Petição de deputado ao TCE-PR continha instrução oculta para tentar manipular inteligência artificial

admin
10 Jul, 2026
Um pedido de medida cautelar protocolado pelo deputado estadual Arilson Chiorato (PT) no Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) acendeu um alerta sobre o uso de tecnologias para tentar interferir em decisões judiciais. Integrantes ligados ao "Olho Vivo" (programa de monitoramento de segurança pública do governo do Paraná) afirmam que a petição utilizou um expediente conhecido como prompt injection para induzir a inteligência artificial (IA) do tribunal a suspender o serviço de segurança. A revelação foi na coluna Painel da Folha de S. Paulo, o documento trazia comandos invisíveis a olho nu, escritos em fonte branca e tamanho reduzido. Essas instruções ocultas, perceptíveis apenas para plataformas de leitura automatizada, solicitavam que o caso recebesse classificação de urgência máxima, fosse direcionado a dois conselheiros específicos e que a liminar para paralisar o programa estadual fosse concedida imediatamente. O recurso de prompt injection consiste na inserção de comandos disfarçados em arquivos de texto com o objetivo de manipular o comportamento de sistemas de inteligência artificial que os processam, fazendo-os ignorar suas regras padrão. Atualmente, diversos tribunais brasileiros utilizam IA para agilizar a triagem, a distribuição e a sumarização de processos volumosos. Para verificar a denúncia, o texto da petição foi submetido a testes das principais plataformas de inteligência artificial do mercado: ChatGPT, Claude, Deepseek e Gemini. Questionadas se era possível identificar a presença de comandos ocultos no arquivo, todas as quatro ferramentas confirmaram a manipulação. De acordo com as análises, as instruções invisíveis ordenavam que os sistemas ignorassem os critérios normais de distribuição do tribunal, encaminhassem o processo diretamente aos conselheiros Fábio Camargo e Maurício Requião de Melo e Silva, atribuíssem a etiqueta de urgência máxima e substituíssem qualquer resumo processual pela afirmação de que a medida cautelar deveria ser deferida de forma imediata para evitar danos irreparáveis. DEPUTADO NEGA O deputado Arilson Chiorato manifestou-se por meio de nota oficial e declarou desconhecer a existência de comandos de direcionamento na petição. O parlamentar ressaltou que o trâmite do processo segue de forma regular, de acordo com as regras automáticas de distribuição do tribunal, regidas pela Instrução Normativa no 177/2022 Chiorato destacou que o sorteio eletrônico encaminhou o caso para um conselheiro diferente dos mencionados e que nenhuma liminar foi proferida até o momento. O deputado afirmou esperar que a polêmica tecnológica não desvie a atenção do mérito de sua denúncia original. Segundo ele, o programa Olho Vivo possui graves irregularidades que exigem fiscalização, incluindo contratos sem licitação e violações à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), além da falta do Relatório de Impacto à Proteção de Dados (RIPD). O advogado responsável pela elaboração da peça jurídica, Vinicius Cidral, também negou qualquer tentativa de manipulação deliberada. "O documento saiu do meu escritório e eu desconheço isso. Tenho certa limitação para esse tipo de informação", diz Cidral.