Hasbro vem pedindo desculpas há um ano por ter matado o Optimus Prime em 1986; o destino quis que a história terminasse da pior maneira possível

admin
13 Sep, 2026
Hasbro vem pedindo desculpas há um ano por ter matado o Optimus Prime em 1986; o destino quis que a história terminasse da pior maneira possível A série “Transformers” surgiu a partir da desmontagem de brinquedos japoneses e acabou transformando o Optimus Prime em um ícone Não sou um cara especialmente rancoroso, mas há uma coisa que há 40 anos não consigo perdoar à televisão deste país: a alguém da emissora da época pareceu uma ideia brilhantíssima que os desenhos animados dos Transformers começassem às oito e meia da manhã, ou seja, apenas meia hora antes de nós, que entrávamos na aula às nove, termos que sair pela porta. Lembro-me da frustração com uma nitidez que os professores da escola adorariam ter. Um verdadeiro drama doméstico matinal que eu e alguns colegas de classe vivíamos e que, até hoje, continuo sem entender. Mas, de um jeito ou de outro, ainda dói. Eu queria assistir aos Transformers, sabem? Os Transformers são demais. O fato é que, como eu morava bem perto da escola, pelo menos dava tempo de assistir ao início com a mochila nas costas: aquela abertura lendária com aquela música dos anos 80 e vozes robóticas, o close do Optimus entrando na batalha, e sair correndo. Se a aula começava às nove, como diabos o Transformers podia começar às oito e meia? Quem ficava assistindo ao Transformers na TV da cozinha, minha avó? Isso ainda não cabe na minha cabeça... Ninguém ao volante. Essa sempre foi minha conclusão sobre a linha infantil daquela época e, com o tempo, descobri que a frase descreve muito bem outras duas coisas dessa história. Ela descreve, literalmente, a descoberta que deu origem a toda a franquia, pois a grande invenção dos Transformers consistiu justamente em desmontar outros brinquedos. E descreve o que aconteceu no dia em que, em um escritório, decidiram matar o Optimus Prime sem ter a menor ideia do que estavam fazendo com as crianças. Quarenta anos depois, essa decisão ainda pesa sobre muitos fãs. Vamos por partes. Antes de se tornarem um mito, os Transformers eram dois brinquedos japoneses diferentes A origem de tudo isso não está em nenhuma sala de roteiristas nem no caderno de anotações de um criador visionário, mas no estande da Takara na Feira de Brinquedos de Tóquio de 1983. Lá havia duas linhas de brinquedos que já estavam no mercado japonês há algum tempo, a Diaclone e a Micro Change, que abordavam a mesma ideia por caminhos distintos. Os Diaclone eram veículos que se transformavam em robôs e vinham com figurinhas humanas de dois centímetros que se sentavam dentro deles. A Micro Change focava em objetos do cotidiano que se transformavam: uma fita cassete, uma pistola, uma lupa. Grande parte desses designs saiu da cabeça de Shoji Kawamori, o mesmo homem que havia criado o lendário anime Macross. A Hasbro comprou os direitos para o Ocidente das duas marcas, uniu-as e criou uma marca totalmente nova, embora, na época, isso devesse ter parecido apenas um ajuste de produto sem grande importância. Eles retiraram os pilotos. Os robôs deixaram de ser máquinas controladas por alguém e passaram a ser seres vivos, com personalidade, facções, rivalidades e uma guerra estelar que se estende por milhões de anos. Os Transformers haviam nascido e, com eles, a Hasbro fez um enorme sucesso no mercado ocidental de brinquedos. A Marvel escreveu a “Bíblia” dos Autobots contra o relógio Com os moldes já comprados e os pilotos prontos, faltava à Hasbro o essencial: saber quem eram aqueles robôs e como vendê-los para as crianças. Star Wars e Masters do Universo haviam demonstrado que os brinquedos vendiam muito mais quando acompanhados de um contexto narrativo. E, para isso, chamaram a Marvel, onde Jim Shooter, então editor-chefe, escreveu o esboço geral do qual deriva tudo o que sabemos sobre os Transformers: duas facções de robôs alienígenas em guerra, os heróicos Autobots e os malvados Decepticons. A tarefa de dar nome e personalidade às criaturas recaiu inicialmente sobre Dennis O’Neil, o homem que devolveu a seriedade ao Batman nos anos 70, e embora Shooter não tenha se convencido com o conjunto de seu trabalho, foi daí que surgiu o nome que até hoje sustenta a franquia: Optimus Prime. O bastão de roteirista foi assumido por Bob Budiansky, que se dedicou a escrever as biografias dos personagens, um por um, com suas manias, seus medos e suas frases características. É nesse trabalho invisível que reside a explicação de por que a franquia continua de pé quatro décadas depois e por que outras franquias de brinquedos da mesma época ficaram para trás: o carisma. A série de desenhos animados estreou em 17 de setembro de 1984 com a minissérie de três episódios More Than Meets the Eye, produzida pela Sunbow e pela Marvel Productions e animada no Japão pela Toei, com apoio posterior do estúdio coreano AKOM. Durou quatro temporadas e 98 episódios até novembro de 1987. Os roteiros eram irregulares, a animação tinha dias bons e dias muito ruins, e mesmo assim aquilo funcionou de uma maneira que ninguém havia previsto. Quem era criança naquela época sabe perfeitamente do que estou falando, porque nenhum de nós assistia a um catálogo animado; víamos robôs gigantes brigando, e era uma verdadeira loucura que, além disso, um se transformasse em um caminhão e outro em um F-14. Era inútil resistir, então, claro, venderam toneladas de brinquedos em todo o mundo. O fato é que a série “Transformers” surgiu com o objetivo de vender brinquedos. Isso foi possível porque, no início dos anos 80, o governo Reagan flexibilizou o controle regulatório sobre a publicidade infantil na televisão, e o que até então era considerado inaceitável passou a ser o modelo de negócios dominante, conforme relembra esta reportagem do canal History sobre a década. He-Man deu o pontapé inicial em 1983, Transformers e G.I. Joe vieram em seguida, e depois surgiram My Little Pony e Os Ursinhos Carinhosos. Eram comerciais de 22 minutos, é verdade, mas isso não explica o que aconteceu depois. Esses anúncios se tornaram o material mitológico de toda uma geração de crianças. Os desenhos fizeram sucesso, os quadrinhos da Marvel fizeram sucesso, e a mitologia desses brinquedos foi se tornando cada vez mais complexa. Alguém criou conceitos como a Matriz de Liderança, uma espécie de Santo Graal, uma fonte de poder que armazena a personalidade e o conhecimento acumulado de gerações de Primes e que permitiu a substituição de Optimus por Rodimus. A ideia era vender mais brinquedos, é claro, mas, para isso, agora precisavam justificar para as crianças cada nova adição à linha de bonecos com um evento nas histórias em quadrinhos e nos desenhos animados. Então, decidiram matar o Optimus. Mataram o Optimus Prime e descobriram que tinham matado um pai O filme de 1986 surgiu como um projeto com uma orientação muito específica: era preciso renovar o elenco para abrir espaço para a nova linha de brinquedos. Flint Dille, consultor de roteiro, explicou isso anos depois em uma reportagem do The Hollywood Reporter: eles não sabiam que o Optimus era um ícone infantil; achavam que estavam apenas retirando uma figura popular para substituí-la por outra nova. O roteirista Ron Friedman se opôs veementemente e afirmou que tirar o Optimus Prime era como tirar o pai da família Transformers, e que isso não ia dar certo. Não deu certo. Dille lembrava que as crianças choravam nas salas de cinema, que havia pessoas saindo da sessão e que começaram a chegar cartas bastante desagradáveis dos pais. Aquele desastre emocional teve consequências imediatas e bem mensuráveis. A Sunbow pensou duas vezes antes de seguir em frente com o G.I. Joe no ano seguinte e poupou a vida de Duke no último momento, transformando sua morte em um coma providencial — um assunto que já contei na época aqui mesmo e que continua me parecendo o melhor indicador do quanto a Hasbro ficou assustada. O filme, que custou seis milhões de dólares e arrecadou menos nos Estados Unidos, foi um fracasso de bilheteria, apesar de contar com Orson Welles em seu último papel como Unicron, Leonard Nimoy como Galvatron e uma trilha sonora de Vince DiCola com aquele hit cafona “The Touch”, de Stan Bush. O fato é que, diante de tanto drama infantil, a Hasbro deu marcha à ré: em fevereiro de 1987, ressuscitou o Optimus Prime na própria série e, em 1988, o trouxe de volta às prateleiras com um novo brinquedo da linha Powermaster. A campanha “The Apology Tour”, a turnê das desculpas, é exatamente o que o nome sugere. A Hasbro organizou doze meses de eventos, brinquedos, vinis, quadrinhos e produtos promocionais em torno de uma ideia que, em qualquer outro setor, soaria como um delírio comercial: pedir desculpas publicamente por ter matado um personagem de ficção em 1986. Sim, é um evento comercial e uma estratégia publicitária, mas... Há uma história por trás disso. O ponto alto acontece no dia 17 de setembro, quando *The Transformers: The Movie* volta aos cinemas restaurado em 4K. A Espanha não terá essa sorte, ao que parece, então, por enquanto, ficamos com a vontade, embora em 2024 o evento do 40o aniversário da marca tenha passado por alguns cinemas; portanto, não percam a esperança. A data escolhida não é por acaso, pois foi em 17 de setembro de 1984 que foi ao ar o primeiro episódio da série. E, em mais uma dessas coincidências da vida, exatamente três semanas antes dessa data, faleceu Peter Cullen, a voz do Optimus Prime desde 1984 na versão original e que permaneceu ligado ao personagem por mais de quatro décadas, na série clássica, nos videogames e nos filmes de ação real. Até aquele dia, a turnê de desculpas da Hasbro era apenas uma campanha de marketing simpática sobre um luto fictício compartilhado por meia geração de nostálgicos e colecionadores de brinquedos. Desde a última quinta-feira, a situação mudou. No filme, antes de desligar, Optimus pede aos seus Autobots que não fiquem tristes. É um conselho que, aos sete anos, não adianta absolutamente nada e que, para quem tem quase 50, também não funciona muito melhor, mas lá está. A família de Cullen pediu que ele fosse lembrado por servir à comunidade e tratar os outros com integridade e lealdade, que é exatamente o que o bom e velho Optimus faz. A Hasbro terá agora que decidir o que fazer com uma turnê de desculpas que ganhou um significado profundo pelo pior motivo possível. Inscreva-se no canal do IGN Brasil no YouTube e visite as nossas páginas no Facebook, Twitter, BlueSky, Threads, Instagram e Twitch!