Morre ator que interpretou Papai Noel do Natal Luz de Gramado por duas décadas
23 May, 2026
Intérprete do Papai Noel no Natal Luz de Gramado por duas décadas, o ator Júlio Rodrigues morreu na última segunda-feira (18), aos 71 anos. Ele estava internado na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde fazia tratamento contra um câncer. Júlio integrava o elenco fixo do maior evento natalino do Brasil desde 2005. Foram 20 edições consecutivas no papel do Bom Velhinho, a última delas na 40a edição, encerrada em 18 de janeiro deste ano. Júlio Cezar da Silva Rodrigues nasceu no dia 17 de dezembro de 1954, uma semana antes do Natal, na cidade de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai. Mudou-se para Porto Alegre ainda jovem, onde casou, teve dois filhos e viveu a maior parte da vida. A partir de 2005, passou a dividir a vida entre a capital e Gramado, para onde partia em outubro para trabalhar e só voltava em janeiro. Três meses por ano, a cadeira de escritório de Júlio era uma poltrona vermelha ao lado de um pinheiro e de uma pilha de brinquedos. A rotina de trabalho incluía uma agenda extensa de reuniões —e selfies— com milhares de turistas que passavam todo mês pela Casa do Papai Noel, um sobrado de madeira na Vila do Natal, no centro da cidade. Júlio também participava do tradicional desfile de rua do Natal Luz, aparecendo no último ato do espetáculo em um trenó, de onde acenava para o público sob queda de neve artificial e música. Os cuidados estéticos para deixar a barba fiel à caracterização começavam meses antes de se mudar para Gramado, aparando pontas e cuidando do volume. "A dedicação realmente era incrível. Ele, com a barba cinza, era o senhor Júlio Rodrigues. Agora, quando chegava perto do Natal e ele começava a tratar da barba, ah, meu amigo... Ele realmente se tornava o Papai Noel", diz Lauro Neto, que trabalhava na montagem dos cenários. Ele diz que Júlio era generoso como seu personagem, presenteava com comida os funcionários da manutenção da Vila do Natal e levava a sério o papel de Papai Noel. "Uma vez, em uma conversa de churrasco, ele disse que, quando a gente se propõe a fazer um personagem ou um trabalho, você tem que ser o trabalho, ou o personagem tem que transformar a ilusão em algo realmente real", conta. O assessor de eventos da Gramadotur, Thiago Schmitt, diz que Júlio falava sobre a importância do Papai Noel na vida das crianças. "Mesmo durante os ensaios, sem a roupa, se portava com a educação do Noel." Os dois se conheceram quando Thiago fazia parte da escala de motoristas que acompanhava o trenó e levava o ator de volta à praça central ao fim do desfile. No trajeto curto, via o Papai Noel receber do público o mesmo tratamento dado às principais estrelas que cruzavam o tapete vermelho do Festival de Cinema de Gramado. "Era sempre uma multidão. Os seguranças iam abrindo caminho para o carro poder voltar com o Papai Noel, e ele fazia questão de abrir os vidros do carro onde estava de carona para irmos bem devagar, pois queria dar atenção a todos. Era fantástico ver toda aquela energia", conta Thiago. A ideia de investir em uma carreira como Papai Noel surgiu de uma brincadeira entre amigos e evoluiu para um hobby semiprofissional, que Júlio conciliava com a rotina como motorista de ônibus intermunicipal. Com o tempo, passou a receber convites para participar de eventos de fim do ano e comerciais de televisão, até ser "descoberto" em 2004 em uma viagem a Gramado para participar de uma convenção de Papais Noéis. Sua caracterização impressionou o empresário Luciano Peccin, à época secretário de Cultura de Gramado, que o convidou para um teste de trabalho. No ano seguinte, estreou em seu primeiro Natal Luz como Papai Noel efetivado. O cenotécnico Marlon Motta conheceu Júlio naquele ano nos bastidores do desfile, e o convívio restrito ao trabalho evoluiu para uma amizade e convivência como família. "Ele presenciou o nascimento da minha filha e, até agora, aos oito anos, ela o chamava de avô", conta Marlon. Júlio chegou a morar na casa de Marlon por cinco temporadas do Natal Luz enquanto ambos trabalhavam no evento. "Sempre foi uma pessoa muito brincalhona, que tornava o ambiente leve", diz. A Prefeitura de Gramado decretou três dias de luto oficial. "Mais do que vestir o personagem, ele representava o verdadeiro espírito natalino, sempre com atenção, carinho e comprometimento em cada encontro", diz o comunicado do município.