Como o boom da IA impulsiona o motor de exportação da China
11 Jun, 2026
*Por Luo Zhiheng Em meio a crescentes atritos geopolíticos e mudanças nas tendências do comércio global, o motor de exportação da China está voltando à ativa. Mas o principal combustível não são roupas baratas ou brinquedos de plástico –é o boom global da inteligência artificial. Em maio de 2026, as exportações da China aumentaram 19,4% em relação ao ano anterior. Uma análise mais aprofundada dos dados revela uma transformação drástica nos motores da economia do país. Circuitos integrados e equipamentos de processamento automático de dados contribuíram com quase metade de todo o crescimento das exportações. Simultaneamente, as exportações tradicionais de mão de obra intensiva, incluindo roupas e brinquedos, registraram quedas acentuadas. [shortcode-newsletter] O contexto global é igualmente revelador. As exportações para os EUA recuperaram acentuadamente, com um aumento de 35,4% em maio –um crescimento impulsionado em parte pelo efeito de base baixa resultante do aumento das tarifas no ano anterior, mas também sinalizando uma estabilização depois dos recentes diálogos bilaterais. Os mercados asiáticos e emergentes também estão em expansão, impulsionados pela sua própria industrialização e necessidades de infraestrutura. Por outro lado, as exportações para a Europa e a América Latina ficaram para trás, afetadas pelo crescimento lento da União Europeia e pelas novas e agressivas medidas de proteção comercial no México. No lado das importações, a China registrou uma expansão de 27,4% em maio. Contudo, esse número é, em grande parte, uma ilusão da inflação. O aumento foi impulsionado principalmente pela alta dos preços das commodities e dos componentes relacionados à IA, e não pelo aumento da demanda interna. Por exemplo, embora os valores das importações de minério de cobre e circuitos integrados tenham aumentado 34% e 68%, respectivamente, os volumes reais comprados diminuíram. Esses dados ressaltam uma profunda mudança estrutural: a IA evoluiu de uma variável de nicho do setor tecnológico para uma força dominante que dita os fluxos do comércio global. Para a China, o impacto da cadeia de suprimentos de IA pode ser resumido em 3 realidades: contribuição desproporcional das exportações, forte dependência de importações essenciais e vulnerabilidades persistentes. Nos primeiros 4 meses de 2026, os produtos da cadeia de suprimentos de IA representaram 22% do total das exportações da China, impulsionando 49% do seu crescimento geral nas exportações. Um superciclo de chips de memória, desencadeado pela voraz demanda por armazenamento dos servidores de IA, foi o principal catalisador. No entanto, um paradoxo gritante persiste. Em 2025, a China registrou um superavit comercial de US$ 14,3 bilhões em toda a cadeia de suprimentos de IA. Contudo, ao isolar os componentes essenciais de computação –como processadores avançados e chips de memória de alta largura de banda– a China sofreu um deficit impressionante de US$ 156,3 bilhões. Essa dicotomia ilustra uma dura realidade. A China construiu uma competitividade global formidável em equipamentos de telecomunicações, infraestrutura de data centers e dispositivos terminais. Mas continua fortemente dependente de um pequeno grupo de fornecedores estrangeiros para o poder computacional de ponta que torna a IA possível. De fato, chips de computação avançados e memória representam aproximadamente metade de todas as importações da cadeia de suprimentos de IA da China. Olhando para o futuro, a infraestrutura de IA continuará sendo um catalisador de longo prazo para a indústria manufatureira chinesa. Os investimentos de capital de gigantes da tecnologia ocidentais –Amazon, Google, Meta e Microsoft– ultrapassaram US$ 350 bilhões em 2025 e a projeção é de que cheguem a mais de US$ 600 bilhões em 2026. Ao contrário de nações que se especializam exclusivamente em software ou design de chips, a China possui um ecossistema abrangente que engloba materiais semicondutores, fabricação de servidores, equipamentos de energia e robótica industrial. À medida que as aplicações de IA se expandem de data centers para dispositivos inteligentes e veículos autônomos, o potencial de exportação da China só tende a aumentar. No entanto, os ventos contrários estão se acumulando. O ciclo global de investimentos em IA é inerentemente cíclico. Se a comercialização de grandes modelos de linguagem falhar e o retorno sobre o investimento decepcionar, o atual frenesi de construção de data centers poderá esfriar rapidamente, reduzindo a demanda por hardware chinês. Além disso, à medida que a competição tecnológica se intensifica, as nações ocidentais estão acelerando a localização de cadeias de suprimentos essenciais e reforçando os controles de exportação de chips avançados. Com significativas lacunas em suas capacidades de computação de ponta, o setor de IA de Pequim permanece extremamente vulnerável a choques geopolíticos. A recuperação comercial da China é inegavelmente impressionante, mas mascara uma verdade incômoda. O motor de exportação do país está cada vez mais atrelado a uma revolução tecnológica cujos componentes mais críticos permanecem firmemente fora de seu controle. *Luo Zhiheng é economista-chefe da Yuekai Securities. Esta análise foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 10 de junho de 2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.