O dilema de Belo Monte: mudanças climáticas tendem a agravar conflito por água do rio Xingu
26 Aug, 2026
Passados dez anos desde a sua inauguração, a usina hidrelétrica de Belo Monte, no norte do Pará, continua sendo um dos projetos de infraestrutura mais contestados da Amazônia. Comunidades tradicionais afetadas pelo empreendimento relatam impactos severos aos ecossistemas e à qualidade de vida na região da Volta Grande do rio Xingu, enquanto cientistas alertam que as mudanças climáticas deverão agravar ainda mais esse quadro nas próximas décadas. Inaugurada em 2016, Belo Monte é a segunda maior usina hidrelétrica em operação no Brasil, responsável pela produção de 5 a 10% da energia elétrica consumida no país, dependendo da época do ano e das condições climáticas. Para fazer isso, ela desvia cerca de 80% da água do rio Xingu por meio de um sistema de barragens e canais artificiais na região de Altamira (PA), direcionando-a para a geração de eletricidade. A consequência disso é que um trecho de 100 quilômetros do rio teve sua vazão drasticamente reduzida nos últimos anos, com impactos diretos sobre os ecossistemas locais e as comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem desses recursos para a sua sobrevivência. O que é a Volta Grande do Xingu Trecho de 100 km do rio Xingu, na região de Altamira (PA), onde a vazão é controlada por Belo Monte desde 2016. Abriga comunidades indígenas e ribeirinhas e ecossistemas únicos de floresta alagada. “Essa redução da vazão gera uma infinidade de problemas”, diz o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências (IGC), da Universidade de São Paulo (USP), e coordenador de um projeto de pesquisa sobre o tema, apoiado pela FAPESP e pelas Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados do Pará e do Amazonas (Fapespa e Fapeam). Segundo ele, os efeitos da usina sobre a Volta Grande do Xingu “são muito piores do que os previstos” no processo de licenciamento, tanto do ponto de vista social quanto ambiental. A Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento, por outro lado, diz que os impactos estão dentro do esperado e que não há justificativa técnica para alterar os padrões de funcionamento da usina, que produz energia elétrica para milhões de famílias em todo o país. Belo Monte foi oficialmente inaugurada em 5 de maio de 2016, com duas de suas 24 turbinas em operação. A operação completa, com todas as turbinas em funcionamento, começou três anos e meio mais tarde, em novembro de 2019. “Parece que é um debate de narrativas, mas não é. É um debate de dados”, argumenta Sawakuchi, que também é integrante do Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati), uma iniciativa de pesquisadores indígenas, ribeirinhos e acadêmicos, que há anos monitora os impactos da usina na região ( leia mais em Belo Monte e estiagem secam Volta Grande do Xingu ). A licença operacional de Belo Monte venceu em novembro de 2021, mas a usina permanece em funcionamento graças a um mecanismo de renovação automática. Desde então há uma batalha jurídica e administrativa em curso, associada à renovação definitiva da licença, em que o Ministério Público Federal (MPF) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tentam obrigar a Norte Energia a implementar um novo plano de repartição da água (hidrograma), que garanta mais recursos hídricos para as comunidades e os ecossistemas da Volta Grande. Em dezembro de 2025, a Justiça Federal em Altamira condenou a Norte Energia e o Ibama a revisar o atual hidrograma e a estabelecer um novo regime de vazões para Belo Monte, mas o cumprimento da sentença só deve ser efetivado após o trânsito em julgado do processo — ou seja, quando não houver mais possibilidade de recurso. Paralelamente, o Ibama já havia dado um prazo para que a empresa apresentasse um novo hidrograma até 12 de janeiro deste ano, mas a Norte Energia contestou a demanda em caráter administrativo. Em fevereiro, o prazo foi prorrogado até 13 de abril. A empresa, novamente, não apresentou um novo plano de partilha da água, argumentando que os impactos estão dentro do previsto e que a revisão do hidrograma precisaria partir de uma decisão colegiada, envolvendo o Ministério de Minas e Energia (MME), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Desde então, o hidrograma já adotado pela usina permanece em vigor. O MME defende a manutenção desse regime em 2026, sob o argumento de que Belo Monte tem um papel estratégico para a segurança do sistema elétrico nacional, enquanto prossegue a discussão com os órgãos ambientais sobre uma eventual revisão das vazões. Glauco Lara Vazão reduzida, impactos ampliados A nota técnica mais recente do Mati, divulgada em novembro de 2025, faz uma comparação mês a mês da quantidade de água que passou pelo chamado Trecho de Vazão Reduzida (TVR) do rio Xingu — trecho de 100 km em que o fluxo do rio é controlado pela usina — antes (de 1972 a 2014) e depois (de 2016 a 2024) da inauguração de Belo Monte, com base em dados oficiais de monitoramento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). As análises revelam alterações radicais nos padrões hidrológicos da região, não só em relação à quantidade de água disponível no rio, mas também ao momento de ocorrência (timing) e à duração das fases de enchente e vazante, que são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas locais. Segundo o Mati, houve meses em que a vazão média do rio chegou a ser reduzida em quase 90%, em comparação com a série histórica do período pré-barragem. A duração média dos períodos de cheia, que era de aproximadamente 80 dias por ano, caiu para apenas nove dias, enquanto os períodos de seca extrema aumentaram, em média, de 45 para 104 dias. O ano mais crítico foi 2024, com seis meses seguidos de seca extrema, em função da ocorrência de um forte El Niño — fenômeno climático global que reduz a quantidade de chuvas na Amazônia. “Com base nesses indicadores, é notável a diminuição do período da cheia e o prolongamento da seca, que tem causado efeitos deletérios e preocupantes, e que podem continuar e até se agravar sob as condições decorrentes das mudanças climáticas em curso no planeta”, diz o relatório do Mati. O documento é assinado por mais de 40 pesquisadores e monitores, vinculados a instituições públicas de pesquisa e comunidades tradicionais da Volta Grande do Xingu, incluindo Sawakuchi. Parte dos dados que subsidiam os relatórios do grupo foi publicada em 2025 nas revistas Conservation Biology e Perspectives in Ecology and Conservation . Carlos Mazoca/GeoHereditas Leito do rio Xingu fica naturalmente exposto durante os períodos de seca na Volta Grande. O problema é o prolongamento e o agravamento desses períodos de escassez hídrica nos trechos impactados pela usina de Belo Monte Carlos Mazoca/GeoHereditas As projeções climáticas para as próximas décadas desenham um cenário ainda mais complicado. Estudos preveem reduções significativas de precipitação em diversas regiões da América do Sul, incluindo o sul e o leste da Amazônia, onde fica a bacia do rio Xingu, o que deverá reduzir ainda mais a quantidade de água disponível na região de Belo Monte, tanto para a produção de energia quanto para as comunidades e os ecossistemas da Volta Grande. As pesquisas levam em consideração tanto os efeitos da mudança climática quanto do desmatamento na Amazônia, que também contribui para o aumento da temperatura e a redução da precipitação nas áreas afetadas. A redução da precipitação sobre a bacia do rio Xingu, especificamente, poderá chegar a 500 milímetros de chuva por ano até o final deste século, a depender do grau de aquecimento global, segundo projeções feitas pelo professor Nicolás Stríkis, do Instituto de Geociências da USP, com base em modelos acoplados de previsão climática. Isso reduziria a precipitação média da bacia dos atuais 1.800 mm/ano para algo entre 1.500 e 1.300 mm/ano em diversas áreas, incluindo anos de seca extrema, em que a precipitação cairia para a faixa de 800 a 900 mm/ano. “Isso é clima de Cerrado”, destaca Stríkis. O rio Xingu nasce no leste de Mato Grosso e percorre cerca de 2 mil quilômetros até desaguar no rio Amazonas, no Pará. Sua bacia, abrangendo todos os seus afluentes, tem cerca de 530 mil quilômetros quadrados (uma área maior do que a da Espanha). Desde a operação de Belo Monte, a duração média das cheias no rio Xingu caiu de 80 para apenas nove dias por ano, enquanto os períodos de seca extrema mais que dobraram, de 45 para 104 dias Stríkis explica que o balanço hídrico de uma bacia hidrográfica depende essencialmente de dois fatores: precipitação e evapotranspiração — em outras palavras, a quantidade de água que entra no sistema por meio da chuva e a quantidade de água que sai do sistema por meio da evaporação e da transpiração das plantas. Se entra mais água do que sai, o balanço é positivo. Se sai mais água do que entra, é negativo. A temperatura é outro fator importante: quanto mais quente o clima, maior é a evapotranspiração. Na bacia do rio Xingu, a tendência já é de queda há alguns anos. “O resumo da ópera é que a partir dos anos 2000 a gente começa a ter balanços hídricos negativos, e a tendência é que eles se tornem cada vez mais negativos daqui para a frente. Ou seja, o rio está secando”, afirma o professor da USP. Os dados dessa modelagem ainda não foram publicados em revista científica, mas são condizentes com os achados de diversos estudos publicados em periódicos de prestígio recentemente. Um estudo publicado em março deste ano no International Journal of Climatology , por exemplo, projeta um aumento significativo na duração e na intensidade das estações secas da Amazônia nas próximas décadas, com impactos negativos sobre a disponibilidade hídrica e a capacidade da floresta de resistir a incêndios e estocar carbono. A pesquisa foi liderada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), com apoio da FAPESP ( leia mais em notícia da Agência FAPESP). André Sawakuchi/Mati-VGX Raimundo da Cruz e Silva, morador da Volta Grande do Xingu, mostra um canal do rio Xingu que leva água para uma piracema na comunidade Goianinho, cujos ciclos de inundação foram prejudicados desde a inauguração da usina André Sawakuchi/Mati-VGX Procurada pela reportagem, a empresa responsável pela usina contestou as análises do Mati. “A Norte Energia, após detida análise técnica dos estudos apresentados, identificou lacunas metodológicas, ausência de detalhamento do delineamento amostral e indisponibilidade do banco de dados bruto, fatores que fragilizam as inferências apresentadas no estudo [e], logo, suas conclusões”, afirma a empresa. Em resposta a uma solicitação do Ibama, em abril deste ano, a Norte Energia também afirmou que o relatório do Mati possui “limitações relevantes de natureza científica, metodológica e regulatória. “Empreendimento de morte” Os dados do Mati foram apresentados na trigésima Conferência das Partes (COP 30) da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU, realizada em Belém do Pará, em novembro de 2025, no âmbito de uma série de seminários sobre Belo Monte, organizada pelo MPF. Além da menor disponibilidade de água, a barragem alterou sobremaneira a duração e o timing do chamado pulso de inundação sazonal, que é quando as águas do rio transbordam mata adentro, formando os chamados igapós (trechos de floresta alagada), que são cruciais para a reprodução de diversas espécies de peixes. Normalmente, a água começaria a subir em novembro, até atingir um pico de cheia em abril. Depois começaria a descer de novo, até atingir um pico de seca em outubro. Agora, nem as populações locais e as plantas nem os animais sabem quando esses pulsos vão acontecer ou quanto tempo vão durar, porque a vazão do rio no trecho da Volta Grande passou a ser regulada pela operação da usina, e não mais pela natureza. Glauco Lara O resultado, segundo os pesquisadores do Mati, é um cenário de escassez hídrica extrema, que compromete a sobrevivência dos ecossistemas, da biodiversidade e dos milhares de famílias de populações indígenas e ribeirinhas da Volta Grande do Xingu. Não há um dado oficial sobre o número de pessoas atingidas por Belo Monte no Trecho de Vazão Reduzida, mas as estimativas variam de 3 a 6 mil. A quantidade de peixes diminuiu radicalmente, comprometendo o sustento e a segurança alimentar das comunidades locais. A locomoção, a disponibilidade de água potável e o acesso a serviços de saúde também foram seriamente prejudicados, segundo os moradores, já que muitos trechos do rio se tornaram quase intransponíveis durante vários meses do ano, por causa do prolongamento das secas. Trechos de floresta inundada que eram usados pelos peixes como áreas de reprodução e berçários naturais (piracemas) hoje estão inacessíveis aos animais, ou porque não alagam mais ou porque não ficam mais inundados pelo tempo suficiente para que esses ciclos reprodutivos se completem. “Onde a gente saía para pescar antigamente, hoje em dia não consegue mais, porque o nível do rio baixou”, disse o líder indígena Adalto Arara, da Terra Indígena Arara da Volta Grande do Xingu, em um dos seminários promovidos pelo MPF na COP 30. A construção da usina hidrelétrica, segundo ele, “mudou completamente o modo de vida” das populações locais. “Hoje em dia a gente tem que desmatar para fazer roça, para plantar cacau, para tirar nossa renda; por falta de opção. De pescadores, nós viramos agricultores”, completou a jovem indígena Kãyure Juruna, da Terra Indígena Paquiçamba. “(Belo Monte) destruiu toda a nossa vida. Não foi só uma coisa nem outra, foi tudo; porque a gente dependia do rio para tudo.” “Belo Monte só nos trouxe desastre, em todos os aspectos; a gente não sabe mais como sobreviver naquela localidade”, reforçou Orcylene Reis, moradora de uma comunidade ribeirinha do rio Bacajá, que deságua no Xingu. “Antes do barramento, era uma coisa muito fácil: você ia para o rio e pescava caixas e caixas de peixe. Hoje em dia, o pescador da Volta Grande do Xingu morre de fome.” Carlos Mazoca/GeoHereditas Redução da vazão do rio Xingu causada pela usina de Belo Monte impactou a vida de diversas comunidades ribeirinhas da Volta Grande Carlos Mazoca/GeoHereditas A procuradora Thaís Santi, do MPF em Altamira, que conduziu os seminários sobre Belo Monte na COP 30, descreveu a usina como um “empreendimento de morte”. “A destruição dos meios de vida, a destruição dos ecossistemas, retira dessas populações as condições de existência. E não é (só) a condição econômica de existência, é a condição de existência enquanto povo”, disse a procuradora. “Portanto, não há como (...) separar os conceitos de ecocídio, genocídio, etnocídio. É morte.” Josiel Juruna, coordenador do Mati e vice-liderança da aldeia Mïratu, na Terra Indígena Paquiçamba, disse que monitorar os impactos da usina equivale a “monitorar a morte de um rio”, e que a Volta Grande está se aproximando de um “ponto sem volta”. “Se a gente não tomar uma atitude [...], a gente vai perder esse ecossistema. Se a gente perder esse ecossistema, a gente vai perder todo um povo que mora naquela região, toda uma tradição que tem naquela região, tanto indígena como ribeirinho, assim como algumas pessoas quilombolas, que dependem também do rio. Então, a gente vai perder tudo isso”, disse. A Norte Energia rebate as críticas e questiona a credibilidade técnica dos dados do monitoramento local. “Ainda que os estudos do Mati possam oferecer percepções complementares, não possuem consistência metodológica e transparência para embasar, por si só, alterações no Hidrograma de Consenso”, argumenta a empresa, em uma nota técnica de dezembro de 2025. A empresa nega que a usina esteja causando impactos significativos nos ecossistemas ou no modo de vida das comunidades locais, argumentando que os dados do monitoramento conduzido pela própria operadora mostram um cenário diferente. “Quando flora (plantas), ictiofauna (peixes), pesca e quelônios (cágados, tartarugas e jabutis) são avaliados de forma integrada [...], os quatro componentes demonstram que não houve ruptura ecológica, perda irreversível de habitats, extinção local de espécies ou interrupção de ciclos reprodutivos”, diz a Norte Energia, em uma outra nota técnica, também elaborada em resposta aos questionamentos do Ibama. Segundo a empresa, o que se observa é “um sistema em reorganização, exatamente como previsto no EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e coerente com o comportamento de grandes rios após regulação hidrológica.” Em nota enviada à reportagem, a Norte Energia disse que monitora as condições de vida das famílias do Trecho de Vazão Reduzida desde 2012 e desenvolve “um conjunto abrangente de programas e ações socioambientais” na região, com o objetivo de “prevenir, mitigar e compensar eventuais impactos decorrentes da operação do empreendimento”. ( Leia a íntegra na nota da empresa aqui ) Hidrograma em xeque A quantidade de água que Belo Monte pode desviar do rio Xingu para a produção de energia a cada mês é condicionada a um plano batizado de Hidrograma de Consenso, que estipula valores mínimos de vazão para o Trecho de Vazão Reduzida (TVR). Esse hidrograma tem duas versões (A e B), que deveriam ser alternadas anualmente para, supostamente, garantir a sobrevivência dos ecossistemas e das comunidades da Volta Grande. Pelo Hidrograma A, a usina é obrigada a liberar uma média mínima de 4 mil metros cúbicos por segundo (m 3 /s) de água para o TVR no mês de abril, que representa o pico da cheia. Pelo Hidrograma B, essa média mínima obrigatória é de 8 mil m 3 /s. Os valores são diferentes para cada mês, chegando a 700 m 3 /s em outubro, no auge do período de seca. Esses valores foram definidos no processo de licenciamento ambiental da usina, mas o volume previsto no Hidrograma A é tão baixo que nunca chegou a ser implementado, por determinação do Ibama. Desde novembro de 2019, quando todas as turbinas de Belo Monte entraram em operação, a usina trabalha apenas com o Hidrograma B, que permanece em vigor em 2026, enquanto prossegue a discussão sobre sua revisão. Ainda assim, estudos científicos e relatos de moradores indicam que as vazões previstas nesse hidrograma são insuficientes para manter vivos os ecossistemas da região. Segundo o Mati, a média histórica da vazão natural do Xingu no TVR em abril, por exemplo, era de 19 mil m 3 /s — ou seja, mais que o dobro do mínimo previsto no Hidrograma B. A vazão média efetivamente liberada pela usina para aquele mês no período de 2016 a 2024, segundo o relatório do grupo, foi de 11.750 m 3 /s. Glauco Lara Além dos baixos volumes de água, segundo os pesquisadores, o hidrograma não respeita a temporalidade dos pulsos naturais de inundação do rio. “Fica evidente que a imposição de um regime hidrológico baseado em médias mensais, com enchente tardia e cheia limitada a 8.000 m3/s apenas durante o mês de abril, com vários meses de atraso em relação à enchente natural, que iniciava em novembro, compromete profundamente a reprodução dos peixes, as interações tróficas da fauna aquática e a integridade da floresta alagável”, aponta outra nota técnica do Mati, divulgada em junho de 2025, sobre os impactos ambientais da usina. “Esses relatórios têm essa intenção, de contestar dados oficiais da Norte Energia, que tentam mascarar os impactos e dizer que está tudo bem”, diz a pesquisadora Renata Utsunomiya, integrante do Mati e doutora em ciência ambiental pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE), da USP. “Além do nível de inundação da cheia, destaca-se a importância da temporalidade e da duração do pulso de inundação. Para que os ciclos ecológicos se completem é necessário que a cheia tenha início mais cedo e que o nível de cheia se mantenha elevado por pelo menos três meses consecutivos”, diz a nota do Mati. O documento propõe a adoção de um hidrograma alternativo, em que o volume de água liberado pela usina para o TVR aumentaria gradualmente a partir de novembro, chegando a 14 mil m3/s em abril, e caindo gradativamente para 850 m3/s em outubro. Outra proposta, apresentada pelo grupo na nota de novembro, seria adotar um esquema de partilha da água baseado em porcentagens fixas, em vez de volumes específicos de água para cada mês. Nesse caso, segundo a proposta do Mati, 30% da água seria reservada para a produção de energia e 70%, para a Volta Grande do Xingu. Dessa forma, o volume de água efetivamente desviado para cada função variaria de acordo com a vazão natural do rio, e não com as necessidades da usina. “Antes do barramento, você ia para o rio e pescava caixas e caixas de peixe. Hoje em dia, o pescador a Volta Grande morre de fome” – Orcylene Reis, moradora de uma comunidade ribeirinha do rio Bacajá O problema, do ponto de vista energético, é que haveria menos água em determinados momentos para a geração de eletricidade, especialmente nos meses de seca. Isso poderia reduzir a produção da usina, que é uma peça fundamental do sistema elétrico nacional. Na virada do ano de 2025 para 2026, em meio a uma forte onda de calor no Sudeste, Belo Monte chegou a gerar mais de 9% da energia elétrica consumida no país, segundo a Norte Energia. E já houve momentos em que esse percentual passou de 10%. O desafio, segundo Utsunomiya, é encontrar uma solução que contemple tanto a sobrevivência socioambiental da Volta Grande do Xingu quanto as necessidades energéticas do país. Uma discussão que, segundo ela, precisa contemplar outras fontes de energia limpa, como solar e eólica, além da hidreletricidade — que também pode gerar impactos sociais e ambientais expressivos, apesar de emitir menos carbono para a atmosfera, como mostra o caso de Belo Monte. “Quando você coloca esses impactos socioambientais na balança, a hidrelétrica não vale a pena”, avalia Sawakuchi, do Instituto de Geociências da USP. “Esses efeitos negativos regionais são muito maiores do que qualquer ganho por redução de emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera.” No caso de Belo Monte, segundo ele, até mesmo uma usina termoelétrica seria preferível ao que foi feito na Volta Grande. “Todas as grandes hidrelétricas do Brasil são dependentes da monção da América do Sul; e as projeções climáticas apontam para uma redução de vazão nas bacias de drenagem que abrigam essas grandes hidrelétricas. Então, não é só uma questão de conservar a biodiversidade aquática e as florestas alagáveis da Amazônia. É uma questão de segurança energética também.” A Norte Energia disse que “acompanha com atenção os estudos científicos acerca do tema [das mudanças climáticas] e seus potenciais impactos sobre os regimes hidrológicos da Amazônia”, e que esses cenários são considerados no planejamento operacional de longo prazo e na gestão de riscos do empreendimento, “como ocorre em todo o setor elétrico”. O desafio de conciliar a geração de energia com a disponibilidade cada vez mais incerta de água no Xingu, portanto, deverá permanecer no centro das discussões sobre o futuro de Belo Monte.