RADAR BIG TECH

admin
1 Jun, 2026
Data centers bilionários provam: Paraguai não dá surra no Brasil em IA Resumo A corrida global da inteligência artificial leva países a se engalfinharem para atrair investimentos das grandes empresas. Nas últimas semanas, surgiu entre observadores brasileiros a impressão de que o Brasil está perdendo espaço para o Paraguai. O movimento da maior empresa de data centers na América Latina, no entanto, desmonta a tese. A Ascenty anunciou investimentos de R$ 6 bilhões (US$ 1,2 bilhão) em quatro centrais de dados em São Paulo, um deles o primeiro voltado à IA no país e na região. Caríssimas, essas instalações só são construídas se houver cliente. O equipamento pioneiro em IA, por exemplo, será ocupado por uma big tech já presente em países latinos, e outra das novas instalações será usada integralmente por uma companhia estrangeira estreante no país. E, mesmo com a obra entregue, o dinheiro continuará a fluir: a cada US$ 1 investido nas centrais, outros US$ 5 precisam ser desembolsados em equipamentos. Ou seja, as contratantes gastarão mais de US$ 5 bilhões em computadores para o interior dos data centers. É coisa de R$ 30 bilhões. Fora eessa empreitada, há uma "avalanche de investimentos" à espera do timing ideal para chegar ao Brasil, diz Chris Torto, CEO da Ascenty. E o dinheiro pode até migrar do Brasil para outros países, já que big techs avaliam oportunidades globais, mas o Paraguai não é um destino provável. Além de ter iniciado uma reforma que triplicará seu complexo de data centers em Vinhedo (SP), o maior da América Latina, a Ascenty possui por lá terrenos para construir outras quatro centrais de dados. Mas a estrela dos anúncios da semana passada é a instalação em outra cidade próxima: - Ficará em Sumaré, cidade a 120 km de São Paulo, o primeiro data center construído do zero no Brasil voltado para a inteligência artificial. Com 90 Megawatts, ocupará área de 48 metros quadrados e será entregue em novembro do ano que vem; - Servidores destinados a serviços como ChatGPT, Gemini e similares precisam de adaptações especiais, já que gastam mais energia --um rack destinado a serviços digitais consome 8 kWh (quilovatt-hora), enquanto os voltados para IA gastam de 60 kWh até 1 GWh. Para garantir que os computadores não derretam, a Ascenty vai implantar o chamado "liquid cooling" e terá arquitetura de resfriamento em circuito fechado, que reduz o consumo de água --uma vez que o líquido entra, circula internamente durante anos sem necessidade de reposição; - O equipamento será ocupado por um único cliente, que já acena para a necessidade de duplicar a capacidade em breve. Como deve ser usado para inferências (a execução de tarefas pela IA), a possibilidade de ampliação indica que a contratante, cujo nome não foi revelado, aposta na explosão do uso de suas ferramentas por aqui; - Terceiro data center da Ascenty na cidade, deve gerar 600 empregos durante as obras e 120 postos permanentes após a conclusão; - Perto dali, em Vinhedo, o plano é ampliar: primeiro, a capacidade de um dos dois data centers será elevada de 50 MW para 80 MW; - Depois, serão construídas três unidades, um de 90 MW e outros dois de 45 MW. O maior deles já possui cliente e será usado por uma empresa estreante no Brasil e ainda sem presença na América Latina. Dos 26 data centers da Ascenty na América Latina, 21 ficam no Brasil. Outros 14, incluindo os citados acima, estão em construção ou em fase de desenvolvimento. Pragmática, a firma só coloca a mão no bolso e começa a erguer paredes quando há cliente interessado em ocupar os milhares de computadores a serem instalados nos galpões. Como a competição para receber investimentos pelo boom da IA é global, cresce a impressão de que o país vizinho figura como concorrente. Durante a inauguração do Centro de Engenharia do Google, localizado dentro do campus da USP (Universidade de São Paulo), na Cidade Universitária, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), ecoou essa visão e criticou companhias de partida para o lado paraguaio da Tríplice Fronteira. "Infelizmente muitas empresas daqui estão indo para o Paraguai, uma perda terrível para nós. A Google não vai não." Nessa linha, chamou a atenção o anúncio da X8 Cloud. A norte-americana prometeu investir R$ 250 bilhões (US$ 50 bilhões) em data centers ao longo de 30 anos. A meta é atingir 5 GW de capacidade voltada a IA, em uma estratégia sustentada pela energia limpa das hidrelétricas de Itaipu e de Yacyretá. Talvez a impressão seja reforçada pela onda de brasileiro mudando para o país vizinho em busca do "sonho conservador". Mas, fora movimentos pontuais, o Paraguai pode roubar investimentos do Brasil? Eu não acho factível. Primeiro, porque o problema lá é a quantidade de energia disponível, só de 1,2 GW. Aqui há dezenas de Gigawatts. Lá não tem cabo submarino chegando, não tem mercado doméstico, vai exportar todos os dados. Não, eu não vejo o Paraguai no mesmo patamar. Pode até ter projeto anunciado, mas falta contrato Chris Torto, CEO da Ascenty Pesam a favor do Brasil não só a abundância de energia limpa, mas também o custo de geração, bem menor em comparação aos Estados Unidos. O problema é a distribuição. Tanto é que, para seu novo data center em Sumaré, a Ascenty gastou R$ 250 milhões (US$ 50 milhões) em uma linha de distribuição de 32 km para levar eletricidade da CPFL, em Santa Bárbara do Oeste ao equipamento. Sim, os EUA possuem volume de data centers imensamente maior que o Brasil, mas contratar capacidade computacional por aqui atinge em cheio a latência, algo cada vez mais fundamental para aplicações digitais e de IA. Caso os dados acessados por um brasileiro estejam em São Paulo, o tempo de resposta é de 2 milissegundos, mas, se estiverem em solo americano, chega a 150 milissegundos, diz Marcos Siqueira, diretor da Ascenty. É menos do que o piscar de olhos, mas faz uma diferença tremenda para serviços sensíveis a precisão e agilidade, como cirurgias remotas, atividades robóticas complexas e transações financeiras de alto risco. Fora isso, o Brasil possui os três maiores pontos de ancoragem de cabos submarinos da América Latina: Fortaleza (CE), Rio de Janeiro (RJ) e Santos (SP). Como 90% da internet mundial depende desses fios que cruzam os oceanos, fica difícil elaborar projetos em larga escala que fiquem distantes dessas infraestruturas. Às vezes, nem a proximidade ajuda. A Ascenty avaliou instalar data centers no Porto do Açu, em São João da Barra (RJ). Mesmo sendo um dos maiores complexos portuários da América Latina, descartou a ideia porque não havia conectividade suficiente chegando por lá. Não quer dizer que não existam concorrentes para o Brasil na região. Segundo os executivos da Ascenty, Chile e México posam como rivais próximos, enquanto Malásia e Finlândia são ameaças em outros continentes. Para Chris Torto, ainda que os investimentos estejam sendo feitos, um maior volume de aportes poderia chegar ao Brasil se o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter) caminhasse no Congresso Nacional. Proposto pelo governo Lula, mas empacado entre deputados e senadores, a iniciativa isenta de impostos federais os equipamentos importados a serem usados nas centrais de dados. Na prática, antecipa os efeitos da reforma tributária, cujos efeitos começam a valer em 2027, mas tem transição até 2032. Chris Torto, CEO da Ascenty DEU TILT Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no YouTube do UOL e nas plataformas de áudio. Assista ao episódio da semana completo. 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