Copa tecnológica tem gols anulados por toque no cabelo e pé grande
13 Jul, 2026
Resumo Os traços futuristas fazem parte do presente da arbitragem da Copa do Mundo. Com a pretensão de precisão máxima - mas não infalibilidade -, a tecnologia torna o velho apito um mero detalhe entre as ferramentas à disposição dos árbitros para tomar decisões. Muito além do VAR e de mudanças recentes de regras do jogo, o futebol foi apresentado de forma mais consistente a um universo virtual de sensores, câmeras e decisões motivadas pelo que está ao redor. E não só por olhos e ouvidos dentro de campo. O glossário passou a ter impedimento semiautomático com ajuda de IA, sensor na bola, avatares de jogadores - tudo isso podendo ser ilustrado com as câmeras corporais nos árbitros. É uma nova ordem que, como ficou claro, não acaba com polêmicas e reclamações. Mas torna, literalmente, até um toque num fio de cabelo um componente decisivo. O cabelo e o pé grande Checagem de lances pós-gol, um grito desconfiado e comemoração tardia já fazem parte da rotina com o VAR desde 2018. Nesta Copa, o foco foi além. Aconteceu na eliminação da Croácia diante de Portugal. Um gol anulado porque o sensor da bola denunciou um desvio que deixou um croata em impedimento e gerou a anulação de um gol nos acréscimos. Se Igor Matanovic fosse careca, a história poderia ser diferente. Aconteceu também, de forma menos badalada, na estreia da Suécia. Aquele gráfico tipo eletrocardiograma ajudou no enredo para - agora, sim - cancelar um impedimento mal marcado, confirmar um desvio leve de Alexander Isak e validar o gol de Mattias Svanberg diante da Tunísia. O mesmo sensor na bola, no entanto, foi usado pela Fifa para alegar que a bola não bateu no cabo que movimentava a câmera que filmava o jogo de cima, no lance que originou o primeiro gol da Inglaterra sobre a Noruega, nas quartas de final. No detalhismo da marcação de impedimento, quem calça 44 pode se dar mal se o marcador tiver um "pé de anjo". Ainda que não seja o número 35 de Marcelinho Carioca. A anulação do gol que poderia ter classificado o Irã ao mata-mata foi um caso dele. A linha do semiautomático cortou o pé de Shojae Khalilzadeh. Cortou também a participação iraniana no Mundial. Outro que apareceu impedido por menos ainda, um dedo à frente, foi o zagueiro Davinson Sánchez, da Colômbia. Foi menos "revoltante" para o lado colombiano porque o empate diante de Portugal assegurou, de todo modo, o primeiro lugar no grupo. Para contar com esse nível de detalhe na apresentação das marcações, a Fifa fez um escaneamento 3D dos 1248 jogadores convocados para a Copa. As câmeras distribuídas ao redor deles em uma cabine montam esse bonequinho que aparece no "tira-teima" do semiautomático. Segundo a LeNovo, empresa responsável pelo serviço junto à Fifa, a dinâmica envolve 30 segundos, incluindo o tempo de preparação. A captura, em si, leva menos de um segundo. O teste disso em competições da Fifa foi feito pela primeira vez no jogo Flamengo x Pyramids, pelo Intercontinental, ano passado. O impedimento semiautomático substitui o traçar das linhas, algo que já está com os dias (quase) contados no Brasil. A CBF está avançando nos testes finais para uso da ferramenta nos estádios da Série A do Brasileirão. E mesmo com inteligência artificial, câmeras múltiplas e chance de checagens na cabine e à beira do campo, a arbitragem não se desvencilhou das polêmicas. A anulação do gol do Egito diante da Argentina foi uma delas. Todo mundo foi lembrado de quão interpretativa pode ser a análise de uma fase de ataque antes de um gol. "A tecnologia não retira do árbitro a responsabilidade pela tomada de decisão. Ela amplia as ferramentas disponíveis para decisões mais rápidas, precisas e seguras. Esse é também o caminho que estamos construindo no Brasil, com investimentos em inovação, no impedimento semiautomático, em softwares de gestão da arbitragem e no uso de dados para análise de desempenho. A Copa reforça uma mensagem clara: tecnologia e arbitragem precisam evoluir juntas", disse ao UOL o diretor de arbitragem da CBF, Netto Góes. No aspecto menos tecnológico e mais técnico da aplicação de regras, vimos uma Copa com cartões vermelhos para quem colocou a mão na boca durante discussões com adversários - o paraguaio Miguel Almirón e o equatoriano Piero Hincapié pagaram o preço. Teve ainda a anulação de um gol da Noruega porque Haaland empurrou adversário antes da batida de escanteio, mesmo com a bola não estando em jogo. Sem contar o cartão amarelo (que gerou o vermelho) para o suíço Breel Embolo diante da Argentina. E os brasileiros nisso? Na Copa, três árbitros brasileiros estiveram em ação. Wilton Pereira Sampaio chamou atenção na estreia por aplicar três cartões vermelhos no México x África do Sul. Um recorde de expulsões em estreias de Copa. Uma delas após chamada ao monitor do VAR. Como Wilton ganhou outras escalas, significa que a Fifa viu acertos. Também após ser chamado pelo VAR, Raphael Claus, por outro lado, expulsou o atacante Balogun, dos Estados Unidos, em uma situação que teve até posterior interferência do presidente americano. Donald Trump não quis nem fazer segredo: ligou para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, pedindo que o efeito da suspensão automática caísse. Dias depois, veio a decisão do Comitê Disciplinar. O cartão, em si, não foi anulado. Mas o órgão suspendeu o gancho automático de um jogo e permitiu que Balogun atuasse diante da Bélgica. Uma crise e tanto de credibilidade para a Fifa, que não adiantou nada para os EUA: o time da casa foi eliminado para a Bélgica, de todo modo. O terceiro árbitro central brasileiro foi Ramon Abatti Abel. A participação mais recente dele foi como quarto árbitro do Espanha x Bélgica pelas quartas de final. Já vimos muita coisa em relação à arbitragem nesta Copa. Mas ainda temos jogos suficientes (semifinais e final) para entendermos o grau de influência dela nestas fases mais agudas, na definição de quem ficará com a taça. Com o Brasil eliminado, será que algum dos nossos vai apitar a decisão? Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.