Desafio da inteligência artificial se alastra para além do impacto tecnológico

admin
27 Oct, 2026
Há uma pergunta que tem aparecido com frequência nas salas de reunião: como aproveitar o potencial da inteligência artificial? Embora legítima, acredito que ela parte do ponto errado. O verdadeiro desafio da IA não é tecnológico, mas humano, organizacional e cultural: a maioria das empresas não sofre por falta de IA, mas pelo excesso de processos, decisões e estruturas que já não fazem sentido. Acompanhamos uma aceleração sem precedentes no desenvolvimento de ferramentas baseadas em inteligência artificial. Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que as empresas adotem essas soluções rapidamente. Ainda assim, dados externos apontam que menos de 20% das iniciativas de IA conseguem efetivamente gerar valor. O dado reforça que o desafio não está apenas em incorporar a tecnologia, mas em criar as condições para que as pessoas apliquem a IA na resolução de problemas reais, na transformação de processos, no ganho da famosa escala e, sobretudo, na geração de impacto concreto para o negócio. Durante muito tempo, a tecnologia foi vista como uma área de suporte, responsável por manter sistemas funcionando e garantir a operação. Hoje, essa visão já não é suficiente. Em um ambiente cada vez mais competitivo e dinâmico, ela passou a ser um dos principais motores de transformação dos negócios. Essa mudança se vê também na transformação do perfil das lideranças de tecnologia. CIOs e CTOs já não são especialistas técnicos e sim líderes de negócio, que precisam compreender os desafios da organização, suas prioridades e ambições de crescimento, além de influenciar as equipes e lideranças na mudança necessária. O foco deixa de ser exclusivamente a implementação de soluções e passa a ser a construção de capacidades que permitam transformar a forma como a empresa opera, toma decisões e gera valor. A inteligência artificial acelerou essa evolução. Isso porque seu impacto não se limita a uma única função ou departamento. Ela atravessa toda a organização. Está presente no desenvolvimento de produtos, na análise de dados, no planejamento da cadeia de suprimentos, na jornada comercial, na construção de marcas e nos processos internos. A sua força está justamente na capacidade de conectar áreas, informações e decisões, na transversalidade e não no pensamento funcional em silos, com cada área pensando na "sua IA". Mas existe uma armadilha comum nesse processo que vejo diariamente no meu dia a dia: olhar para a tecnologia antes de olhar para o problema. Muitas vezes, equipes e áreas discutem quais ferramentas devem adotar, chegam com um pedido de ferramenta, quando a pergunta mais importante deveria ser outra: qual desafio estamos tentando resolver? A diferença parece pequena, mas muda completamente a forma de inovar. Quando começamos pelo desafio, conseguimos identificar oportunidades reais de transformação. Quando começamos pela tecnologia, corremos o risco de apenas digitalizar processos antigos que já não fazem sentido diante das novas possibilidades. Em outras palavras, podemos simplesmente estar automatizando a ineficiência. Esse é um ponto especialmente importante quando falamos de inteligência artificial generativa e dos agentes de IA. Mais do que aumentar a produtividade, essas soluções nos convidam a repensar e simplificar nossos processos, integrando agentes de IA às equipes tradicionais. Por isso, acredito que a transformação impulsionada pela IA depende menos da tecnologia e mais das pessoas. Nenhuma ferramenta é capaz de transformar uma organização sozinha. É necessário criar uma cultura que estimule o questionamento da forma como sempre fizemos as coisas, processos que incentivem a experimentação, o aprendizado contínuo e colaboração entre diferentes áreas, em especial com a equipe de gestão de pessoas, parceiro chave no meu caso. Se a inteligência artificial tem potencial para impactar toda a empresa, seu conhecimento também não pode ficar restrito aos especialistas. O futuro passa pela democratização do acesso à tecnologia e pela construção de ambientes em que cada profissional seja capaz de identificar oportunidades de aplicação dentro de sua própria realidade. É o que chamamos "AI first", onde a IA deixa de ser uma ferramenta de especialistas e passa a ser a forma como a companhia trabalha, toma decisões e, no melhor dos casos, gera valor As organizações mais bem-sucedidas nessa jornada provavelmente não serão aquelas que tiverem acesso aos algoritmos mais avançados. Serão aquelas que conseguirem aproximar tecnologia e negócio, gerando insights que aceleram a tomada de decisão interna, com ações que impactam o mercado de forma mais rápida e diferenciada. Porque o verdadeiro desafio da IA nunca foi tecnológico, é sobre evoluir e aprender a reaprender neste novo contexto e essa continua sendo, essencialmente, uma tarefa humana. *Barbara Sapunar é diretora executiva de IT & Digital da Nestlé Brasil.