Trabalhadores dos EUA estão mais produtivos do que nunca, e IA não é o motivo principal
15 Jul, 2026
Economistas e CEOs estão divididos sobre se a inteligência artificial já está tornando os trabalhadores americanos mais produtivos. Olhando o cenário mais amplo, porém, uma tendência mais discreta está escondida nos dados. Há anos, a "produtividade do trabalho" —medida econômica de quanto cada trabalhador produz— vem crescendo no ritmo mais acelerado em pelo menos duas décadas. A IA é apenas um ingrediente novo no caldeirão de forças que impulsionam essa tendência, não o elemento central, pelo menos por enquanto. Mercados de trabalho aquecidos, digitalização e trabalho remoto estão entre outros componentes dessa mistura. "Nunca pensei que veria tantos anos de produtividade realmente alta e, aliás, espero que continue", disse Jerome Powell a repórteres em março deste ano, antes de deixar o cargo de presidente do Federal Reserve. "E ainda nem começamos a ver os efeitos da IA generativa." POTENCIAL DE GANHA-GANHA Nos melhores momentos, ganhos de produtividade são um sinal de que os trabalhadores estão usando novas ferramentas ou métodos atualizados para trabalhar com mais eficiência —de forma mais inteligente, não apenas mais árdua. Isso pode oferecer uma situação vantajosa para trabalhadores, clientes e empresários: se as empresas conseguem produzir mais nas mesmas horas de trabalho ou em menos tempo, então presumivelmente podem aumentar a receita, reinvestir nas operações e pagar mais aos trabalhadores, tudo isso sem sacrificar a lucratividade —ou depender de aumentos de preços para elevar os lucros. Henry McVey, diretor de investimentos da firma de private equity KKR, disse que está vendo exatamente isso em todo o portfólio da empresa —em saúde, tecnologia e varejo. Redes de restaurantes estão usando computação em nuvem para gerenciar melhor o estoque. O trabalho remoto ajudou empresas a contratar de uma base de talentos maior. Prontuários médicos se tornaram digitais. "Acredito que os ganhos de produtividade começaram a surgir após a Covid-19 com a digitalização do trabalho, o trabalho remoto e a implementação de aprendizado de máquina —e estamos apenas arranhando a superfície da IA", disse McVey. Outro fator por trás da melhora nos números tem sido o baixo desemprego, que permaneceu em 4,5% ou abaixo desde outubro de 2021 —a sequência mais longa desde a década de 1960. Quando praticamente todos que querem trabalhar têm um emprego, os empregadores precisam pagar mais para atrair pessoas, o que os leva a buscar eficiência em outros lugares. Isso pode se tornar autorreforçante, afirmou Chirag Lala, da organização sem fins lucrativos focada em desenvolvimento econômico Center for Public Enterprise, especialmente se a IA começar a dar retorno. "Uma vez que iniciamos uma tendência com consumo, renda ou produtividade, é como inércia", acrescentou. Quebrá-la exige um choque sério. AJUSTES DE PESSOAL McVey, no entanto, apontou outra razão mais negativa para o aumento da produtividade: cortes de empregos. Houve demissões significativas em finanças e tecnologia, dois setores que geram uma parcela desproporcional dos lucros corporativos. O emprego em tecnologia encolheu por 18 meses consecutivos. O setor financeiro perdeu mais de 100 mil empregos desde o pico em maio de 2025. Uma pesquisa do Fed com empresas nesta temporada observou que muitas companhias disseram que eficiências impulsionadas pela IA permitiram que adiassem ou evitassem contratações. Um índice paralelo de teleconferências de resultados corporativos, compilado pela Bloomberg, relatou um apetite reduzido por contratações em praticamente todos os setores. A perda de empregos é claramente uma má notícia para os trabalhadores afetados quando as empresas ficam mais enxutas. Mas economistas geralmente veem "fazer mais com menos" como algo positivo para a economia como um todo. Para o setor de "serviços profissionais e empresariais", acompanhado pelo Departamento do Trabalho, o crescimento da produtividade tem estado em 3% ou acima anualmente desde 2021. O emprego no setor caiu desde 2023, levando a uma onda de candidatos desanimados —mesmo enquanto os setores de saúde, assistência social e educação ajudaram a compensar a folga no crescimento geral de empregos. O crescimento econômico contínuo acima do esperado, apesar da imigração contida e das ondas de aposentadorias dos baby boomers, também é um sinal do aumento da produtividade entre trabalhadores em "idade produtiva", de 25 a 54 anos. RAZÕES PARA CAUTELA Nem todos estão convencidos de uma leitura otimista dos dados recentes de produtividade. Os números de produtividade são notoriamente voláteis no curto prazo, observam os mais desconfiados. E enquanto pregadores da tecnologia atribuíram os ganhos à IA, alguns especialistas seguem céticos. O AI Labor Market Tracker do Yale Budget Lab, por exemplo, não encontrou nenhuma ligação clara entre adoção de IA e mudanças no emprego. "Há várias possibilidades aqui, e os dados de produtividade em particular são realmente difíceis de interpretar", disse Martha Gimbel, diretora-executiva do laboratório. Produtividade é, de forma mais simples, produção dividida por horas trabalhadas. Mas também é medida pelos economistas em termos "reais", o que significa que o lado da "produção" da equação é ajustado pela inflação. Então, picos voláteis de inflação podem puxar para baixo os números principais de produtividade, mesmo quando os trabalhadores não estão menos eficientes do que antes. As tarifas de 2025 e o choque do preço do petróleo deste ano devido à guerra no Irã elevaram a inflação, o que pode fazer a produtividade parecer mais fraca no curto prazo do que realmente é. Ainda assim, os preços do petróleo caíram dos picos da guerra. Se isso se mantiver, os dados de produtividade podem parecer melhores no final deste ano. QUEM SAI GANHANDO? Ainda é uma questão indefinida se os ganhos de eficiência corporativa serão compartilhados com as famílias. Por anos, os salários ficaram atrás do crescimento da produtividade, diminuindo a participação dos trabalhadores na renda nacional. "Se a remuneração real fica atrás do crescimento da produtividade, a participação do trabalho cai", disse Jared Bernstein, que presidiu o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Joe Biden. Na última década, o crescimento da produtividade foi o dobro do crescimento da remuneração real, segundo a análise de Bernstein.