Johnny Depp evita falar de Hollywood após afastamento e filma vida de Modigliani
24 Jun, 2026
Johnny Depp está sumido. Galã excêntrico de Hollywood nos anos 1990 e 2000, o ator que deu vida a personagens bizarros de Tim Burton e ao carismático corsário Jack Sparrow na franquia bilionária "Piratas do Caribe" deixou de ser uma aposta segura dos grandes estúdios depois dos processos envolvendo sua ex-mulher, Amber Heard, entre 2016 e 2022, que o acusou publicamente de violência doméstica em um artigo. Ele venceu a ação de difamação movida contra a atriz. Desde então, Depp se refugia na Europa. Estrelou o filme de época "A Favorita do Rei", sobre a amante do rei Luís 15 da França, que abriu o Festival de Cannes há três anos. Depois, voltou à cadeira de diretor, quase 30 anos após seu primeiro e único filme, "O Bravo", no qual também atuou ao lado de Marlon Brando. Seu "Modi: Três Dias na Asa da Loucura", de dois anos atrás, sobre o pintor italiano Amadeo Modigliani, agora chega ao Brasil na programação da Festa do Cinema Italiano. O festival ocorre em diversas capitais, a partir desta quinta-feira (25) e, em São Paulo, segue até 1o de julho. Em entrevista por email, o ator não respondeu às perguntas sobre sua relação atual com Hollywood. Ainda em 2021, em meio ao embate com Heard, ele reclamou dos boicotes que sofreu e, dois anos depois, em Cannes, disse que não precisava nem ligava mais para a grande indústria americana. Por ora, sabe-se que ele vai viver Ebenezer Scrooge numa nova versão de "O Conto de Natal" produzida pela Paramount e dirigida por Ti West —de "X: A Marca da Morte"—, com estreia prevista para novembro, que deve marcar o seu retorno a Hollywood. Ainda há especulações sobre se ele voltará a encarnar Jack Sparrow no sexto capítulo de "Piratas do Caribe", em desenvolvimento pela Disney. É uma possibilidade defendida por uma base fervorosa de fãs que não se desestabilizou após a maratona judicial. O convite para dirigir "Modi", porém, partiu de Al Pacino, seu amigo e medalhão do cinema. Foi também ele que, em 1997, apresentou a um Depp de 34 anos a peça "Modigliani", de Dennis McIntyre, quando os dois gravaram juntos o filme de máfia "Donnie Brasco". Naquela década, Depp se consolidava como astro com personagens melancólicos ou marginalizados, em filmes como "Edward Mãos de Tesoura", "Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador" e "Medo e Delírio". "Modigliani sempre representou algo que ressoava profundamente em mim. Ele viveu numa era em que novas possibilidades ainda existiam, quando artistas podiam desafiar convenções, quando as regras estavam sendo reescritas", diz Depp. "Essa recusa em comprometer sua visão, mesmo quando o mundo o rejeitava. Tudo o que ele representava fala comigo." Não é difícil notar que o ator italiano Riccardo Scammarcio, que interpreta Modigliani, replica em seu protagonista trejeitos comuns a alguns dos personagens mais marcantes da carreira de Depp —como o próprio Sparrow, o Chapeleiro Maluco do live-action de "Alice no País das Maravilhas" e Willie Wonka no remake de "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Como eles, o artista é astuto, rebelde e um tanto esquisito e teatral. "Modi" acompanha três dias na vida de Modigliani em Paris, onde o pintor italiano morou por grande parte de sua vida. A efervescência da cidade das artes no começo do século contrasta com o clima fúnebre criado pela Primeira Guerra Mundial. Endividado, alcoólatra e envolvido em um romance turbulento com a poeta Beatrice Hastings, Modigliani tenta vender seus quadros a galeristas enquanto foge da polícia, acompanhado por um grupo de amigos boêmios. "A irreverência é o maior presente de todos. Se você não rir, vai chorar, então é melhor dar risada", diz Depp. "Vi essas qualidades em Modigliani e na vida que ele viveu. Foi difícil? Sim. Foi brutal? Sim. Mas aqueles caras se divertiam. Eu não queria afundar [o filme] em dor e autopiedade, já existe demais disso no mundo. Muitas vezes é melhor fazer a curva à esquerda que ninguém espera." Depp afirma que o filme é, de certa forma, pessoal. Ele se lançou como artista plástico em 2022, com sua primeira série de obras comerciais para a galeria Castle Fine Art, em Londres, e, de lá para cá, vem rodando o mundo com a exposição imersiva "A Bunch of Stuff", com trabalhos dos últimos 30 anos. É o mesmo intervalo de tempo que levou para ele dirigir um filme novamente. "Ao longo dos anos, tive a sorte de trabalhar com diretores fenomenais, e suspeito que aprendi algo com todos eles pelo caminho", diz. "Queria capturar como é estar nessa encruzilhada, quando você está à mercê do seu próprio talento e da sua própria natureza volúvel, quando não resta outro caminho senão criar ou destruir. Isso não é biografia. É uma experiência humana." Além de "Modi", "Fuori", filme de Mario Martone, também faz um recorte da vida de um artista italiano e compõe a Festa do Cinema Italiano. O longa, que competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado, acompanha a relação da escritora Goliarda Sapienza com Roberta, mulher que conheceu na prisão após o roubo de joias. Conforme a relação das duas se aprofunda, Sapienza consegue superar seu bloqueio criativo. Também escarafunchando o passado, o documentário "Irmãos Segreto", de Federico Ferrone e Michele Manzolini, conta a história de Pasquale, Gaetano e Alfonso, três imigrantes italianos que chegaram no Brasil no final do século 19 e tornaram-se pioneiros do cinema no país. Já "O Menino da Calça Rosa", a produção italiana mais vista por lá em 2024, destrincha a homofobia enraizada na nação ao contar a história de Andrea Spezzacatena, um menino que se suicidou em 2012, aos 15 anos, após sofrer cyberbullying por usar uma calça rosa.