Uma sociedade que desaprendeu a sofrer

admin
13 Jun, 2026
Em média, os brasileiros passam várias horas por dia diante de telas. Escrevem mensagens no WhatsApp, comentam nas redes sociais, respondem e-mails e produzem uma quantidade de textos que seria inimaginável há apenas duas décadas. Nunca houve tanta comunicação disponível. Ao mesmo tempo, ansiedade, depressão, estresse e solidão ocupam espaço crescente nas estatísticas de saúde pública e nas preocupações de governos, especialistas e famílias. Essa contradição me parece um dos fenômenos mais inquietantes do nosso tempo. Em março de 2022, a Organização Mundial da Saúde informou que os casos de ansiedade e depressão aumentaram 25% em todo o planeta durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19. Dois anos depois, a pesquisa Global Emotions, realizada pelo Instituto Gallup em dezenas de países, voltou a registrar níveis elevados de preocupação, tristeza e tensão emocional. Os avanços tecnológicos multiplicaram as formas de comunicação, mas não tornaram os seres humanos mais preparados para lidar com perdas, frustrações e sofrimento. Talvez por isso uma pesquisa realizada em 1986 continue despertando interesse quase quarenta anos depois. Naquele ano, os psicólogos James Pennebaker e Sandra Beall, da Universidade do Texas em Austin, publicaram no Journal of Abnormal Psychology um estudo que acabaria inaugurando uma nova linha de investigação científica. Um grupo de estudantes universitários recebeu a tarefa de escrever durante quinze minutos por dia, ao longo de quatro dias consecutivos, sobre os episódios mais dolorosos ou emocionalmente marcantes de suas vidas. Outro grupo escreveu apenas sobre acontecimentos neutros do cotidiano. Os pesquisadores acompanharam os participantes nos meses seguintes e encontraram uma diferença que chamou a atenção da comunidade científica. Os estudantes que haviam organizado suas experiências dolorosas em forma de narrativa passaram a procurar menos os serviços médicos. Nas décadas seguintes, centenas de estudos em diferentes países examinaram os efeitos da chamada escrita expressiva. Em 2022, pesquisadores da Universidade Normal do Leste da China identificaram 1.429 trabalhos científicos dedicados ao tema. No ano seguinte, outro grupo de pesquisadores reuniu resultados de 24 estudos realizados em diferentes países, envolvendo 1.558 participantes, e concluiu que os efeitos positivos existem, embora variem de acordo com as características das pessoas analisadas e a natureza dos problemas enfrentados. A hipótese formulada por James Pennebaker me parece especialmente relevante para uma época que transformou a felicidade em obrigação permanente. Segundo o pesquisador norte-americano, experiências reprimidas continuam exigindo energia psíquica e emocional. O sofrimento desaparece das conversas, mas permanece agindo em silêncio, influenciando o sono, a ansiedade, as relações familiares e até a saúde física. Essa reflexão me levou recentemente ao livro Afinal, por que sofremos? – Entendendo os sofrimentos, primeiro volume da trilogia escrita por Luís Henrique Beust e publicada pela Editora Anima Mundi. Ao longo da obra, o autor dialoga com referências tão diversas quanto Buda, Jesus, Santo Agostinho, Viktor Frankl, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Bahá’u’lláh para examinar uma pergunta que acompanha a humanidade desde os seus primórdios: qual é a origem e qual é o significado do sofrimento humano. Concordo com uma das ideias centrais desenvolvidas por Beust. A obsessão contemporânea por eliminar qualquer forma de dor acaba produzindo indivíduos cada vez mais vulneráveis diante das inevitáveis adversidades da existência. Beust também sustenta que o sofrimento não deve ser interpretado apenas como castigo, fatalidade ou absurdo. Em seu entendimento, exposto ao longo dos três volumes da coleção, as crises podem representar oportunidades de crescimento moral, espiritual e humano. Compartilho dessa perspectiva. Não porque a dor deva ser romantizada ou desejada, mas porque a experiência humana jamais correspondeu às promessas da indústria da felicidade. Em algum momento, todos somos confrontados por perdas, doenças, fracassos, rejeições e despedidas. A questão decisiva, como sugere o autor, não é se sofreremos, mas o que faremos com o sofrimento quando ele inevitavelmente chegar. Tenho a impressão de que estamos falhando justamente naquilo que deveria fazer parte da formação de qualquer ser humano. Ensina-se matemática, informática, idiomas e técnicas de produtividade. Pouco se fala sobre luto, fracasso, rejeição, medo e perda. Criamos gerações treinadas para competir, mas despreparadas para enfrentar os inevitáveis reveses da existência. A cultura contemporânea contribui para esse empobrecimento emocional. As redes sociais transformaram a felicidade em vitrine e a vulnerabilidade em constrangimento. Exibe-se o sucesso, escondem-se as cicatrizes. A aparência passou a valer mais do que a elaboração dos sentimentos. O resultado dessa equação está diante de nós. Uma sociedade que desaprendeu a sofrer acaba adoecendo. E o sofrimento ignorado costuma cobrar juros elevados. Como professor de jornalismo, aprendi ao longo da vida que fatos sem contexto produzem desinformação. Talvez o mesmo princípio valha para a experiência humana. Emoções sem nome, perdas não elaboradas e conflitos empurrados para baixo do tapete raramente desaparecem. Permanecem agindo em silêncio e, cedo ou tarde, acabam exigindo alguma forma de pagamento. James Pennebaker, em 1986, e Luís Henrique Beust, quatro décadas depois, chegam por caminhos diferentes a uma conclusão semelhante com a qual concordo plenamente: aquilo que nos recusamos a enfrentar continua exercendo influência sobre nossas vidas. Ignorar a dor jamais foi sinônimo de superação. Em muitos casos, representa apenas uma maneira de adiar a conta.