Quem investiga o que o exame não mostra? O papel do clínico em uma medicina cada vez mais tecnológica
12 Sep, 2026
Quem investiga o que o exame não mostra? O papel do clínico em uma medicina cada vez mais tecnológica Abertura do Congresso Pernambucano de Clínica Médica colocou em debate IA, diagnósticos complexos e necessidade de enxergar o paciente por inteiro Clique aqui e escute a matéria Em uma medicina cada vez mais atravessada pela tecnologia, não podemos deixar de olhar para o raciocínio clínico, a relação entre médico e paciente e a capacidade de integrar diferentes informações. Tudo isso continua a seguir no centro do cuidado. Esses temas marcaram a abertura do 3o Congresso Pernambucano de Clínica Médica, nesta sexta-feira (11), no RioMar Eventos, no Recife. A cerimônia de abertura colocou em debate o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a expansão da assistência em Pernambuco e a relevância da clínica médica como especialidade. O evento segue até o domingo (13). O raciocínio diagnóstico no centro da clínica médica Durante a solenidade, a presidente da Sociedade Pernambucana de Clínica Médica (SPCM), Christyanne Rodrigues destacou que a especialidade ganha ainda mais força diante dos casos de maior complexidade, nos quais o conhecimento científico precisa ser combinado à compreensão das particularidades de cada paciente. "Quando a gente pensa na clínica médica, a gente pensa naquele diagnóstico difícil, a gente olha para tudo, nada é excluído para se ter hipóteses diagnósticas", observou Christyanne, ao ressaltar que o clínico frequentemente é acionado diante de situações em que outros caminhos não foram suficientes para chegar à solução. Para a médica, a especialidade se caracteriza justamente pela capacidade de integrar diferentes dimensões do cuidado e unir conhecimento científico e humanidade. "Não excluímos. Somos coração e rim, somos pulmão e intestino, somos doença e tratamento, somos evidência clínica, científica e somos também pelo paciente", afirmou. Para o presidente da SPCM, Gustavo Miranda, a realização do congresso representa o fortalecimento da clínica médica em Pernambuco, ao aproximar profissionais, estimular a atualização permanente e colocar em debate os desafios que acompanham as transformações da medicina. Tecnologia não substitui o encontro entre médico e paciente As transformações tecnológicas também estiveram entre os assuntos abordados na abertura. Ao falar sobre ferramentas como a inteligência artificial e a medicina de precisão, o médico Eduardo Jorge da Fonseca Lima, conselheiro efetivo por Pernambuco no Conselho Federal de Medicina (CFM), defendeu que os avanços devem ser incorporados à prática médica como instrumentos capazes de ampliar o conhecimento e favorecer o diagnóstico, sem substituir a dimensão humana do cuidado. "A gente acredita que a medicina de precisão, que a tecnologia, a IA, chegam sempre para agregar conhecimento, para favorecer o diagnóstico, mas jamais vai substituir a empatia, o cuidado com o paciente, a relação médico-paciente na sua plenitude, o olho a olho, o carinho, o efetivamente estar com o outro ao seu lado desta trajetória", pontuou Eduardo. Ele também destacou o momento de renovação da clínica médica em Pernambuco, com a participação de médicos residentes que têm se destacado na profissão. "Pernambuco segue com uma clínica médica renovada e muito mais crescente, com toda a excelência de juntar várias especialidades, mas comandar aquele tratamento", reforçou. SUS, interiorização e tecnologia na saúde pública Representando a gestão estadual, a secretária de Saúde de Pernambuco, Zilda Cavalcanti, apresentou um panorama das ações de fortalecimento da rede pública em Pernambuco. Segundo ela, cerca de 90% da população são usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto 69 unidades para assistência à população estão sob gestão direta do Estado. Com 35 anos de formação médica pela Universidade de Pernambuco (UPE) e quase quatro anos à frente da gestão do SUS estadual, ela ressaltou a importância de ampliar o acesso aos serviços de saúde em todas as regiões do Estado, do Sertão a Fernando de Noronha. "Em qualquer trabalho que a gente faz, precisamos transformar a vida de alguém. E o nosso trabalho é para que as pessoas não precisem sair do seu chão (residência)", afirmou Zilda, ao destacar os desafios da descentralização da assistência. Como parte dessa estratégia, Pernambuco abriu quase 400 novas bolsas de residência médica, metade delas destinadas ao interior. A secretária também destacou a expansão da rede hospitalar, com cerca de 1.000 leitos abertos e outros 100 em construção, além de avanços na área de tecnologia da informação. Entre eles, está a Rede Estadual de Dados em Saúde, que possibilitou a interoperabilidade dos prontuários eletrônicos dos seis grandes hospitais estaduais com as unidades de pronto atendimento (UPAs) e a atenção primária. Além disso, Zilda ressaltou a importância dos encontros científicos para a formação dos profissionais, não apenas do ponto de vista técnico, mas também humano. "Esses congressos são extremamente importantes também para que a gente esteja fortalecido no conhecimento não somente das hard (competências técnicas), mas das soft skills (habilidades comportamentais e socioemocionais)", concluiu.