Por que desligaram acelerador de partículas do Cern? Não tem a ver com ETs

admin
18 Jul, 2026
Resumo O anúncio de que o LHC (Grande Colisor de Hádrons), o acelerador de partículas da Organização Europeia para a Investigação Nuclear (Cern), ficará desligado até 2030 para uma atualização técnica virou combustível para teorias da conspiração. Pessoas nas redes sociais passaram a associar a pausa a supostos experimentos secretos, mudanças na realidade e até portais para outras dimensões —nada disso, porém, tem embasamento científico. Por que o acelerador foi desligado? A interrupção faz parte de um plano antigo. O desligamento do acelerador, que ocorreu no dia 29 de junho, integra um cronograma conhecido como LS3 (Long Shutdown 3), previsto há anos pelos cientistas. O objetivo é modernizar a infraestrutura do LHC para que ele volte a operar, em 2030, com capacidade muito maior de realizar colisões entre partículas. O LHC está localizado na fronteira entre a França e a Suíça, próximo a Genebra. As obras envolvem uma ampla reforma do equipamento. Durante os próximos anos, serão substituídos cerca de 1,2 quilômetro de componentes do acelerador, além da instalação de novos ímãs e sistemas de foco dos feixes de partículas. A atualização permitirá transformar a máquina no chamado High-Luminosity LHC, capaz de produzir aproximadamente dez vezes mais colisões do que a configuração atual. Pesquisa científica não será interrompida. Embora o acelerador permaneça desligado, físicos continuarão analisando a enorme quantidade de dados coletados nos últimos anos. Esse trabalho costuma levar anos e frequentemente resulta em novas descobertas mesmo sem a realização de experimentos inéditos. O LHC já passou por outras pausas programadas. Desde que entrou em operação, em 2008, o acelerador foi desligado em diferentes ocasiões para manutenção, reparos e modernizações. A primeira interrupção ocorreu entre 2013 e 2015, quando o equipamento foi preparado para operar com energias mais altas. A segunda, entre 2018 e 2022, incluiu melhorias nos detectores e na infraestrutura do complexo. Desligamento virou combustível para teorias Principal narrativa envolve supostas mudanças na realidade. Uma das teorias mais compartilhadas afirma que o Cern teria alterado a linha do tempo ou criado um universo paralelo durante experimentos anteriores. Segundo essa versão, o desligamento poderia "reverter" essas alterações ou preparar uma nova mudança quando o acelerador voltar a funcionar em 2030. Ideia costuma ser associada ao chamado "efeito Mandela". Segundo os conspiracionistas, o fenômeno em que grupos de pessoas acreditam lembrar coletivamente de fatos que nunca aconteceram daquela forma é resultado dessas supostas mudanças na realidade. Outra teoria fala em portais para outras dimensões. Essa hipótese circula há mais de uma década e voltou a ganhar força após o anúncio da pausa. Seus defensores alegam que o LHC seria capaz de abrir portais dimensionais — ou até um portal para o inferno — e que o desligamento serviria para conter consequências desses experimentos. Não existe qualquer evidência científica de que aceleradores de partículas possam produzir esse tipo de fenômeno. Também surgiram alegações sobre descobertas secretas. Em publicações nas redes sociais, algumas pessoas afirmam que o Cern teria encontrado algo perigoso, como provas de universos paralelos, matéria escura "fora de controle" ou até contato com inteligência extraterrestre. Nessa narrativa, o desligamento seria uma desculpa para esconder essas descobertas. O cronograma, porém, já era conhecido muito antes de essas especulações surgirem. O retorno previsto para 2030 também alimentou especulações. Algumas publicações tentam relacionar a data à Agenda 2030 da ONU (Organização das Nações Unidas), sugerindo uma coordenação global secreta. Não há qualquer evidência dessa ligação, e o calendário do Cern é definido por critérios técnicos ligados às obras e aos testes necessários para a modernização do acelerador. Conspirações acompanham o Cern há anos As suspeitas sobre o laboratório não começaram agora. Desde antes da entrada em operação do LHC, em 2008, o Cern é alvo de teorias da conspiração que atribuem ao acelerador poderes inexistentes. Entre elas estão alegações de que a máquina poderia criar buracos negros capazes de destruir a Terra, manipular o espaço-tempo ou provocar alterações permanentes na realidade. Um vídeo de 2016 ajudou a alimentar essas histórias. Na época, imagens que mostravam pessoas encapuzadas simulando um ritual em frente a uma escultura no campus do Cern viralizaram como suposta prova de práticas ocultistas no laboratório. Posteriormente, a própria instituição informou que se tratava de uma encenação feita por funcionários como uma brincadeira, sem qualquer relação com pesquisas científicas. O que dizem os cientistas Não existe evidência para nenhuma dessas teorias. Especialistas explicam que o LHC acelera partículas a velocidades próximas à da luz para estudar a estrutura fundamental da matéria e compreender melhor as leis da física. Os experimentos são acompanhados por milhares de pesquisadores de diferentes países e têm seus resultados publicados e revisados pela comunidade científica. O Brasil é um dos países-membros do Cern. Em 2024, após 14 anos de negociações, o governo brasileiro aderiu ao maior centro de pesquisas de física do mundo. À época, o Cern destacou que a adesão transformou o Brasil no primeiro país latino-americano a fazer parte do Centro, na condição de membro associado. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.