Mídias sociais no banco dos réus: ciência desafia estigma de "vilão único" da saúde mental adolescente

admin
4 Jun, 2026
Mídias sociais no banco dos réus: ciência desafia estigma de "vilão único" da saúde mental adolescente Em palestra no Brain Congress, psiquiatra analisa evidências sobre impacto digital no cérebro jovem e questiona eficácia de medidas proibitivas Clique aqui e escute a matéria PORTO ALEGRE* - Desde 2010, o mundo observa um fenômeno alarmante: os índices de depressão e ansiedade entre adolescentes dispararam globalmente. No Brasil, o aumento das notificações de autolesão em grupos jovens acendeu o alerta vermelho para autoridades e famílias. A explicação mais conveniente e amplamente aceita recai sobre as mídias digitais. Mas, para o psiquiatra da infância e adolescência Guilherme Polanczyk, a ciência ainda busca respostas que sustentem essa sentença definitiva. "Existe o risco de estarmos escolhendo o vilão errado", alertou Polanczyk, nesta quarta-feira (3), durante sua conferência no Brain Congress, em Porto Alegre. Embora a onipresença digital seja inegável, com 96% dos adolescentes americanos conectados quase constantemente, a relação de causalidade entre o tempo de tela e o adoecimento psíquico é muito mais complexa do que sugerem as manchetes sensacionalistas. Cérebro sob a lupa: conectividade versus comportamento Um dos pontos altos da aula foi a análise do estudo ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development), que acompanha cerca de 12 mil jovens nos Estados Unidos. A pesquisa é conduzida por um consórcio de 21 centros de coleta de dados no país. Trata-se do maior estudo de longo prazo norte-americano sobre desenvolvimento cerebral e saúde infantil Durante a aula, Polanczyk apresentou dados que mostram que, embora existam padrões distintos de conectividade cerebral entre crianças de 9 a 12 anos que usam muito ou pouco as mídias, essas diferenças não se traduzem necessariamente em problemas. "O ponto crucial é que esses diferentes padrões de comunicação entre áreas do cérebro não se relacionaram a sintomas emocionais, comportamentais ou ao funcionamento cognitivo", explicou o psiquiatra. Além disso, o acompanhamento longitudinal não revelou que o tempo de tela cause uma organização cerebral "mal-adaptativa" ao longo do tempo. O ovo ou a galinha: a questão da causalidade A grande dificuldade científica reside em separar a causa do efeito. Ao longo da palestra, Guilherme Polanczyk destacou que muitos estudos são transversais, ou seja, mostram uma fotografia do momento, mas não explicam o que veio primeiro. "Não sabemos se o uso intenso das redes sociais levou ao desenvolvimento de sintomas (...) ou se adolescentes que já apresentavam esses sintomas passaram a utilizar mais as redes", pontuou. De fato, evidências sugerem que a vulnerabilidade mental pode ser o gatilho. "A redução da satisfação com a vida muitas vezes precede o aumento no uso dessas plataformas, independentemente da idade." Outro fator mediador importante é o sono. O uso excessivo de telas muitas vezes substitui horas de descanso, e a privação de sono possui uma relação "muito consistente" com a piora da saúde mental. A ilusão do "detox digital" Para aqueles que veem na desconexão total a cura para os males modernos, Guilherme Polanczyk trouxe dados de três meta-análises recentes sobre o chamado "detox digital". Os resultados são, no máximo, modestos: - Um estudo de 2025 mostrou um efeito positivo pequeno no bem-estar. - Outro de 2024 indicou redução na depressão, mas sem ganhos em estresse ou satisfação geral. - Uma terceira análise de 2025 não encontrou efeito nenhum na qualidade de vida. A conclusão do especialista é que o impacto real das mídias é considerado pequeno se comparado à complexidade de outros fatores, como genética, ambiente familiar e experiências precoces. Proibir ou educar? O dilema australiano O psiquiatra também comentou a recente legislação da Austrália, que proibiu redes sociais para menores de 16 anos. Embora 70% da população sejam favoráveis, Polanczyk expressou preocupação de que o banimento possa isolar grupos vulneráveis que encontram na rede espaços de apoio e pertencimento. "Proibir sem educar pode levar à repetição de erros históricos", afirmou. Ele defende que o foco deve ser o desenho das plataformas, que capturam a atenção de forma agressiva, e a educação digital. Como alternativa positiva, citou o desenvolvimento de hubs de saúde mental criados com a participação dos próprios jovens, ao transformar a rede em ferramenta de promoção de saúde. A mensagem é clara: a tecnologia já é parte intrínseca da vida adolescente. Em vez de apenas buscar um culpado, a sociedade deve se basear em evidências para mitigar riscos e potencializar as oportunidades que o universo digital oferece às novas gerações. *A colunista faz a cobertura do Brain a convite da organização do congresso