Descoberta amorosa entre mulheres dita os primeiros longas do Festival de Cannes

admin
14 May, 2026
Por coincidência, os primeiros dois filmes que concorrem à Palma de Ouro, exibidos nesta quarta-feira no Festival de Cannes, seguem a mesma toada. São jornadas de mulheres na casa dos 40 anos que se descobrem no amor por outra mulher. Em "Nagi Notes", do japonês Koji Fukada, tudo começa quando Yuri vai à pacata cidade de Nagi, no interior do Japão, para visitar a irmã do ex-marido, Yokio, que leva a vida entre ordenhar vacas e esculpir bustos de madeira. Yuri começa, então, a posar para Yokio e acaba estendendo sua estada em Nagi. Em tom de confidência, Yuri diz que invejava o ex-marido pela confiança profissional e pela assertividade, características que ela aponta como naturais para os homens. Yokio, por outro lado, é segura de si mesma —descobriu ser lésbica ainda adolescente e foi para Tóquio em busca de liberdade e aceitação. Depois de ser rejeitada pela mulher que amava platonicamente, porém, decidiu se recolher nesta que é sua cidade natal. De certa forma, as duas se complementam. Enquanto Yuri passou a vida tentando agradar aos outros, Yokio se isolou para não precisar enfrentar a desaprovação alheia. Mais do que o romance implícito que quase não se desenvolve, a convivência das duas e a admiração mútua faz com que a personalidade de Yuri, aos poucos, vá se desabrochando. Para complementar, segredos que envolvem outros personagens vêm à tona e complementam o retrato sobre o conservadorismo japonês e a solidão de pessoas homossexuais no país. Já "A Woman’s Life", da francesa Charline Bourgeois-Tacquet, traz de volta à competição principal o rosto da atriz Léa Drucker, que no ano passado estrelou no festival o drama policial "Caso 137". Agora, ela vive Gabrielle, uma cirurgiã determinada e completamente dedicada ao trabalho. Logo no começo do filme, ela discute com o seu namorado, com quem está há 15 anos, sobre o porquê de ela não querer mais morar com ele e os seus enteados. Gabrielle é questionada constantemente sobre sua decisão de não ter filhos. No começo, pode parecer uma escolha por autonomia, mas, aos poucos, revela ser uma escolha pela sobrevivência. Obrigada a cuidar da mãe, da irmã, do sobrinho e de pacientes, ela precisa desesperadamente de liberdade —que consegue experimentar, enfim, ao conhecer uma escritora mais nova do que ela. Em comum com Yuri, Gabrielle descobre seu interesse por mulheres relativamente tarde e, com ele, partes soterradas de sua própria personalidade vêm à tona. E, numa edição sem grandes estrelas de Hollywood, Hannah Einbinder foi uma das representantes dos gigantes americanos num filme na competição paralela. Ironicamente, a vencedora do Emmy por "Hacks" estrela um "slasher" que tanto celebra o cinema como ri da sua a crise. "Teenage Sex and Death at Camp Miasma" é a nova produção de Jane Schoenbrun, nome promissor depois do elogiado terror "Eu Vi o Brilho da TV", uma metáfora sobre disforia de gênero e opressão de pessoas trans. O trabalho foi escolhido para abrir a mostra paralela Um Certo Olhar. Há um romance lésbico no centro da trama, que caçoa do olhar masculino que por décadas dominou o audiovisual. Mas a diretora não se leva a sério, o que torna a produção ainda mais interessante, com disparos até contra os excessos da cultura "woke" que limitam a liberdade artística. Na trama, Hannah Einbinder vive uma cineasta indie cooptada por um grande estúdio para gravar mais uma sequência de dezenas —o exagero é proposital— de uma franquia de terror, "Camp Miasma". Ela, então, vai ao encontro da atriz que interpretou a mocinha no primeiro filme, Billie, encarnada pela magnética Gillian Anderson, para convencê-la a fazer o novo filme. Billie é excêntrica, reclusa e sensual. Ela vive numa casa de montanha no mesmo campo onde foi gravado o terror inaugural da franquia que a alçou a um sucesso efêmero na década de 1990. As duas se envolvem conforme compartilham a mesma obsessão pelo assassino de "Camp Miasma". Realidade e ficção se misturam num romance com requintes de thriller e reflexões afiadas, mas nada presunçosas, sobre os papéis relegados, historicamente, a pessoas queer nas telonas. Além do arco emocional e sexual dessas personagens, são muitas as referências à própria indústria do cinema, como o excesso de franquias, o controle dos engravatados dos estúdios sobre a criação das narrativas, a marginalização de atrizes com mais de 40 anos e o conflito geracional entre as audiências. A mensagem que fica é que a criação sem medo, de acordo com Jane Schoenbrun, é a resposta para tudo isso.