"A IA nunca alcançará o poder de criação dos sambistas"

admin
21 Sep, 2026
Filho dos apresentadores Aerton e Aziza, Jorge Perlingeiro iniciou na TV na produção do "Aérton Perlingeiro Show". Pouco depois, criou o "Samba de Primeira", programa dedicado exclusivamente ao samba. Em mais de quatro décadas, atuou em várias emissoras de TV e rádio. Como diretor da Vila Isabel, criou a Casa de Bamba. Em 1993, passou a ser o locutor das notas dos desfiles das escolas de samba. Entre 2022 e 2024, presidiu a Liesa, onde virou Grande Benemérito. Atualmente apresenta o podcast "Só se for agora".SIDNEY: Apesar do samba ser uma grande expressão cultural brasileira são raros os programas na TV aberta. Qual é a explicação para isso?JORGE PERLINGEIRO: Não existe uma explicação lógica. Talvez um programa desse tipo não receba o mesmo investimento de patrocínio que os outros segmentos recebem. Eles optam por aqueles que julgam ter maior retorno financeiro, tipo novelas, filmes, jornalismo e programas de auditório, onde o samba participa como convidado, nunca como um programa específico. Foram poucos os programas de samba. Teve o "Esquenta", da Regina Casé, e o "Samba de Primeira", que mesmo na TV aberta era uma produção independente, eu que buscava patrocínio. Hoje, na TV de assinatura e na internet, você encontra muito mais pelo segmento. Um exemplo é a quantidade de podcasts que falam de samba, todos com alcance e visualizações muito boas. Como o senhor analisa as mudanças do samba desde o início da sua carreira até os dias de hoje? O senhor aceita que a Inteligência Artificial seja utilizada para compor sambas-enredo?Eu não vejo tanta mudança. O gênero do samba passou para o samba cadenciado, samba de black, samba de roda, e, a partir daí, começaram a surgir os sambas românticos. Cantores como o Belo e muitos outros cantaram mais pela música do momento do que o samba tradicional de Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Almir Guineto. Mas não mudou nada. Samba é samba a vida inteira. A Inteligência Artificial não vai compor nada, o mundo do compositor é eterno. Hoje, a internet ajuda em muitas coisas, mas, sem o poder da criação, como João Nogueira dizia, nada feito. A internet e a IA não alcançam o poder de criação do artista e temos que respeitar isso.O "Samba de Primeira" completará 50 anos. Quais foram os nomes lançados pelo programa?É fácil a resposta: todos os sambistas que iniciaram suas carreiras neste período começaram lá, comigo. Todos tinham lugar. Os outros programas não abriam as portas para sambistas desconhecidos. As emissoras não apostavam em quem estava começando, já queriam o artista pronto. A maioria que por lá passou é sucesso até hoje. Tenho muito orgulho de dizer que os acompanho desde o início de suas carreiras e continuam comigo. O "Samba de Primeira" foi de fato um grande incentivador e deu muita oportunidade para todos aqueles que estavam começando. Em março do próximo ano, farei uma grande festa para comemorar os 50 anos de estréia do programa e vou contar com a maioria no palco. Será uma grande e inesquecível festa.O senhor é um dos poucos da sua geração ainda em atividade. Como é o diálolgo com os novatos? Eu ser um dos poucos em atividade na carreira se deve muito ao fato da minha longevidade de quase 82 anos e o diálogo com a galera mais nova ser o mesmo. Existe o respeito, muitos me chamam de "senhor" e "tio" e eu brinco, chamo de "sobrinho", mas o diálogo é igual. Além disso, eu tenho o meu podcast que muito me aproxima da geração que está surgindo agora e por eles tenho muito carinho. Essa nova safra é muito boa e mantém vivo um segmento que não irá acabar nunca. O samba agoniza, mas não morre.Desde a fundação da Liesa, há 42 anos, o senhor faz parte do mundo das escolas de samba. Como avalia a evolução dos desfiles durante esse tempo?A evolução dos desfiles desde aquele tempo vem crescendo a cada ano e virou um grande espetáculo. Mudou do Carnaval tradicional, raiz, para alegorias fantásticas, efeitos pirotécnicos, iluminação. Tudo isso colaborou para o espetáculo que é hoje. Entrei com o Castor de Andrade, o primeiro presidente, como assessor de imprensa, passei a coordenador, diretor artístico e cheguei a presidente. Hoje, sou grande benemérito da entidade. Tenho muito orgulho de fazer parte da Casa. Em 2015, um decreto do então prefeito Eduardo Paes considerou a expressão "10, nota 10", na sua voz, um Monumento Linguístico do Carnaval carioca. Há 33 anos sendo a voz da apuração, os desfiles ainda te surpreendem?Eu tenho um orgulho muito grande e sou grato ao ex-prefeito Eduardo Paes, que considerou a expressão "10 nota 10" como patrimônio imaterial. São 33 anos, eu acho que marca, né, como outros casos que ficaram perpetuados. Me orgulho de ser a voz do momento "filé mignon do Carnaval", que é a apuração. A escola se preparou o ano inteiro para fazer um grande espetáculo em 82 minutos e mostrar ao grande público e aos jurados. Hoje se ganha o Carnaval por meio décimo, um décimo. E assim tem sido de alguns anos para cá, de tanta paridade que existe entre as escolas. O desfile é disputado até o último quesito, sempre. E eu acho muito bom.Alguns torcem o nariz para o fato de bicheiros estarem no comando das agremiações. Como o senhor analisa este fenômeno e esta crítica?Eu não tenho que torcer o nariz pelos contraventores, porque foi graças a eles que o Carnaval chegou onde está atualmente. No passado, quando a Liga não existia, as escolas de samba, através da sua associação, recebiam migalhas para desfilar. Não tinham nem contrato, recebiam um "cala-boca" para desfilar. O Carnaval alcançou a riqueza e o ponto que está com a chegada da Liga, que os chamados "contraventores" fundaram e criaram. Os desfiles chegaram a esse nível de espetáculo graças a eles. Eu não distingo quem é contraventor, se é isso ou aquilo, eu sei que graças a esses patronos, presidentes de honra, que hoje, para o bem do sambista, o Carnaval é uma liga independente com autonomia para fazer o maior espetáculo a céu aberto do mundo. Eu só tenho que bater palmas para eles. Só se for agora! Colaboração de Claudia Villas Boas