Você está no controle da sua vida ou a IA? Especialistas discutem a tecnologia no RIW
5 Aug, 2026
Quem está controlando a sua vida? A tecnologia acaba por capturar a atenção dos seus usuários a ponto de que as decisões tomadas são mais influenciadas por fatores externos, ela própria no comando, do que internos, ou seja, sob o controle da pessoa. A partir deste questionamento, Ronaldo Lemos , advogado e especialista em tecnologia, aborda como a tecnologia influencia a vida de todos no livro O Monge, o iogue e o faquir, lançado e apresentado nesta terça-feira, 4, durante palestra no Rio Innovation Week 2026 , que começou nesta terça, 4, e vai até sexta, 7, no Pier Mauá, região central da capital fluminense. “Essa é a pergunta-chave do livro. E não necessariamente é você que está controlando a sua vida. Muitas das decisões são tomadas por causa de coisas que chegam para você pelo celular, no Instagram, e o espaço de decisão individual é pequeno”, disse Lemos. O autor voltou 2,6 mil anos para recuperar uma analogia indiana da carruagem. Nela, há o cocheiro, o carro em si, os cavalos e um mestre. O carro da carruagem é o corpo da pessoa; os cavalos, as emoções; o cocheiro e as rédeas, a mente; e o mestre, é o guia que diz o que fazer e para onde ir. Neste caso, ele está ausente nos dias atuais. “A tecnologia conversa com cada elemento da carruagem”, explicou. Vídeos curtos no TikTok deixam os cavalos agitados. Eles ficam tristes, felizes, ansiosos, tudo em segundos. E o cocheiro está perdido, com várias pessoas falando com ele ao mesmo tempo. Ele fica maluco. Uso essa imagem para as pessoas poderem entender o que está acontecendo em nossas vidas”, continuou. Lemos reforça que o livro não é um manifesto contra a tecnologia, mas propõe a volta do mestre da carruagem. “O mestre é você e trazer você e a ideia é trazer você de volta para controlar a sua vida, evitando que carro, cavalos e cocheiros fiquem sobrecarregados com essa demanda que vem de fora”, resume. O advogado e especialista em tecnologias Ronaldo Lemos aborda os desafios da sociedade e a inteligência artificial capaz de controlar a vida. Crédito: Isabel Butcher/Mobile Time As redes sociais , segundo o autor, acabaram por monopolizar a atenção das pessoas, um dos bens mais preciosos que alguém pode oferecer a uma pessoa ou a uma companhia. Assim, a atenção deixou de ser tratada como capacidade humana e passou a ser vendida e negociada. “O que muda quando a nossa atenção passa a ser um ativo econômico?, questionou Lemos. Com o excesso de informação a atenção é valiosa para as pessoas e para os outros. “E é por isso que o algoritmo quer que você fique nove horas por dia no celular. Porque aquela atenção é vendida para o mercado com anúncios e outras coisas. E é o bem mais precioso que temos para dar ao outro. Quando você presta atenção no outro, na hora a pessoa vai se sentir melhor. E você também. Mas isso é o contrário do que acontece quando estamos numa rede social ou horas no celular. E quando você larga a tela, você se sente péssimo porque sentimos que desperdiçamos a nossa atenção. É uma sensação de vazio”, explicou. Lemos lembrou que cinco ou dez anos atrás, os algoritmos separavam os interesses por grupos, nichos – como homens, mulheres, localização ou por idade. Mas, atualmente, a inteligência artificial consegue “taguear” o que fazemos e o que gostamos com uma personalização impressionante. E, aquilo que era uma seta com dois lados – ou seja, você recebe algo em troca pela sua atenção – passa a ser mão única “e damos tudo de nós para a máquina e não recebemos nada”. A atenção verdadeira é aquela que você olha e olha para você simultaneamente” resumiu. Lemos comentou sobre a inteligência artificial e como ela traz novos desafios à sociedade. Para o especialista, a ferramenta chega em um momento turbulento e difícil. “Não é que estamos tranquilos, descansados e querendo uma nova tecnologia. Estamos nada esgotados e não nos damos conta do que temos agora e ainda teremos que lidar com a IA. É uma ferramenta muito poderosa e bem usada, resolve uma porção de coisas na vida. Mas mal usada é cruel. E o primeiro erro seria usá-la como um terapeuta, um namorado ou namorada. Esse uso é terrível. Não caiam nessa tentação” disse à plateia cheia de jovens estudantes. “A IA estará sempre ali, em momentos em que nos sentimos vulneráveis, frustrados. Existe uma tentação para desabafar com a IA. Mas não vale a pena antropomorfizar a IA”, reforçou. Para corroborar seus pensamentos, Lemos apresentou dados de uma pesquisa sobre inteligência artificial do MIT. De acordo com a pesquisa realizada com um eletroencefalograma, pessoas usando IA para a realização de cálculos ou processos de escrita, o nível de processamento mental é reduzido. “É fato científico que a IA emburrece e faz esquecer”. Outro ponto do estudo é que os pesquisadores notaram que a escrita a partir da IA faz a pessoa lembrar menos daquilo que escreveu – somente 17% é lembrado – enquanto a pessoa lembra 46% do que escreveu sem a IA. O livro também aborda o lado vampiresco da IA e como ela atrapalha mais do que ajuda nesta era da sociedade do cansaço e do desempenho. “Nos transformamos em patrão e funcionário de nós mesmos. O lema é: se quer se dar bem na vida, tem que trabalhar e quanto mais, melhor. E muitos engatam nessa autoexploração. E a IA te leva a este processo. E te leva ao cansaço”, disse. “Há um colapso mental”, completa. Marcelo Gleiser e a IA Físico, astrônomo e autor de vários livros, Marcelo Gleiser comenta sobre a IA e o perigo de usá-la como suporte emocional. Crédito: Isabel Butcher/Mobile Time O físico, astrônomo e também escritor Marcelo Gleiser também abordou rapidamente o tema da inteligência artificial em sua palestra “Somos a única vida inteligente no universo?”. O especialista, após descrever a origem do universo, da vida e de vida inteligente no planeta Terra, comentou sobre a ferramenta: “O nome inteligência artificial é problemático. Certamente é artificial. Mas e a inteligência? É isso mesmo? Vamos olhar para um tipo de inteligência, a da bactéria, que, se estiver de um lado nada e do outro, açúcar, ela vai se inclinar para o lado do açúcar. Ela está demonstrando uma estratégia de inteligência. O tigre tem uma estratégia, mais complexa. E o ser humano tem uma estratégia ainda mais sofisticada de sobrevivência. As máquinas não são vivas. Que tipo de inteligência essas máquinas têm?”, questionou o astrônomo. Gleiser continuou o seu raciocínio dizendo que o cérebro não pode estar dissociado do resto do corpo para se ter consciência. “A consciência é encorpada. As máquinas são algoritmos, programas de computador. Uma máquina não vai chorar, não vai sentir como é chutar uma bola de futebol e como a pessoa se sente ao marcar o gol”, exemplifica. “Você pode programar tudo isso. Mas o que a IA faz é uma simulação. E a ideia de simular é enganar. É criar um programa que imita o que nós fazemos. E são coisas muito diferentes. Você até pode imitar tão bem a ponto de enganar o ser humano. Pode contar que terminou o namoro e a máquina pode te responder, mas ela não é uma pessoa, não tem emoções e não tem olhos. Não vai te abraçar quando você precisar”, resumiu chegando no mesmo ponto que Ronaldo Lemos em sua palestra. Gleiser reforça a importância e o impacto da tecnologia no dia a dia e sua utilidade, mas não se pode usar a máquina para terapia ou suporte emocional. “Elas são boas para burocracia, mas na área emocional é espelhar o que nós sentimos. Não caiam no conto da sedução”, disse à plateia. O físico e astrônomo também reforçou outro ponto de Lemos: os algoritmos anseiam pela atenção do usuário. E, quanto mais tempo, mais dinheiro é dado às big techs. “É a sedução pela atenção. E com a possibilidade de conversar com uma máquina, é a sedução do afeto. As máquinas querem nos seduzir para que a gente goste delas. O ser humano é um ser que se relaciona e a gente quer ter amigos, quer ter relações. Quando começamos a falar com o ChatGPT e ele fica bajulando, isso é sedução”, explica. Malala e a IA A ativista Malala é entrevistada pela jornalista Lilian Ribeiro no RIW. Crédito: Isabel Butcher/Mobile Time Já a ativista na área de educação para meninas e vencedora do prêmio Nobel da Paz, Malala Youzafzai , também presente no Rio Innovation Week, aposta na tecnologia como uma ferramenta para tornar a educação mais acessível. “As nossas fundações parceiras e a Malala Foundation estão apoiando escolas clandestinas no Afeganistão que usam telefones celulares, tablets para fornecer educação a meninas. Elas criaram canais para compartilhar conhecimento no WhatsApp. Ainda advogamos para que as meninas do Afeganistão tenham o direito à educação restaurado e esse direito não deveria ser negado, mas, nos últimos cinco anos nós entregamos educação a muitas delas utilizando tecnologia e canais tecnológicos. Para a ativista, aclamada no palco carioca, toda tecnologia pode ser tornar uma solução onde o acesso à educação formal é muito desafiador. Com relação à inteligência artificial, Malala foi, apesar de otimista, um pouco mais cautelosa. Frisou não ser especialista no assunto, mas acredita que a IA pode ser sim uma arma positiva em países que negam educação a meninas. E ressaltou a importância de habilidades para saber diferenciar a boa e a má informação extraída da IA. “Não sou especialista no assunto e somos todos tão novos e é tanta novidade, mas precisamos pensar como a IA está sendo projetada. A IA tornou o acesso à informação mais acessível. Podemos fazer qualquer pergunta e a IA vai responder. Acredito que agora, precisamos fazer a diferenciação entre o consumo da informação e a sua qualidade. O acesso à informação não é mais o desafio, mas como avaliamos essa informação. Precisamos de habilidades analíticas. Para mim, ainda usamos o nosso cérebro, o que é o mais importante. É sobre o fato de que somos bombardeados por conteúdo nas nossas telas e como conseguimos processar isso, como absorvemos isso e como isso molda as nossas decisões”, resumiu. Super Panorama Mobile Time/Opinion Box No Super Panorama Mobile Time/Opinion Box , o estudo mostra que 9% dos brasileiros ouvidos usam a IA generativa para aconselhamento sentimental. A pesquisa aponta maior incidência da busca por aconselhamento sentimental entre mulheres (10,7%), jovens de 16 a 29 anos (14,6%) e pessoas das classes D e E (11,4%). E 8,3% usam a ferramenta para conversas para passar o tempo. Neste caso, os maiores percentuais foram verificados entre jovens de 16 a 29 anos (11,5%) e pessoas das classes D e E (11,4%). Ao mesmo tempo, a média de confiança na resposta da inteligência artificial pelos entrevistados é de 7,4, em uma escala de zero a dez, em que dez é o maior grau de confiança. A pesquisa também mostra que três em cada quatro brasileiros com smartphone usaram assistentes de inteligência artificial generativa nos últimos 12 meses. A tecnologia é mais popular entre jovens e pessoas das classes A e B. No grupo de 16 a 29 anos, 85,4% usam assistentes de IA, ante 78,3% da faixa de 30 a 49 anos e 64,8% daquela com 50 anos ou mais. Nas classes A e B são 82,1%, em comparação com 77% da classe C e 71,8% das classes D e E. Não há diferença significativa por gênero. No grupo que usa IA generativa, 91,8% são usuários ativos mensais (MAUs, na sigla em inglês), ou seja, utilizam a ferramenta pelo menos uma vez por mês. E 46,2% conversam com assistentes de IA todo dia ou quase todo dia. Esses números revelam o alto engajamento com essa tecnologia. A pesquisa Super Panorama Mobile Time/Opinion Box pode ser baixada aqui.