Por que um sabiá moraria em São Paulo?
6 Aug, 2026
Eu sou um sabiá-laranjeira, habitante antigo do Pacaembu e Perdizes. Tenho amigos pardais que já se foram de São Paulo e vivem dizendo (piando) pra eu me mudar pra Jundiaí – 50 minutos de voo, moleza pra quem sabe migrar. Venho pensando no assunto. Pra começar, não tem mais tanta árvore para passarinho se empoleirar por aqui. Cada vez que acaba a luz, Enel e prefeitura botam a culpa nas plantas, nos galhos - e saem cortando geral. Sobram só os fios elétricos pra gente pousar. O arame machuca o pé, a gente tem que ficar tipo Pilates lá em cima, usando o abdômen e o core pra manter o equilíbrio. Não é gostoso. Outro problema, no meu entender aviário, é que os humanos preferem os carros à vida. Veja nos Jardins: estão podando tudo para poder entuchar mais prédios, mais BYDs, mais trânsito. Ainda bem que, voando, não fico travado nos cruzamentos – quem fica, acaba assaltado. Como eu também não sou canguru (e portanto não ando de bolsa), fico em paz. Sabiá-laranjeira, protagonista desta crônica, questiona a viabilidade da vida em São Paulo Comida não é problema; São Paulo é pródiga em restos. Os moradores dos bairros por onde dou minhas avoadas colocam cascas de mamão pra gente. Também deixam sobras de churrasco pelo chão – mas estas me dão azia. Sinto falta de outros passarinhos cantando comigo. Nossos assobios tão lindos vêm sendo abafados pelos shows no estádio aqui do lado. É estranho: antes tinha gramado de verdade e futebol. Apareciam quero-queros furiosos no campo, era engraçado. Agora é um carpete cafona, e só cantoria alta - terminando tarde, depois das dez. Minha amiga coruja me contou que, pela lei, não pode fazer barulho depois das dez. Ela sabe: é criatura noturna. Não pode, mas tem. Por exemplo: sábado passado, onze da noite, eu acordei de novo com o som alto. Era Henrique e Juliano se esgoelando no Pacaembu: cuida bem deeelaa. Fui dar uma sobrevoada no sarau. No final teve rojões; quase fui atingido na asa. Saiu pena voando, parecia a Normandia. Tarde da noite, rapaziada! Passarinho tem filhote pra criar! Humanos inventam leis que eles mesmo não seguem. Dizem que na eleição se vingam dos políticos, mas não acontece. Ser político deve ser muito melhor do que ser passarinho. Realmente, por que um sabiá como eu ficaria por aqui? Se a cidade é hostil para os humanos, imagina para mim. Posso ir morar de boa na Jureia ou na Serra do Japi. Talvez eu fique por um motivo só: quem é do bem não pode largar São Paulo na mão dos urubus, carcarás, harpias e outras aves de rapina. Melhor um sabiá no fio elétrico do que um gavião no comando.