A inflação mudou?
6 Aug, 2026
A inflação costuma ser tratada como um fenômeno de preços. Mas antes de tudo, ela é um fenômeno de consumo. Nesse sentido, penso que não basta saber quanto os preços variaram. É preciso, também, saber o que as famílias efetivamente estão comprando. Quando os hábitos de consumo mudam e os indicadores demoram a capturar essa transformação, a própria medida da inflação passa a representar cada vez menos a realidade. Essa discussão se tornou mais relevante nos últimos anos. O avanço das plataformas digitais, dos serviços de streaming, dos aplicativos de mobilidade, das apostas esportivas e até das canetas emagrecedoras alterou a composição do orçamento das famílias brasileiras. Gastos que antes eram marginais passaram a ocupar espaço relevante, enquanto outros perderam importância (ou simplesmente desapareceram). O problema é que o principal índice de inflação do País depende de uma cesta de consumo construída a partir da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tal pesquisa ocorre de cinco em cinco anos e, em alguns casos, esse intervalo acaba sendo maior. Entre uma pesquisa e outra, os pesos dos produtos são ajustados apenas pela evolução de seus preços. Assim, um item que encarece tende a ganhar participação no índice, ainda que os consumidores passem a comprá-lo menos. Esse mecanismo produz uma distorção. Quando um bem fica muito caro, é natural que parte da demanda migre para produtos substitutos ou que o consumo simplesmente diminua. Logo, a inflação não depende apenas da variação dos preços, mas também da capacidade das famílias de reorganizar seus gastos diante dessas mudanças. É essa adaptação que uma POF atualizada consegue capturar. Para além desse debate, há uma outra implicação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é a referência utilizada pelo Banco Central para calibrar os juros. Se a cesta de consumo estiver desatualizada, o índice pode superestimar ou subestimar determinadas pressões inflacionárias, levando a uma leitura imperfeita da economia. Em casos extremos, isso significa exigir um esforço maior da política monetária e, portanto, juros mais elevados por mais tempo, para combater uma inflação medida sobre uma estrutura de consumo que já não corresponde à realidade. É claro que nenhuma atualização metodológica elimina a inflação nem substitui o papel da política monetária. Mas melhorar a qualidade da informação reduz a incerteza das decisões. Os hábitos de consumo mudam cada vez mais rapidamente. Logo, medir corretamente a economia deixa de ser apenas uma questão estatística. Uma economia dinâmica exige indicadores igualmente dinâmicos. Se o consumidor mudou, a forma de medir a inflação também precisa acompanhar essa transformação.