Big techs investem bilhões em cabos submarinos e dominam o tráfego oceânico de dados

admin
1 Jun, 2026
Big techs investem bilhões em cabos submarinos e dominam o tráfego oceânico de dados Grandes plataformas digitais passam a deter 70% da capacidade da rede mundial e dobram os aportes no setor para garantir velocidade e reduzir custos Durante décadas, os cabos submarinos de fibra óptica que transportam quase todo o tráfego mundial de internet foram liderados por consórcios de operadoras de telecomunicações. Mas a espinha dorsal da economia digital vem sendo rapidamente redesenhada por gigantes da tecnologia — sobretudo Google e Meta —, que conquistam protagonismo crescente. As big techs deixaram de ser apenas utilizadoras da infraestrutura de transmissão de dados e passaram a investir bilhões de dólares em cabos submarinos para controlar partes estratégicas da conectividade global. O pano de fundo desse movimento é a explosão do streaming, da computação em nuvem e, mais recentemente, da inteligência artificial (IA). As grandes plataformas digitais preferem controlar seus próprios cabos submarinos para garantir maior velocidade na transmissão, reduzir congestionamentos com rotas alternativas entre os continentes e, desta forma, assegurar a escala necessária para IA e cloud. A estratégia vai além desses fatores. Como os grandes provedores de conteúdo são os principais consumidores de capacidade da rede, a construção de sistemas de maior escala permite reduzir o custo unitário por transmissão de dados, em comparação com infraestruturas antigas de menor porte. Há ainda questões geoestratégicas, ligadas a zonas de tensões constantes no mundo. O Irã anunciou que pretende taxar os utilizadores de cabos submarinos de telecomunicações no Estreito de Ormuz. Desde o início da guerra na Ucrânia, governos europeus suspeitam que danos em cabos no Báltico tenham ocorrido por sabotagem. Outras áreas oferecem riscos diferentes, acidentais por conta do tráfego marítimo intenso, como o Estreito de Malaca, no Sudeste Asiático, um dos maiores hubs de cabos submarinos do mundo e onde interrupções nas transmissões podem afetar vários países. “Google e Meta tentam cada vez mais evitar gargalos e têm criado muitas rotas alternativas de cabos submarinos”, afirma Olivier Chatain, professor de estratégia e política empresarial da Escola de Altos Estudos Comerciais de Paris (HEC) e pesquisador do IRSEM, instituto vinculado às Forças Armadas da França. Segundo ele, esses novos percursos, que desviam de pontos geopolíticos mais quentes e também do intenso fluxo marítimo do planeta, não são rentáveis e por isso não interessam às companhias tradicionais de telecomunicações. O especialista destaca que, “de longe”, o Google e a Meta concentram a maior parte dos projetos das big techs nesse campo, bem à frente da Microsoft e da Amazon. O Google — que foi pioneiro entre as grandes plataformas e se lançou na construção de cabos submarinos há cerca de 15 anos — é um dos maiores investidores no segmento, participando (principalmente por meio de consórcios e, mais recentemente, de forma majoritária) de 15 a 20 sistemas ativos ou em construção. Entre eles está o Firmina — que conecta a costa leste dos EUA, Brasil, Uruguai e Argentina, já em operação e projetado para funcionar mesmo com falhas na fonte de energia —, o Equiano (cabo submarino entre Portugal e África do Sul, com ramificações ao longo da costa da África Ocidental) e o Nuvem, cabo transatlântico que liga os Estados Unidos, Bermuda e Portugal. Em fevereiro, o Google anunciou a criação de um novo hub global de conectividade na Índia que será integrado à sua rede global de infraestrutura de cabos submarinos, incluindo o Equiano e o Nuvem, além da construção de três novas rotas submarinas que vão ligar o país a Singapura, África do Sul e Austrália, três grandes eixos digitais internacionais. O projeto faz parte de um investimento de cerca de US$ 15 bilhões em cinco anos na Índia. No caso da Meta, controladora do WhatsApp, Instagram e Facebook, o projeto mais comentado, anunciado no ano passado, é o titânico Waterworth, com 50 mil quilômetros de extensão e que vai ligar cinco continentes. Ele sairá da costa leste dos EUA e terá o Brasil como segundo destino, passando em seguida pela África do Sul, Índia e Austrália antes de retornar aos Estados Unidos. Quando finalizado, será o mais longo cabo submarino do mundo. Especialistas estimam o investimento em US$ 10 bilhões. A estrutura usará 24 pares de fibras ópticas (contra os habituais 8 a 16) e o itinerário, segundo especialistas, vai contornar estrategicamente pontos de conflito geopolítico, como o Mar Vermelho, o Mar da China Meridional (região de Taiwan e entorno), a costa do Egito e o sul da China. “São necessários muitos investimentos para que todo mundo esteja conectado”, afirma Alexia González Fanfalone, chefe de Serviços de Conectividade e Infraestruturas do diretório de ciência, tecnologia e inovação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os investimentos gerais (que incluem também operadoras de telecomunicações e outras companhias) vão dobrar no período de 2025 a 2027, com previsão de US$ 4 bilhões por ano ante os US$ 2 bilhões estimados inicialmente, diz Fanfalone. Segundo a organização, as gigantes de tecnologia representavam menos de 10% da capacidade total utilizada dos cabos submarinos de fibra óptica em 2012. Hoje, esse número passa de 70%. Além disso, quase metade dos cabos entre a América do Norte e a Ásia/Oceania projetados entre 2023 e 2025 foi apoiada ou financiada por essas grandes empresas. Mas o avanço das empresas de tecnologia sobre a infraestrutura física da internet tem provocado preocupações sobre concentração de poder, dependência e soberania. “As rotas alternativas dos cabos submarinos estão praticamente concentradas em duas empresas”, ressalta Chatain, professor da HEC. Em seu livro Os Cabos Submarinos, publicado pela editora do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, Camille Morel ressalta que há muita concentração geográfica, industrial e de poder tecnológico, e que a ascensão das big techs nesse setor amplia o controle dessas companhias sobre toda a cadeia da internet. Em comunicados oficiais, empresas como o Google e a Meta têm declarado que os investimentos em cabos submarinos permitem melhorar a conectividade e a segurança da infraestrutura digital global. Com isso, reduzem a latência (tempo que os dados levam para atravessar o oceano) e reforçam a escala e a resiliência do sistema com rotas alternativas. Ao anunciar o projeto Waterworth, a Meta afirmou ainda que ele amplia a cooperação econômica e facilita a inclusão digital. Procurados pela reportagem, Google e Meta não responderam sobre eventuais novos projetos e sobre as críticas de concentração de poder. O Brasil ganhou relevância nessa nova dinâmica dos cabos submarinos, como ressaltam especialistas, e Fortaleza, por conta de sua localização geográfica que permite reduzir o tempo de transmissão dos dados, transformou-se em um hub atlântico estratégico também para as big techs, conectando o país a grandes rotas entre Estados Unidos, Europa e África. Conheça o Valor One Acompanhe os mercados com nossas ferramentas