CNH bate recorde, mas condutores chegam menos preparados às ruas

admin
12 Jun, 2026
Resumo O Brasil emitiu 1.141.765 carteiras nacionais de habilitação entre janeiro e maio de 2026, o maior volume já registrado para os cinco primeiros meses do ano desde a criação do Código de Trânsito Brasileiro, em 1997. O número foi divulgado pela Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito) e supera o recorde anterior, de 2014. Na comparação com o mesmo período de 2025, quando foram emitidas 1.048.783 CNHs, o crescimento foi de 8,9%. Para o governo federal, o resultado confirma o avanço do programa CNH do Brasil, lançado em 9 de dezembro de 2025 com a promessa de baratear e simplificar o acesso à primeira habilitação. A leitura, porém, não é unânime. Para Alysson Coimbra, médico especialista em Medicina do Tráfego e coordenador da Mobilização Nacional de Médicos e Psicólogos do Tráfego, o recorde precisa ser analisado junto com a redução das exigências de formação dos novos motoristas. Segundo ele, o Brasil passou a entregar habilitações a partir de uma formação prática mais curta e menos estruturada. Antes da mudança, o candidato era obrigado a fazer 45 horas de curso teórico e 20 aulas práticas. Agora, pode estudar gratuitamente pela plataforma digital do programa e fazer apenas duas horas de aula prática antes de tentar o exame, o que barateou os custos para obter a habilitação. "O Brasil não está mais formando motoristas, quer seja para legislação, quer seja para a formação prática. Ele está entregando habilitação a pessoas", afirma Coimbra. O programa mudou pontos centrais do processo de obtenção da primeira CNH. O curso teórico passou a ser gratuito e digital, pelo aplicativo CNH do Brasil. A carga mínima de aulas práticas caiu de 20 para duas horas, e o candidato passou a poder contratar instrutores autônomos credenciados, além das autoescolas. Também houve mudanças na prova prática, que passou a aceitar carros automáticos, mudou o sistema de faltas eliminatórias e a reduziu a exigência na baliza. Para a Senatran, a modernização do processo não reduziu a procura nem comprometeu as etapas de formação e avaliação. A secretaria afirma que houve crescimento simultâneo em cadastramentos, cursos teóricos, cursos práticos, exames médicos e psicológicos, exames teóricos e exames práticos de direção veicular. Entre janeiro e maio, foram registrados 5.512.753 cadastramentos para primeira habilitação, alta de 274% em relação ao mesmo período de 2025. Também foram realizados 3.013.757 cursos teóricos, crescimento de 149%, e 2.305.215 exames práticos de direção, avanço de 25%. Formação insuficiente Coimbra, porém, vê risco na combinação de menos aulas obrigatórias, prova prática mais curta e novas formas de contratação de instrutores. Na avaliação dele, a política pública reduziu barreiras de entrada, mas também enfraqueceu a preparação mínima de quem chega às ruas. "A gente está falando de uma formação insuficiente. É uma entrega com alguns requisitos mínimos, mas claramente está inserindo no trânsito motoristas despreparados", diz. Autoescolas ouvidas pela coluna em São Paulo também relataram mudança no comportamento dos candidatos. Os antigos pacotes de 20 aulas quase não são mais vendidos. Mesmo alunos que nunca dirigiram passaram a comprar menos aulas, em parte pelo aumento do valor unitário e em parte pela percepção de que o exame prático ficou menos exigente. Uma das mudanças mais citadas pelo setor é a possibilidade de fazer a prova em carro automático, considerado mais simples por eliminar a troca de marchas. Também há relatos de que a retirada de algumas faltas eliminatórias e a redução da exigência em manobras como baliza facilitaram a aprovação. "Antes, o aluno perdia ponto por faltas mais simples, como deixar o carro morrer. Agora, ele só perde ponto em caso de infração de trânsito e, mesmo assim, precisa cometer algumas para ser eliminado. Além disso, a possibilidade de fazer a prova com carro automático muda tudo, porque é muito mais simples", afirmou o gerente de uma autoescola ouvida pela coluna, sob condição de anonimato. 20 milhões dirigem sem habilitação A redução da formação obrigatória foi defendida pelo governo como forma de atacar um problema antigo: o alto custo da CNH. Um dos principais argumentos do Ministério dos Transportes para mudar as regras era a existência de cerca de 20 milhões de brasileiros conduzindo carros e motos sem habilitação no país. A promessa era tornar o processo mais barato para atrair esse público para a legalidade. Na avaliação de Coimbra, os números divulgados até agora ainda não mostram uma conversão relevante desse contingente em novos condutores habilitados. Para ele, o crescimento existe, mas é pequeno diante do tamanho da promessa feita pelo governo. "Esses números representam, sim, um acréscimo no total de habilitações, mas o que era dito no lançamento da CNH do Brasil é que o objetivo também era legalizar milhões de brasileiros que dirigiam sem habilitação. Essa conversão não aconteceu na proporção esperada", afirma. Desde o início do programa, em 9 de dezembro de 2025, já foram emitidas 1.336.123 CNHs, segundo a Senatran. O número confirma que houve aumento de movimento no sistema, mas ainda não permite afirmar que a política conseguiu atingir, em escala, os motoristas que já circulavam sem documento. Na prática, a CNH do Brasil reduziu custos principalmente para quem já sabe dirigir. Levantamento feito pela coluna em São Paulo mostrou que, apesar de o custo oficial, sem as aulas, no estado partir de R$ 285,66 para quem optar apenas pela versão digital, a conta real para um candidato sem experiência ainda pode passar de R$ 2 mil. Nas autoescolas consultadas, o pacote inicial, com apenas duas aulas práticas, matrícula e aluguel do carro ou da moto para a prova, custa de R$ 600 a R$ 700 para carro manual ou moto. No carro automático, vai de R$ 700 a R$ 900. Para quem precisa de dez ou 12 aulas, o valor se aproxima ou supera o patamar do modelo antigo, quando o pacote era composto por 20 aulas. Ou seja, a mudança barateia o processo para quem já chega sabendo dirigir, mas não necessariamente resolve o problema de acesso para quem depende das aulas para aprender. A Senatran sustenta que os exames obrigatórios foram mantidos e que os registros seguem integrados ao Renach, o Registro Nacional de Condutores Habilitados. Para a secretaria, o novo modelo combina simplificação, redução de custos e preservação das exigências de segurança previstas na legislação de trânsito. O recorde de emissões mostra que mais brasileiros estão saindo com CNH. A controvérsia é em que condições esses novos condutores chegam às ruas. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.