e a Unidade de Ciências Comportamentais do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (CINCO) concluíram um projeto-piloto que aplicou conceitos das ciências comportamentais para aumentar a eficácia de políticas públicas voltadas às micro e pequenas empresas. A iniciativa demonstrou que mudanças simples na forma de comunicação e na estrutura de programas públicos podem ampliar a adesão dos empreendedores sem gerar novos custos para o governo. Segundo informações divulgadas pelas instituições responsáveis pelo projeto, os experimentos foram realizados entre o fim de 2025 e abril deste ano, envolvendo centenas de pequenos negócios em diferentes testes práticos. A proposta foi compreender por que muitos empreendedores deixam de adotar medidas importantes para seus próprios negócios, mesmo sabendo o que deveria ser feito. As ciências comportamentais reúnem conhecimentos da psicologia, da economia e de outras áreas para estudar como as pessoas tomam decisões em situações reais do cotidiano. Diferentemente de modelos teóricos ideais, a abordagem considera fatores como procrastinação, excesso de tarefas, medo de processos complexos e influência da linguagem utilizada nas comunicações oficiais. Obstáculos além da falta de informação Os resultados do projeto apontaram que a principal barreira para o acesso de empreendedores a programas públicos não está na falta de interesse ou de informação. O problema central seria a dificuldade de transformar intenção em ação diante de rotinas intensas, falta de tempo, escassez de recursos e excesso de burocracia. A conclusão dos pesquisadores é que soluções simples, desenvolvidas com linguagem acessível, acionadas no momento adequado e oferecidas pelos canais corretos, conseguem reduzir significativamente essa distância entre conhecimento e execução. Como parte da parceria, gestores públicos, pesquisadores, empreendedores, especialistas em comportamento e lideranças comunitárias participaram de uma maratona online de quatro dias. Antes da etapa prática, foi realizado um mapeamento dos principais problemas enfrentados pelos pequenos negócios, transformando desafios amplos em questões comportamentais específicas. Mulheres empreendedoras e organização financeira Um dos focos do projeto foi apoiar mulheres empreendedoras das periferias na organização financeira de seus negócios. O diagnóstico identificou que muitas enfrentam renda instável, dificuldade para separar despesas pessoais e empresariais, pouco tempo disponível e forte pressão financeira. De acordo com os responsáveis pelo estudo, o desafio não estava no aprendizado sobre finanças, mas na capacidade de criar uma rotina de organização compatível com a realidade dessas empreendedoras. Para enfrentar esse problema, foi desenvolvido um assistente digital via WhatsApp com inteligência artificial. A ferramenta ajudava no registro de entradas e saídas financeiras, enviava lembretes, sugeria metas semanais e compartilhava orientações práticas para a gestão do negócio. Resultados positivos com linguagem acolhedora Os testes mostraram que, entre as mulheres que receberam lembretes e metas pelo assistente virtual, a frequência de registros financeiros mais que dobrou. O aumento ocorreu independentemente do estilo das mensagens enviadas. Entretanto, o estudo identificou que as participantes expostas a uma comunicação mais acolhedora passaram a consultar com maior frequência os próprios resultados e acompanhar melhor o progresso financeiro. A avaliação é que o tom da mensagem pode influenciar diretamente empreendedoras que enfrentam insegurança diante de situações financeiras delicadas. Outro eixo do projeto buscou aproximar microempreendedores individuais (MEIs) das compras públicas. Apesar de o governo brasileiro ter movimentado mais de R$ 1 trilhão em compras públicas em 2025, a maior parte dos MEIs ainda não participa desse mercado devido à percepção de excesso de burocracia e dificuldade operacional. WhatsApp teve desempenho superior ao Gov.br Para testar formas mais eficientes de engajamento, foram enviados convites para MEIs elegíveis ingressarem na plataforma Contrata+Brasil. A comunicação ocorreu em dois canais: WhatsApp e notificações pelo aplicativo Gov.br. No WhatsApp, as mensagens alcançaram 4.281 pessoas, gerando 3.190 leituras e nove cadastros efetivados. Já no Gov.br, 8.618 usuários receberam notificações, mas apenas 375 abriram as mensagens, resultando em seis cadastros. Os pesquisadores concluíram que a facilidade do percurso até a ação foi determinante para os resultados. No WhatsApp, o empreendedor recebia um link direto para o cadastro. Já no Gov.br, era necessário abrir o aplicativo, acessar a área de notificações e percorrer várias etapas adicionais até concluir o processo. O levantamento mostrou ainda que praticamente todos os cadastros ocorreram no mesmo dia em que as mensagens foram recebidas, reforçando a importância do momento da comunicação e da redução de obstáculos para estimular a participação dos empreendedores em políticas públicas.