O que Haaland pode ensinar ao Brasil
7 Jul, 2026
O torcedor brasileiro não chorou no domingo apenas pelos gols de Erling Haaland ou pelo pênalti perdido de Bruno Guimarães. Chorou também pelo fracasso — mais um — de uma velha mania nacional: a crença inabalável no improviso, o entusiasmo nervoso, o otimismo sem fundamento. A derrota encerra uma campanha, mas revela uma mentalidade. Acreditamos que o talento, a ginga e a inspiração serão suficientes para superar a disciplina tática e o planejamento. Confiamos que, no fim, tudo dará certo, mesmo quando quase nada foi feito para que desse. Admiramos o improvisador mais do que o planejador, o herói mais do que a equipe. Esperamos que, no momento decisivo, um drible inesperado ou um chute improvável apague, em segundos, os problemas acumulados durante anos. Às vezes isso acontece. Mas essa confiança no improvável é uma miragem que já nos custou seis Copas do Mundo consecutivas. Ao longo desse jejum, repetimos, de forma reiterada, o mesmo roteiro psicológico. Quando o improvável não acontece e o gol salvador não sai, instala-se a perplexidade nacional: como isso pôde acontecer? Nessas horas, é mais confortável terceirizar a incompetência e personificar o fracasso na figura de um carrasco. Em 2026, o vilão de turno atende pelo nome de Haaland, o gigante nórdico que empurrou nossas ilusões para o fundo das redes. Ao transformá-lo em culpado, absolvemos nossa própria desorganização, a fragilidade da nossa defesa brasileira e o deserto de ideias da seleção brasileira. Enquanto o Brasil depositava sua esperança no brilho individual, a Noruega fazia aquilo que raramente gera manchetes: organizava-se, planejava, construía uma equipe disciplinada, consciente de suas limitações e capaz de potencializar suas virtudes. O contraste entre as duas seleções resume duas filosofias: de um lado, a confiança quase metafísica no improviso; de outro, a aposta silenciosa na preparação. Mas a ferida exposta pela Noruega vai muito além das quatro linhas. No Brasil, sempre esperamos um salvador: no futebol, ele veste a camisa 10; na política, a faixa presidencial. Alimentamos a expectativa de que o crescimento econômico venha sem reformas, a educação melhore sem planejamento, a segurança avance sem estratégia e a política se regenere reelegendo os mesmos personagens de sempre. Na Noruega, o sucesso é fruto do planejamento; no Brasil, um acidente de percurso Existe uma correlação entre um país que planeja seu desenvolvimento e uma seleção que executa seu plano de jogo com disciplina e precisão. A Noruega que nos venceu em campo é a mesma que lidera rankings de bem-estar social, ostenta um dos maiores IDHs do planeta e administra sua riqueza com eficiência. Mas, em vez de investigar as razões de seu sucesso, preferimos atribuí-lo à sorte, à geografia — ou, pior ainda, nos apegamos à ideia de que a prosperidade alheia decorre do nosso atraso e da nossa miséria, como se um passado colonial remoto nos condenasse eternamente ao papel de vítimas. É uma forma confortável de preservar a autoestima sem assumir nossas responsabilidades. O futebol brasileiro é o espelho de uma sociedade que desaprendeu a planejar o futuro, esmagada pela urgência do presente. Naturalizamos a desigualdade, a corrupção, a falta de liberdade e a incompetência, enquanto continuamos a acreditar nas mesmas lorotas e promessas que, há décadas, nos mantêm no atraso, adiando indefinidamente as reformas de que o país precisa. A cada quatro anos, essa passividade se converte em esperança, nas eleições e na Copa do Mundo. Celebramos o craque que brota do terrão como um milagre, ignorando que, para cada talento que vinga, milhares são desperdiçados pela falta de estrutura. Na Noruega, o sucesso é fruto do método; no Brasil, um acidente de percurso. Haaland nos ensina uma lição dolorosa: talento sem ordem é uma labareda que encanta, mas se apaga ao menor sopro. A derrota para a Noruega foi também a derrota de uma forma de encarar o sucesso. Enquanto insistirmos no atalho e na ilusão do jeitinho, continuaremos do lado de fora da festa, vendo triunfar aqueles que compreenderam que o futuro se constrói hoje. P.S. A derrota para a Noruega também expôs a ilusão de que dinheiro resolve tudo. A CBF paga a Ancelotti cerca de R$ 60 milhões por ano (ele é o técnico de seleção mais bem pago do mundo), cerca de 10 vezes mais do que recebe o técnico da Noruega, Ståle Solbakken. Como se isso não bastasse, a CBF renovou o contrato de Carlo Ancelotti até 2030, antes mesmo da Copa de 2026. Em qualquer organização séria, contratos refletem desempenho; na cartolagem brasileira, não. O contraste é eloquente: a Noruega investiu menos no técnico e mais no projeto; o Brasil investiu mais no símbolo do que na estrutura. O resultado apareceu no placar.