O que dizem os especialistas sobre fim da circulação de dinheiro nos ônibus no Rio
14 May, 2026
Rio - A decisão da Prefeitura do Rio de extinguir o pagamento em dinheiro nos ônibus municipais a partir do próximo dia 30 de maio tem gerado debates sobre os impactos para milhões de passageiros que utilizam diariamente o transporte público. A mudança, segundo a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), faz parte do processo de modernização do sistema de transporte público municipal.Em entrevista ao DIA, o professor Victor Hugo Abreu, especialista em planejamento de transporte urbano e docente da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta que a medida pode trazer desafios, sobretudo para pessoas em situação de vulnerabilidade social, idosos, turistas e passageiros com pouco acesso a meios digitais ou a cartões eletrônicos. Para ele, embora a modernização do sistema de bilhetagem represente um avanço operacional, é fundamental garantir alternativas acessíveis para que nenhum usuário seja impedido de utilizar o transporte público."Parte da população ainda utiliza o dinheiro físico como principal meio de pagamento no cotidiano, especialmente trabalhadores informais, desempregados e pessoas que não possuem conta bancária ou smartphone", observa o especialista. O professor da UFRJ analisa que há risco de dificultar o acesso ao transporte para esse público, especialmente durante o período de transição. "Idosos podem enfrentar dificuldades de adaptação tecnológica, turistas podem não conhecer previamente o funcionamento do sistema Jaé, e usuários de baixa renda podem encontrar obstáculos relacionados à aquisição e recarga dos cartões. Em cidades com elevado fluxo turístico, como o Rio de Janeiro, a eliminação completa do pagamento em espécie exige uma rede ampla e eficiente de pontos de atendimento e recarga para evitar exclusão temporária de passageiros", explica.Segundo o professor Victor Hugo, a digitalização também pode trazer ganhos operacionais importantes, como a redução do tempo de parada nos pontos e maior controle da bilhetagem. O especialista lembra ainda que outras cidades brasileiras já adotaram medidas semelhantes nos últimos anos, assim como o próprio Rio de Janeiro, nos sistemas do BRT e do VLT, que funcionam predominantemente com pagamento eletrônico."Em alguns sistemas de transporte público, o pagamento em dinheiro já foi restringido, como em Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre, enquanto em Florianópolis houve a eliminação gradual dessa modalidade em determinadas operações. Essa tendência acompanha um movimento nacional e internacional de modernização da mobilidade urbana, com o objetivo de aumentar a rastreabilidade financeira, reduzir fraudes, elevar a segurança operacional e diminuir o tempo de embarque dos passageiros", avalia. Para que a medida seja compatível com o direito à mobilidade urbana, o professor da Escola Politécnica da UFRJ avalia que é necessário implementar mecanismos efetivos de inclusão e acessibilidade. "O transporte público é um serviço essencial e não pode criar barreiras desproporcionais de acesso. Portanto, a substituição do dinheiro físico precisa ser acompanhada por políticas públicas que garantam ampla distribuição de cartões, facilidade de recarga, atendimento presencial, canais acessíveis de suporte e alternativas para usuários sem acesso digital. Caso contrário, existe o risco de ampliar desigualdades no acesso ao transporte coletivo", alerta. O engenheiro civil do setor de Transporte da Universidade Federal Fluminense (UFF), Levi Salvi, também aponta que alguns idosos ainda têm dificuldades em lidar com tecnologia e pessoas de baixa renda não têm acesso a rede bancária de cartões eletrônicos de pagamento. "Se o pagamento eletrônico incluir cartões de débito, crédito e carteiras digitais por aproximação no celular, turistas dificilmente terão dificuldades", avalia.Salvi entende que a medida pode ser polêmica em alguns aspectos, pois o acesso ao transporte público é um direito de todos, e o pagamento com dinheiro em espécie no Brasil é garantido por lei. Por outro lado, ele esclarece que existe a possiblidade de uso do dinheiro em espécie para recarga do bilhete eletrônico, que seria um argumento para cumprir este direito. "A medida muito utilizada em outros países, e é uma tendência no Brasil, porque busca diminuir o tempo do veículo parado no embarque e aumenta a segurança tanto no trânsito, quanto para evitar assaltos, uma vez que o motorista estará focado somente na condução do veículo e não haverá dinheiro sendo manipulado a bordo", explica o engenheiro. Ainda segundo ele, trata-se de uma medida que veio para ficar e provavelmente será adotada por muitas cidades. "Claro que o ideal seria adotar o sistema de tarifa zero, onde nenhum tipo de pagamento é necessário, mas por enquanto será difícil de implementar em grandes centros urbanos. Muitas cidades já adotaram, como Maricá/RJ, São Caetano do Sul/SP, Caucaia, Duque de Caxias/RJ", lista o especialista.Valor alto da tarifa gera mais impacto do que a modernização no pagamento, diz especialistaSegundo o professor da UFRJ e pesquisador do Observatório das Metrópoles, Juciano Rodrigues, o pagamento em dinheiro corresponde a um percentual irrisório dos mais de 3 milhões de passageiros transportados diariamente pelo sistema de ônibus da cidade do Rio. Para ele, há fatores muito mais relevantes na exclusão de pessoas do sistema de mobilidade, sendo o principal deles o alto valor da tarifa."As tarifas praticadas em todos os modos é que são incompatíveis com o direito à mobilidade urbana. Na verdade, para o conjunto da população de baixa renda, o valor reservado para viagens diárias para o trabalho está no limite do que o orçamento familiar pode suportar. Nesse sentido, a impossibilidade de gastos com viagens por outros motivos é que constitui uma barreira real para acessar oportunidades, sendo incompatível com o acesso a direitos consagrados na sociedade brasileira, como educação, saúde, lazer, cultura, etc", diz.Juciano Rodrigues também avalia que a modernização do pagamento nos coletivos não representa um risco significativo para idosos, turistas e a população de baixa renda. "Os idosos não pagam em dinheiro porque já precisam do Jaé Gratuidade para embarcar nos ônibus. E as gratuidades já correspondem, em média, a 30% do embarque. Neste percentual estão incluídos idosos, estudantes e outras gratuidades por lei. No caso dos turistas, estes já estão acostumados a usar outros meios de pagamento em suas cidades de origem, sem falar que a tendência é que utilizem cada vez mais táxis e carros de aplicativo", diz.O especialista lembra que o metrô e o VLT não aceitam dinheiro e são amplamente utilizados por esse público, já que atendem as principais áreas turísticas da cidade. "O que exclui a população mais pobre não é o meio de pagamento, é a insuficiência de renda. Na cidade do Rio, a renda per capita média dos 40% mais pobres é de R$ 481,33, e o gasto com 44 passagens de ônibus (ida e volta apenas em dias úteis) é de R$ 220. Ou seja, essa população, para se deslocar, poderia comprometer quase 50% da sua renda. O que sobraria para alimentação, moradia, lazer, etc? Isso significa, definitivamente, que esse já é um meio de transporte inacessível para um grupo populacional relevante, independentemente do meio de pagamento utilizado para embarcar", explica.O pesquisador do Observatório das Metrópoles acrescenta ainda que o pagamento em dinheiro também é incompatível com a segurança dos passageiros, na medida em que a dupla função dos motoristas de ônibus, ao exigir atenção simultânea à cobrança da tarifa e à condução do veículo, gera riscos evidentes durante as viagens. Mudanças a partir do dia 30 de maio A partir do dia 30 de maio, os ônibus municipais do Rio de Janeiro não vão aceitar mais pagamento em dinheiro. Com a mudança, o acesso aos modais será feito exclusivamente pelo Jaé ou pelo Riocard, neste último caso apenas para usuários do Bilhete Único Intermunicipal (BUI). Também nesta data, a integração do Bilhete Único Carioca será feita exclusivamente pelo cartão Jaé preto. O cartão avulso do Jaé (verde) deixará de ser aceito nas integrações tarifárias do Bilhete Único Carioca (BUC) e do Bilhete Único Margaridas (BUM). Os benefícios do Bilhete Único Carioca (BUC) e do Bilhete Único Margaridas (BUM) continuam disponíveis exclusivamente no sistema Jaé.Passageiros que utilizam o cartão verde para integração devem criar uma conta digital Jaé no aplicativo e solicitar o cartão preto ou utilizar o QR Code. Caso tenha dificuldades em criar a conta digital no aplicativo, deve dirigir-se a um dos pontos de atendimento.