Estúdios se abriram a rever uso de IA em Hollywood, diz diretor do sindicato de atores
1 Jun, 2026
Três anos após as greves que paralisaram Hollywood, os estúdios encararam uma nova negociação contratual com os atores com um tom mais construtivo, especialmente em temas como o avanço da inteligência artificial, disse o representante dos artistas. "Os estúdios e as plataformas de streaming sentaram à mesa com uma perspectiva diferente", afirmou Duncan Crabtree-Ireland, diretor executivo nacional do SAG-AFTRA, que, com mais de 160.000 membros do cinema, da TV e dos videogames, é o sindicato mais grande e influente do setor em nível mundial. Embora tenha sido "muito intensa" a discussão do acordo, que entrará em vigor em julho se for aprovado pelos membros, o tom foi "muito mais colaborativo", acrescentou o chefe negociador em entrevista à AFP. "Acredito que as greves de 2023, embora tenham sido muito difíceis para todos nós, ajudaram a recalibrar a relação entre os estúdios e os sindicatos em geral", sustentou. Segundo Crabtree-Ireland, as empresas do setor "agora compreendem melhor" por que a regulação do uso da IA "é uma grande prioridade" para os membros do sindicato, e concordam em garantir a maior carga de trabalho às pessoas sob o consenso de que "há uma qualidade única e especial na criatividade e na interpretação humanas". Sintéticos e réplicas digitais O avanço da IA é palpável em Hollywood, onde suas ferramentas ganham espaço, e onde o tema começou a ser abordado nas regras de premiações como o Oscar e o Globo de Ouro. Embora os membros do SAG-AFTRA se sintam "mais seguros" do que em 2023, quando paralisaram a indústria para garantir proteções trabalhistas, "continua havendo uma preocupação muito, muito forte com relação à IA", principalmente pelo avanço dessa tecnologia nos últimos três anos, comentou Crabtree-Ireland. O chefe negociador do sindicato mencionou Tilly Norwood, a personagem da produtora britânica Particle6 gerada por IA, que causou alvoroço entre os atores de carne e osso ao estrear em um curta-metragem nas redes sociais em 2025. O novo acordo trabalhista não fecha as portas para a IA, mas estabelece novas proteções diante do uso de personagens sintéticos e réplicas digitais. Os sintéticos, como Norwood, são os personagens criados com IA "sem base em uma pessoa real, mas nos dados com os quais esse sistema de IA foi treinado", explicou Crabtree-Ireland. Na segunda categoria, a tecnologia é utilizada "para replicar um intérprete real, vivo ou que tenha vivido no passado", acrescentou. É o caso da versão gerada por IA do ator Val Kilmer, morto em 2025, no filme "As Deep as the Grave", cujo trailer foi lançado este ano. As réplicas digitais sempre requerem "um consentimento informado e uma compensação justa", enquanto, com os sintéticos, ao não refletirem uma pessoa específica, não há a quem pedir autorização ou pagar, ressaltou Crabtree-Ireland. O acordo estabelece que os sintéticos "serão utilizados apenas em casos extremos ou circunstâncias incomuns nas quais possam agregar um valor adicional significativo à produção", esclareceu. Uma disputa teria que ser resolvida por arbitragem, um processo que "embora não chegue exatamente ao nível de uma proibição total, supõe um desincentivo muito forte para o uso de sintéticos". Outra proteção foi conquistada em matéria de dublagem, para evitar que a voz do intérprete principal de um filme seja replicada em outros idiomas sem seu consentimento, algo que os profissionais de dublagem em outros países consideram uma ameaça direta à sua fonte de trabalho.