UTS: o futuro do tênis ou só uma opção engraçadinha?
20 Jul, 2026
Resumo Um torneio de tênis em que os fãs podem gritar a qualquer momento, inclusive durante os pontos; a contagem é diferente; há cartas de bônus; e até a quadra é diferente. Falo do Ultimate Tennis Showdown (UTS), que tem uma etapa no Rio de Janeiro esta semana com João Fonseca, Nick Kyrgios e outros nomes interessantes. Levanta-se, então, um debate: seria o UTS uma tendência? Um evento que aponta caminhos para o tênis profissional? Ou apenas um torneio descontraído que vai animar uns fins de semana aqui e ali? O UTS é criação do técnico francês Patrick Mouratoglou. Ele acredita que o tênis precisa mudar para chegar a um público mais jovem. Para defender sua tese, já citou que o espectador médio do tênis tem 61 anos. Antes de ir adiante, uma explicação: esse levantamento, que também é citado por Novak Djokovic até hoje, diz respeito ao público que acompanha tênis pela TV nos Estados Unidos - ou seja, um levantamento um tanto restrito, que desconsidera o alcance do streaming e, claro, o resto do mundo. O circuito de Mouratoglou nasceu em 2020 e nunca teve mais do que quatro etapas por ano. Jamais foi, digamos, catapultado. Como eventos, são divertidos, desde que o espectador "compre" a ideia de um espetáculo. Curtir o UTS é entender que os jogadores entrarão em quadra numa vibe mais descontraída, sem o nível de exigência ou concentração de Roland Garros ou Wimbledon. É mais entretenimento do que competição séria, embora os organizadores peçam à imprensa que não trate o UTS como exibição. Por outro lado, muitos fãs de tênis torcem o nariz para as regras do UTS. Acham que a vibe de gincana é exagerada. Até aí, tudo bem. O UTS parte da premissa de que esse nunca será seu público. A ideia é alcançar outra audiência. Aqui, contudo, é importante abordar um aspecto crucial para essa relação, e que talvez seja o maior dilema de Mouratoglou e sua trupe: O UTS depende do circuito mundial, do tênis supostamente antiquado. Para se vender, o UTS precisa de atletas de destaque na ATP e nos slams. Não há um pool alternativo de competidores. Sem tenistas bem ranqueados (na lista da ATP!) e de sucesso no circuito (da ATP!), o UTS não atrairia público. Não venderia ingressos. Não teria vida própria. Há quem chame o UTS de Kings League do tênis. Até gosto da comparação, mas há diferenças importantes. A Kings League, o showbol e todo evento de futebol mais voltado para entretenimento podem contratar celebridades, influencers e jogadores com talentos diferentes, dependendo de suas regras e situações. É perfeitamente possível ter um torneio de futebol juntando personalidades interessantes com habilidades diferentes (pense em Fausto Carvalho, Victor Madureira, Luva de Pedreiro, etc.). No tênis, não existe essa possibilidade. A Kings League tem, digamos, uma "licença poética" que o UTS não tem. O circuito de Mouratoglou será sempre refém do tênis que ele considera antiquado. Dito isto, será que as inovações do UTS não teriam sua utilidade no circuito mundial? Liberar a torcida para gritar durante os pontos? Eliminar o segundo saque? Disputas de sets (ou melhor, "quartos") com limite de tempo? Pontos específicos que valem três? Morte súbita em caso de empate? Embora, juntos, constituam um formato divertido (repito: para quem gosta!), por enquanto, nada disso foi seriamente considerado no tênis profissional. Por enquanto, o "tênis reimaginado" de Mouratoglou e suas regras "velozes e furiosas" (expressões usadas no site oficial do UTS) não vão além de eventos divertidos de fim de semana. E não há nada de errado. Se há mercado para este tipo evento e público, que alguém preencha a lacuna. Mas o UTS, assim como a Laver Cup e eventos de exibição aqui e ali, por enquanto seguem reféns do tênis tradicional e seus astros. Coisas que eu acho que acho: - Na sexta-feira, depois que João Fonseca foi superado por Nick Kyrgios e ficou fora das semifinais do UTS, gravei um vídeo para o UOL (veja abaixo) dizendo o que acho que isto significa para o tênis do brasileiro no momento. Também falei sobre os porquês no Café Com o Cossenza, meu podcast diário. Spoiler: NADA. - O mesmo vale para a participação de Guto Miguel, embora com algumas diferenças. Para o jovem de 17 anos, era um evento muito mais relevante do que para João ou pra qualquer outro tenista ali. Não é porque um brasileiro alcançou a final que o evento passou a ser extremamente relevante. O que é diferente, porém? Para Guto, era uma chance de se testar contra atletas que estão na elite (o que Fonseca faz todos os dias). Dito isto, se Guto perdesse três jogos ou fosse campeão, mudaria muito pouco na minha avaliação. Derrotar Nakashima ou Cerúndolo no UTS não fará dele um top 20 amanhã. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.